O fechamento de vários negócios, puxado pelo mau momento econômico, tem gerado um encalhe de imóveis comerciais na capital. O número de empreendimentos desse perfil disponíveis para a locação triplicou entre 2015 e 2016. Para reduzir a estatística, as imobiliárias estão dando um mês de carência para o pagamento dos aluguéis e reduzindo os preços em até 40%, sem nenhum resultado prático.

Segundo pesquisa divulgada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, Administrativas e Administrativas (Ipead), entre abril de 2015 e o mesmo período de 2016, a alta no número de imóveis comerciais disponíveis na capital foi de 218%. Somente salas, que são usadas para diferentes atividades econômicas, existem 1.339 disponíveis para a locação na capital. O número é 304,5% superior às 331 do mesmo período de 2015.

“É um termômetro de que a economia não vai bem. De um lado, os negócios consolidados estão falindo e, de outro, novos empreendimentos não são abertos”, afirma o vice-presidente do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG), Pedro Paulo Pettersen.
O grande problema, pondera o economista, é que ter imóveis comerciais parados gera efeito cascata. Aquele espaço não gera impostos, renda, além de empregos diretos e indiretos.

Espera
No caso de BH, o tempo de espera para alugar um espaço está cada vez maior. “Antes, em no máximo 45 dias, a gente alugava um imóvel comercial. Agora, não demora menos que dez meses. Mesmo dando desconto de 40%”, afirma Mauro Nunes, proprietário da Claraimóveis. Ele conta que, em 18 anos no mercado esse é o pior momento.

Outra estratégia utilizada é não cobrar o primeiro mês do inquilino. É o que chamam de carência, sendo o mais comum um mês. Dependendo das negociações pode até ser estendido o prazo.

“Imóvel fechado não é bom para o proprietário porque os gastos com condomínio e encargos permanecem. Por isso, é interessante negociar essa carência já que no período o inquilino fica responsável pelos demais custos”, afirma a presidente da Câmara do Mercado Imobiliário e Sindicato das Empresas do Mercado Imobiliário de Minas Gerais (CMI/Secovi-MG), Cássia Ximenes.

Por outro lado, o período é uma oportunidade para o empreendedor fazer os pequenos reparos ou adaptação do imóvel.

“Mesmo agora, que tudo indica que a economia está começando a melhorar, ainda não tivemos uma alta nas vendas que justifiquem preços de aluguéis caros”
Alessandro Runcini
Presidente da CDL Savassi

Negócio
Quanto ao preço, além dos descontos, houve uma queda até mesmo nos valores anunciados. O Índice Fipe-Zap, que avaliou os anúncios feitos em junho, mostrou que a média de preços de locação na capital teve uma queda de 4,81% no acumulado do ano frente ao mesmo período de 2015. O valor médio apurado em Belo Horizonte é de R$ 33 o metro quadrado.

Proprietários remodelam salas para conseguir clientes

O uso de novas tecnologias para atender os clientes em diferentes áreas tem mudado o perfil de imóveis comerciais demandados. Salas enormes são substituídas por pequenos boxes e atendimentos virtuais. O resultado é muito imóvel comercial passando pelo chamado “retrofit” ou adaptação.

“As imobiliárias agora estão focadas em orientar os proprietários de imóveis a reconhecerem seus nichos de mercado. Uma grande loja pode ser adaptada para se tornar uma academia”, afirma a presidente da CMI/Secovi-MG, Cássia Ximenes.

Existem dois caminhos a seguir. O primeiro é remodelar uma sala maior, repartindo em espaços menores. O segundo é de fato prospectando inquilinos de outras áreas que ainda não foram influenciadas pela tecnologia.

O consultor financeiro Ronaldo Falabella é um dos profissionais que mudou o perfil de imóvel demandado. Ele tinha um escritório amplo e pagava cerca de R$ 23 mil com aluguel, condomínio e encargos. Hoje, em um espaço mais compacto, paga R$ 10 mil. “Antes eu recebia todos os meus clientes no escritório por isso tinha que ter um espaço para ser a área de espera. Agora praticamente tudo é feito pelo telefone e internet. Então decidi mudar neste ano”, afirma.

Mau momento do comércio colabora para encalhe de lojas

Enquanto para alguns perfis de imóvel o que mudou foi o tipo de espaço demandado, no caso das lojas, o que mais impacta é o mau momento vivido pelo comércio na capital.

No hipercentro e Barro Preto, por exemplo, dois grandes importantes polos comerciais, as vendas seguem em queda há dois anos. Como resultado, lojas tradicionais fecharam as portas. “Andando pelas ruas, dá para notar um aumento no número de estabelecimentos fechados, mas não temos dados. Nas galerias, a situação é mais grave porque o fluxo de pessoas passando é menor”, afirma o coordenador do Conselho da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) Barro Preto, Fausto Izac.

Além da crise
Na Savassi, não foi somente a crise econômica que impactou. As obras de revitalização da região, concluídas em 2012, foram um forte componente. “Depois da reforma, os donos dos imóveis supervalorizaram o aluguel sem justificativa. Agora eles caíram na real e estão reduzindo os preços porque estava tudo parado”, destaca a presidente da Associação dos Lojistas da Savassi, Maria Auxiliadora Teixeira de Sousa.

Somente durante as obras, 52 lojas fecharam na região, segundo o presidente da CDL Savassi, Alessandro Runcini. “Foi um erro estratégico achar que apenas a reforma elevaria as vendas independentemente da situação econômica do país. Então não teve motivo para imóveis aumentarem 80%. Agora os preços estão voltando ao patamar mais aceitável”, afirma.

Aluguel