Sete anos depois da eclosão de sua pior crise financeira, a Grécia volta a ser alvo de um debate na Europa, com novos cortes de gastos e negociações de resgates. Mas o que era uma recessão se transformou em uma depressão e, hoje, se traduz em pobreza para parte da população.

Os mais de 300 bilhões de euros injetados na economia local foram destinados a salvar bancos e permitir que a administração pública pudesse continuar a operar. Mas esse empréstimo envolveu condicionalidades, entre elas cortes profundos, o que acabou afetando a vida de milhares de famílias.

Dentro do governo grego, economistas não disfarçam: o país pode ter de esperar até 2050 para voltar aos mesmos níveis de desenvolvimento social que estava em 2008. "Fala-se muito em outras regiões do mundo em década perdida. Na Grécia, o que temos são gerações perdidas", disse ao Estadão o economista Daniel Munevar, que trabalhou ao lado do ex-ministro de Finanças do país, Yanis Varufakis. "Estamos na parte mais complicada de toda a crise e o pior é que não existe uma resposta coerente".

Na avaliação do economista que foi chamado para desenhar um plano para o país, as reuniões com o FMI mostraram que a própria entidade acabou reconhecendo que havia "passado do ponto" nas exigências de austeridade. "A Grécia vive hoje a pior crise dos tempos modernos para um país desenvolvido. O FMI já entendeu isso. Mas a UE não", afirmou.

Oportunidades

O desemprego, que chegou a 28%, hoje está em 23%. Mas a queda não ocorreu por conta da criação de postos de trabalho. Muitos simplesmente deixaram de buscar empregos e saíram dos indicadores de desempregados. No total, o PIB grego já perdeu 25% de seu tamanho desde 2009 e 75% das famílias viram uma redução em sua renda.

Mas é pelas ruas de Atenas que a crise é visível. À noite, são centenas de pessoas dormindo nas ruas, enquanto voluntários percorrem a cidade com cobertores e até máquinas de lavar roupa para ajudar "a manter a dignidade".

Um desses serviços é o Ithaca, um grupo de voluntários que se uniram para ajudar a população mais necessitada. Num furgão, ele leva duas máquinas de lavar roupa e, duas vezes por semana, visita os locais mais pobres da capital grega. Ao Estado, o fundador do grupo, Fanis Tsonas, contou que decidiu agir por não suportar pensar que a crise havia transformado a vida de muitos de sua cidade.