Depois de amargar retração de 40% nos últimos três anos, o setor automotivo começa a respirar aliviado. A reboque, o segmento contribui para o reaquecimento da siderurgia e da indústria de autopeças. Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos (Anfavea) apontam que os emplacamentos subiram 9,3% no acumulado de janeiro a outubro no Brasil, no confronto com igual ano anterior. Em Minas, em outubro, houve alta de 11,3% frente ao mesmo mês de 2016.

Para dar conta da demanda, a Fiat retomou, no mês passado, os trabalhos aos sábados, em esquema de hora extra. Foram mais de dois anos sem adotar a estratégia, que permaneceu em novembro e vai se estender pelo menos até o próximo mês.

Vale ressaltar que no último triênio as montadoras foram marcadas por férias coletivas, lay-offs, paradas técnicas e demissões. Em 2016, por exemplo, a Fiat ficou 20 dias parada para adequar o estoque à demanda.

O reflexo da retomada da indústria automotiva apareceu na siderurgia. A Gerdau anunciou ontem que reativará a aciaria da usina de Mogi das Cruzes em março do ano que vem. A Usiminas também foi positivamente impactada e atribuiu o bom desempenho do terceiro trimestre ao aumento da produção e licenciamento dos carros.

O reaquecimento do setor é fruto de uma série de fatores macroeconômicos, que, quando combinados, garantem um cenário de maior confiança ao consumidor. Entre eles, a redução da taxa Selic, que saiu de 14%, em outubro de 2016, para 7,5% no mesmo mês de 2017, reduzindo os juros ao consumidor e estimulando o crédito.

Perene

Na avaliação do ex-presidente da Ford Luiz Carlos Mello, a arrancada do setor, embora longe da ideal para a retomada definitiva, aponta para um período de bonança que deve durar até dois anos.

“Nos últimos três anos, o consumidor evitou comprar carros. Agora, com o ambiente mais estável, ele volta às concessionárias. Estamos falando de uma lacuna que está sendo preenchida, de uma demanda reprimida. Não se trata de uma nova classe consumidora, como aconteceu na ascensão da classe C, mas no aumento da confiança do cliente que esperou para comprar ou trocar o carro”, diz.

A engenheira Giovana Siqueira ilustra a fala do ex-presidente da Ford. Após sete meses desempregada, ela conseguiu se reposicionar no mercado. Já com o primeiro salário, Giovana comprou um carro. “Tenho boas perspectivas para o ano que vem. A engenharia voltou a aquecer, mesmo que de forma tímida, e isso me deixa mais confiante”, diz ela, que ficou surpresa com a rapidez com que conseguiu financiar o bem.

De acordo com o diretor do Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos de Minas Gerais (Sincodiv-MG), Carlos José Barreto, até pouco tempo atrás era comum perder clientes devido à negativa dos bancos, cenário que ficou para trás. Cerca de 80% dos veículos são financiados.  


Concessionárias comercializam até 20% mais e abrem vagas

Na ponta da cadeia, concessionárias comemoram aumento de até 20% nas vendas em outubro, contra igual mês do ano passado, incrementando o quadro de funcionários. Além da melhora na economia, novos modelos e até café da manhã para recepcionar os clientes ajudam atrair o consumidor.

É o caso da Carbel Korea, revendedora Hyundai, localizada no bairro São Francisco. “As vendas estavam estagnadas porque o consumidor tinha receio de fazer dívidas. Com o cenário mais estável, famílias inteiras vêm fazer test drive. Muitas procuram o novo modelo, que tem um valor mais alto. Pelo menos duas vezes por mês fazemos um café da manhã para atender aos clientes”, diz o gerente da unidade, Élcio Cota.

As taxas de juros na rede também baixaram. Hoje, é possível comprar alguns modelos com taxa zero. Em outros casos, dependendo da entrada, os juros são de 0,59%. “O consumidor está mais confiante, mas não quer fazer dívidas altas. O valor da entrada está maior”, afirma.

De acordo com Eduardo Oliveira, diretor da Jorlan, revendedora GM, a previsão é a de que o bom desempenho continue. “Acreditamos que a recuperação finalmente tenha começado. Em outubro, vendemos 10% a mais”, diz o executivo, que responde pelas três lojas da rede, no Belverede, Pedro II e Via Expressa.

O bom desempenho do setor fez com que seis vagas de emprego fossem criadas nos últimos dias na rede Roma Veículos, que comercializa carros Fiat. Segundo Mark Crepalde, gerente de vendas da marca, a tendência é de melhora. “É nítido que as pessoas estão mais confiantes. As lojas têm ficado mais cheias e estamos vendendo mais. Em outubro, comercializamos 20% a mais do que no mesmo mês do ano passado. É uma retomada lenta, mas ela começou”, diz.

Autopeças

Depois de demitir quase 40 mil trabalhadores nos últimos anos, a indústria de autopeças também apresenta melhora. No acumulado do ano, houve aumento de 10% nas encomendas do setor, índice que deve permanecer, conforme estimativa do presidente do Sindicato da Indústria de Autopeças em Minas (Sindipeças-MG), Fábio Sacioto.

Na Ciser Automotive, fabricante de porcas e parafusos para Fiat e GM localizada em Sarzedo, os bons ventos já começam a soprar.Em outubro, o faturamento da empresa foi 45% superior a igual mês de 2016.

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