A crise econômica decorrente da pandemia de Covid-19 trouxe impacto negativo e apreensão aos trabalhadores autônomos, hoje um contingente de 21,7 milhões de pessoas em todo o país. Número que, aliás, encolheu 10,3% no trimestre abril/junho em relação ao período entre janeiro e março, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD Contínua) do IBGE. Nem tudo, no entanto, são notícias ruins ou perspectivas pouco alentadoras. Em Belo Horizonte, não faltam casos de quem apostou na própria vocação, encontrou um espaço no mercado e hoje trabalha e vende mais do que antes do surgimento do novo coronavírus.

I Love Brigadier

Marina deixou de lado o Direito para se concentrar na 'I Love Brigadier'

É o caso de Marina Fernandes e a 'I Love Brigadier', loja virtual de doces gourmet sob encomenda. As vendas começaram em 2016 - ela oferecia brigadeiros na faculdade, onde cursava Direito, e a irmã no Colégio Padre Eustáquio, onde estudava. Um processo que seguiu mais tarde, mas esbarrou nas restrições de circulação, já que se tornou impossível oferecer suas criações de forma presencial. A ordem foi investir nas redes sociais, criar canais de comunicação com o cliente e caprichar na divulgação, com um resultado que superou qualquer expectativa. E a fez deixar de lado os estudos para concursos ou a ideia de trabalhar em sua área original.

"Foi nossa melhor Páscoa, por exemplo. A casa vive cheia de doces para entrega, quase falta lugar. Nós nos cadastramos no iFood e esperávamos também entrar para o Uber Eats, mas ficamos sabendo que havia uma longa fila de restaurantes e confeitarias para o cadastro, e que teríamos de esperar. De repente, eles nos ligaram e ofereceram nossa inclusão. Ficaram surpresos com a quantidade de pessoas que nos procurava no aplicativo, sem encontrar", revela.

Ajuda
O que surgiu de forma quase despretensiosa hoje envolve toda a família e acabou sendo fundamental num momento delicado, já que o pai e a mãe de Marina perderam os empregos devido à pandemia. "Até meu avô ajuda montando as caixinhas, e meu namorado também dá uma força. Produzimos e entregamos de terça a domingo. Na segunda nem dá pra descansar, já que é dia de comprar os ingredientes e insumos, além de resolver mil coisas". Entre os doces à venda há panetones trufados, alfajores e criações como o Sanduba de Brownie. Acondicionados em embalagens delicadas, para oferecer mais do que o produto em si.
"Eu gosto de fazer o que gostaria de comer. O que a gente procura é oferecer a experiência, tratar o consumidor com carinho. Pelo whatsapp ele conversa conosco, dá ideias e é muito bom quando passa um feedback positivo", prossegue Marina. Que já pensa, com a família, em transferir a produção para um espaço específico que, mais tarde, se transformaria em loja presencial.

 

 

 

 

 

Com eventos cancelados, aposta

é no gosto pela gastronomia

No caso de Fred Clemente, a ideia de começar a produzir pães artesanais, bolos e outros quitutes nasceu por necessidade. Acostumado a trabalhar na decoração e realização de eventos, viu a agenda (e os ganhos) interrompidos pela pandemia. Um por um, recepções, festas e casamentos acabaram adiados ou cancelados. Foi a hora de lembrar dos cursos de gastronomia e da facilidade na cozinha. Em pouco tempo não só surgiu um cardápio hoje com 40 opções, como um perfil no Instagram para oferecê-los. O trabalho, que inclui as entregas, não para. E se começou com o círculo de amizades, a demanda já se amplia para bem além dele.

"Minhas reservas se acabaram em março, e eu precisava fazer alguma coisa. Como os eventos tendem a ser a última coisa a voltar, comecei a pesquisar receitas e a criar novidades. Faço tudo: as compras, a produção, a gestão das redes sociais e, na quinta-feira, véspera do dia das entregas, tenho ido até as 2 da manhã na cozinha. A cada semana sempre tem duas ou três novidades. E eu procurei caprichar na embalagem, nas etiquetas, fazer fotos bonitas dos produtos. Dá muito trabalho, é verdade, mas tem valido a pena". E já gera inclusive trabalho. "Tenho contratado uma pessoa para me ajudar na cozinha quando aperta. Com a volta dos eventos, pretendo conciliar as duas coisas".

 

Para especialista, empatia é

fundamental para se ter sucesso

Há espaço e oportunidades para os autônomos mesmo num momento econômico complicado, mas é preciso se qualificar, planejar, ter uma presença forte nas redes sociais e no mundo digital e, acima de tudo, caprichar na empatia. É o que diz o professor do Ibmec Frederico Vidigal, especialista em gestão de empresas. Ele lembra que a aposta no trabalho por conta própria é uma tendência quase natural para quem, por causa da pandemia, perdeu o emprego, ou mesmo procura alguma forma de reforçar o orçamento. E que o próprio movimento nesse sentido acaba fazendo girar uma roda que envolve outros profissionais e pequenas empresas.

"Quem tem um pequeno negócio e quer trabalhar bem a presença nas redes sociais acaba contratando um especialista, elabora uma marca, e para isso precisa de alguém da área de design, e assim por diante. Além disso, já há varios setores apostando em redes de entrega compartilhadas, reduzindo custos e facilitando a logística. E isso acaba provocando um impacto positivo na economia. Quem cresce passa a precisar de ajuda, contrata gente e serviços. É um processo que já está acontecendo", avalia.

Para Vidigal, até mesmo o fato de várias empresas fecharem as portas abre espaços que podem ser aproveitados por quem se aventura como empreendedor. Mesmo com o cenário incerto envolvendo a economia, ele recomenda planejamento e observação da realidade a partir de um questionamento: "o que eu posso fazer em relação às necessidades e desejos do cliente?". "Eu não posso pensar que, só porque faço um produto de qualidade, as pessoas vão comprar. É preciso trabalhar todas as etapas do processo, usar de criatividade, ter a noção do que faz a concorrência. E partir do princípio de que as pessoas terão uma pré-disposição menor para gastar. O que, por outro lado, tende a acontecer mais com produtos de maior valor agregado".

A empatia, segundo ele, é hoje o principal diferencial, que pode trazer frutos para além do cenário da pandemia. "O cliente está carente, quer ser ouvido e ter suas demandas atendidas. Um produto de qualidade feito com carinho, numa embalagem atraente, o conquista. E gera uma fidelização, além de multiplicar a divulgação, pelo boca a boca, pela recomendação. E é de quem está ao nosso lado no meio de uma crise que a gente lembra quando as coisas estiverem melhores".

Formalizados
Os números de formalização de autônomos como Microempreendedor Individual em Minas refletem essa procura. Na comparação entre março e junho deste ano e o mesmo período do ano passado, houve 44.420 formalizações, aumento de 16%. Algo que também se verifica na procura por qualificação. Os atendimentos do Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae) em Minas (não apenas para os MEIs) saltaram de 2.760 em fevereiro para 8.879 em abril. Entre os cursos mais procurados estão os de gestão de pessoas, atendimento ao cliente, como vender pela internet na crise do coronavírus e aprender a empreender.