Já imaginou pagar apenas R$ 48 de reais de conta de luz? Esse é o valor da conta paga por mês pelo treinador Rodrigo Guimarães. Ele faz parte de um pequeno grupo de consumidores que aderiu à energia solar. E faz parte de estatísticas de encher os olhos do mercado. 

O Brasil presenciou um pulo de 356 para 22,7 mil unidades de geração de energia solar autônomas entre dezembro de 2014 e fevereiro de 2018. É um crescimento de 6.275%, embora o uso da fonte de energia seja muito pequena em comparação a outros países. Por aqui, apenas 0,05% da capacidade de geração com a fonte renovável ainda foi explorada.

Nesse espectro, o destaque fica com Minas Gerais. O Estado lidera o número das chamadas unidades de geração distribuída. São mais de 4.800 unidades cadastradas, o que equivale a 21% do total brasileiro. E quando se leva em conta o número de unidades (casas, comércio, indústria) que consomem energia distribuída (já que uma pequena central pode fornecer para mais de uma edificação), o Estado chega a mais de 12.400 unidades fazendo uso das micro-usinas solares, quase 40% do total de consumo do país com a modalidade.

Sol demais
Alguns fatores ajudam a explicar a proliferação das unidades em Minas em comparação ao restante do país, aponta Marcio Eli Moreira de Souza, engenheiro da Cemig especializado em energia solar. “Minas foi o primeiro Estado a dar o retorno do ICMS para quem opta pelo uso de energia solar. Mas não é só. O Estado tem radiação solar em níveis elevados. Um sistema de 1 quilowatt em Minas gera 20% a 25% a mais do que em São Paulo. O outro fator é a tarifa comum de luz, que em Minas é mais alta que em outros Estados”, afirma.

No caso do ICMS, o que acontece que é ao conectar o sistema de energia solar doméstico à rede local (no caso de Minas, à rede da Cemig) para vender o excedente de energia produzido durante o dia ou para comprar energia durante a noite, o consumidor fica isento do pagamento do ICMS da energia vendida por ele. Como o preço da energia solar vendido é mais barato do que da comprada, essa isenção do pagamento do ICMS acaba compensando a diferença na conta. Estados como o do Paraná não contam com o benefício.

Por outro lado, a necessidade do pagamento de uma tarifa mínima para a concessionária, mesmo que consumidor “zere” a diferença entre o que ele produz em casa e o que consome da rede externa, ainda é um entrave que merece ser superado, avalia o consultor do setor elétrico Roberto D’Araújo. Ou seja, se um consumidor produz 300 kW por mês e consome 300 kW a conta dele não é de zero reais, pois ainda precisa pagar uma taxa mínima à concessionária. 

É o caso do treinador Rodrigo Guimarães, que implementou as placas em casa há três meses. “Pago R$ 48 por mês à Cemig, incluindo aí a taxa de iluminação pública. Mas como tenho produzido mais que consumido da rede, ainda gero um bônus com a empresa, que posso resgatar em até cinco anos”, explica.

Retorno

Para os frades franciscanos da Ordem das Carmelitas Descalças, em Belo Horizonte, a expectativa é a de que, para além da redução da conta de luz de cerca de R$ 800 para menos R$ 100, conquistada no primeiro mês de uso das placas, o sistema de energia solar implementado no convento gere créditos que possam reduzir a quase zero a energia elétrica consumida em outras quatro casas da Congregação, no interior de Minas.

“Por enquanto só a casa instaladora em Belo Horizonte, onde vivem 16 frades e funciona como um centro de formação de estudantes, está fazendo o abatimento. Mas estamos com a documentação na Cemig para que o excedente gerado aqui possa ser aproveitado nas outras cidades”, explica Frei Hudson Barcelos de Paula, do Convento São João da Cruz, bairro João Pinheiro.
Para o engenheiro Marcelo Belém, sócio-diretor da Terra e Sol Energia, que atua na implantação de sistemas de energia solar e também nos tramites burocráticos para regulamentar a venda do excedente do cliente para as concessionárias, a queda do custo de instalação dos sistemas solares também precisa ser considerada. 

“Há três anos, era praticamente o dobro do que é hoje. Um fator que contribuiu é a concorrência acirrada. São mais de 2.800 empresas no Brasil trabalhando com energia solar”, diz. A produção de equipamentos no país – ainda que via montagem de peças importadas – também reduziu o custo.

De acordo com o engenheiro, o custo médio de um sistema para “zerar” a conta de uma família de quatro ou cinco pessoas que consome cerca de R$ 300 reais por mês gira entre R$ 13 mil a R$ 16 mil. “É um dinheiro razoável, mas é uma tecnologia com vida útil acima de 25 anos, com garantia de dez anos sobre o inversor (que é o ‘coração’ do sistema)”, conta. 

O tempo de retorno do investimento hoje está calculado em três ou quatro anos. Há quatro anos, era de seis anos. “O que todo meio se queixa é da falta de linhas de financiamento com condições mais atrativas para o cliente nos bancos”, diz o engenheiro.

Fazendas

Empresas do setor têm se aproveitado do modelo de geração distribuída para a construção de “fazendas” de energia solar, usinas de porte maior que o residencial, que prolifera no Norte de Minas. A legislação permite sistemas independentes de até 5 megawatts de potência. Ao invés de ser usada no local pelos “fazendeiros do sol”, a energia é injetada na rede da Cemig e o valor é convertido em créditos de energia para outras empresas (padarias, restaurantes, escritórios), que compram “cotas” do empreendimento. Essas empresas podem estar localizadas em qualquer cidade abastecida pela Cemig em Minas. “Como cada empresa tem um consumo, não é possível cravar qual o valor irá pagar na parceria, mas a lógica é que, com a adesão, ela tenha 10% de desconto na conta de luz, por mês”, explica Rodolfo Molinari, da Ório Energia. Além de uma fazenda inicial em João Pinheiro, com 63 clientes, a empresa finaliza três usinas e está com projeto de outras sete, cada uma para cerca de 500 parceiros.