DAMASCO - O mediador internacional para a Síria, Lakhdar Brahimi, encontrou nesta sexta-feira (14) em Damasco membros da oposição tolerada pelo regime, na véspera de uma reunião com o presidente Bashar al-Assad, inflexível após 18 meses de conflito sangrento. 
 
Enquanto 45 pessoas morreram nesta sexta-feira, segundo um levantamento provisório, o papa Bento XVI, em visita ao Líbano, pediu o fim do envio de armas à Síria. 
 
Como todas as sextas-feiras, manifestações hostis ao regime de Assad foram registradas em toda a Síria, onde violentos combates prosseguiram em Damasco e Aleppo. 
 
O novo mediador internacional, Lakhdar Brahimi, que iniciou na quinta-feira sua primeira visita à Síria, vai "aperfeiçoar" o plano de paz de seu antecessor, Kofi Annan, para torná-lo mais operacional, indicaram membros da oposição interna, tolerada pelo regime.
 
"O Plano Annan será aperfeiçoado. Haverá novas ideias e medidas para a crise, porque a Síria só encontrará uma solução por um acordo árabe, regional e internacional", afirmou Hassan Abdel Azim, porta-voz do Comitê de Coordenação para a Mudança Nacional e Democrática (CCCND), que reúne partidos nacionalistas árabes, curdos, socialistas e marxistas. 
 
"Nós demos a Brahimi, que atua a serviço da Liga Árabe e da ONU, o nosso apoio a seus esforços para solucionar a crise, acabando com a violência e com os assassinatos, assegurando a prestação de cuidados médicos (aos feridos) e libertando presos políticos, como medidas para antecipar uma fase de transição", em conformidade com o acordo de Genebra concluído em junho.
 
Este acordo estabelece os princípios para a transição na Síria, mas sem exigir a saída do presidente Bashar al-Assad.
 
Durante uma reunião na quinta-feira com Brahimi, o chanceler sírio Walid Mouallem garantiu "cooperação integral da Síria para que cumpra sua missão", segundo a agência de notícias oficial Sana. Ele considerou que "o sucesso da missão de Brahimi depende da seriedade de alguns países que lhe concederam este mandato, e da vontade de impedir que outros países abriguem e armem os terroristas", fazendo alusão aos rebeldes.
 
Ataques em Midane
 
Em Aleppo (norte), onde incessantes combates são travados há oito semanas, os rebeldes continuam a opor uma forte resistência ao Exército, apesar do bombardeio de suas fortalezas.
 
A força aérea metralhou durante a madrugada dois postos da polícia tomados pelos rebeldes no bairro de Midane (centro), informaram à AFP habitantes e o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).
 
Este bairro é considerado estratégico, pois dá acesso à praça principal da segunda maior cidade síria.
 
Um morador contatado pela AFP relatou combates no distrito vizinho de Arqoub: "Eu acho que vai haver uma grande operação militar".
 
O presidente do OSDH, Rami Abdel Rahman, também salientou que "as tropas do regime foram em massa para Midane e se preparavam para expulsar os rebeldes".
 
Na província de Aleppo, os insurgentes atacaram mais uma vez o aeroporto de Menagh, principal base aérea da região, de acordo com o OSDH.
 
Em Damasco, a ONG relatou "violentos combates", principalmente em Hajar el-Aswad e em Qadam (sul). O Exército lançou um ataque contra o bairro de Sayeda Zeinab, habitado por xiitas, afetado por combates nos últimos dias.
 
Três fortes explosões foram ouvidas de manhã, segundo os moradores, que indicaram helicópteros sobrevoando a capital.
 
"Fim inevitável" do regime Assad
 
Ao falar sobre a violência sem trégua na Síria, o papa Bento XVI considerou que "a importação de armas deve acabar de uma vez por todas. Porque sem a importação de armas a guerra não pode continuar".
 
"Em vez de importar armas, o que é um pecado grave, seria interessante importar ideias de paz, criatividade, amor ao próximo", afirmou, enquanto os rebeldes têm pedido repetidamente armas para a comunidade internacional.
 
O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, disse, por sua vez, que o regime sírio está se aproximando de seu "fim inevitável. Devemos dizer não a este drama, e não permitir que as chamas tomem toda a região".
 
Ele afirmou que "o único objetivo (da comunidade internacional) é garantir que a Síria se torne democrática, respeitando a sua integridade territorial".
 
Por outro lado, a porta-voz da Unicef, Marixie Mercado, indicou que mais de duas mil escolas foram destruídas ou danificadas durante o conflito armado na Síria e centenas de outros são usadas como abrigos.
 
Desde março de 2011, mais de 27 mil pessoas, a maioria civis, morreram em meio à violência, de acordo com o OSDH.