RIO DE JANEIRO – Perto do meio-dia de uma sexta-feira de março, Lucas*, de 15 anos, acompanha com o olhar os alunos que retornam da escola, na comunidade Novo Lar, no Recreio, zona Oeste do Rio de Janeiro. Enquanto isso, peneira a areia que será utilizada para fazer o concreto de um barraco. Desde o ano passado, o garoto não pisa em uma sala de aula e o trabalho de ajudante de pedreiro tem sido a principal ocupação.

Ele é um dos milhares de crianças e adolescentes das cidades-sede da Copa do Mundo que tiveram o direito à educação lesado. A estimativa é a de que entre 57,3 mil e 76,5 mil, com idade entre zero e 19 anos, tenham sido removidos por conta das obras relacionadas direta ou indiretamente ao Mundial de futebol e às Olimpíadas de 2016. Com isso, enfrentaram dificuldades para continuar a vida escolar, como mostra o Hoje em Dia desde a última segunda-feira.

No Rio de Janeiro não há um número preciso, mas o Comitê dos Atingidos pela Copa e Olimpíadas estima em mais de 10 mil famílias removidas em função desses megaeventos.

RETORNO

A família de Lucas morava na vila Recreio II e foi removida para a construção do BRT Transoeste, em 2012. Como compensação, receberam o apartamento de um programa habitacional em Campo Grande, no extremo oeste da capital fluminense. Entretanto, não se adaptaram à nova realidade. Por isso, no ano passado alugaram uma quitinete (quarto, banheiro, cozinha e sala) na Novo Lar, comunidade a 300 metros da antiga vila Recreio II.

A família, composta pela mãe, padrasto e quatro filhos, foi desmembrada. Dois dos irmãos não foram para Campo Grande e decidiram morar com a avó. Outro irmão, Rodrigo*, de 16, também trabalha ajudando o padrasto na construção de casas.

“A escola era boa aqui perto.á (em Campo Grande), os alunos que mandam na escola, é uma bagunça. Hoje passo o dia na lan house, fico sentado aqui no banco da árvore, ajudo meu padrasto”, diz Lucas.

Ele afirma que sente falta da escola, mas não a de Campo Grande. Apesar disso, só pretende voltar em 2015. Assim, terá perdido três anos de estudos, abandonados em 2012. “Quando voltamos, fiz inscrição pela internet, só consegui escola pro lado de Campo Grande. Não tinha escola perto”, relata.

Para a assessora de Direitos Humanos na Anistia Internacional no Brasil, Renata Neder, as famílias não poderiam ter sido levadas para áreas distantes. “O reassentamento deve ser em área próxima e em condições adequadas. Nunca você pode levar uma família para uma situação pior. Esse processo aprofunda as desigualdades urbanas”, avalia.

A Secretaria Municipal de Habitação do Rio de Janeiro informou que na obra do BRT Transoeste foram desapropriadas 666 famílias, e que elas foram acompanhadas por assistentes sociais até os moradores alcançarem a autonomia.

Dificuldade de transporte e falta de vagas

PORTO ALEGRE – Quando começou a desapropriação dos moradores da vila Dique, localizada atrás do aeroporto Salgado Filho, na capital gaúcha, em 2009, a prefeitura ofereceu transporte para que os filhos em idade escolar continuassem a estudar nos colégios próximos às suas antigas casas. A mudança foi para o Porto Novo, um conjunto habitacional distante cerca de nove quilômetros. Mas, pouco tempo depois, essa ajuda acabou.

“Eles tiveram que pegar ônibus e não tinham dinheiro para passagem. Muitos chegaram a perder o ano”, lamenta Almerinda Argenta Gambin, de 47 anos, conhecida como Miranda, líder comunitária e membro da diretoria do Clube de Mães.

Naquele momento, as famílias começaram a buscar vagas em escolas nos arredores, mas não havia para todos. Para piorar, eles conviviam com o preconceito de serem “diqueiros”, ou seja, da vila Dique, conhecida por ser uma região violenta da cidade.

Agora, passados quase cinco anos do início das remoções, as pessoas já estão mais adaptadas à mudança, mas ainda não há escolas para todos na região.

A estudante Bianca da Silva Ortiz, de 15, continua a estudar no antigo colégio e gasta mais de uma hora no ônibus. Mas conta com a solidariedade para arcar com o custo do transporte. “Como estou fazendo o curso (de culinária) aqui no Clube de Mães, recebo vale-transporte”, relata.

Para ela, a mudança foi boa. “Tinha muita gente que morava em situação muito precária”, lembra.

Em Porto Alegre foram mais de 3.200 famílias desapropriadas.


*Nomes fictícios

 

 

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