PEDRO JUAN CABALLERO - O Paraguai, que neste domingo (21) elegerá um novo presidente, é o segundo maior produtor mundial de maconha e epicentro do tráfico de cocaína que chega dos Andes com destino ao Brasil e à Europa, um fenômeno que provoca sangrentos confrontos entre gangues e influi na política.

Pequenos aviões da Bolívia ou da Colômbia aterrissam nas muitas pistas clandestinas que existem nas grandes fazendas do nordeste do país ou simplesmente lançam sua carga do céu, aproveitando a falta de vigilância aérea do Estado. A droga é transportada ao Brasil em caminhões, automóveis, de bicicleta ou a pé.

Segundo o jornalista paraguaio e especialista em narcotráfico, Cándido Figueredo, entre 5 e 25 pessoas são assassinadas a cada mês por acertos de contas em Pedro Juan Caballero, uma cidade a 550 km ao nordeste de Assunção, na fronteira com o Brasil e transformada no centro do negócio da droga.

Basta cruzar a avenida Doctor Francia em Pedro Juan Caballero para estar em Ponta Pora, cidade brasileira, que se estende do outro lado de uma fronteira invisível e sem postos de migração.

Em Ponta Pora, vive o traficante paraguaio-brasileiro Fahd Yamil, agora livre após uma passagem pela prisão brasileira.

Yamil admitiu recentemente ser cliente de um banco do multimilionário empresário Horacio Cartes, um dos favoritos a ganhar a presidência do Paraguai domingo, acusado por seus adversários de estar ligado ao narcotráfico.

Fontes da inteligência paraguaia disseram à AFP que Yamil trabalha com o grupo de São Paulo Primeiro Comando Capital (PCC), Paulo, mas que o rival do PCC, o Comando Vermelho (CV), principal grupo do Rio de Janeiro, liderado por Fernandinho Beira Mar, também opera nessa região.

Pedro Juan Caballero, de 80.000 habitantes, é a cidade mais importante nos 400 km de fronteira seca que se estendem nessa área limite entre Paraguai e o estado de Mato Grosso, facilmente transitável pela ausência de grandes rios e a falta de controle estatal.

Por isso, são frequentes os enfrentamentos entre os traficantes brasileiros e paraguaios.

"As mortes são no estilo mexicano. Há corpos decapitados, braços cortados, queimados vivos. Estamos em um processo de mexicanização da violência", disse à AFP o senador Robert Acevedo, do partido Liberal.

Acevedo teme que as toneladas de droga que circulam pela região não só gerem ameaças, atentados e violência extrema, mas também afetem os valores da sociedade.

"Há pais que dizem a seus filhos: 'Dedique-se ao tráfico, você vai ganhar muito dinheiro'. As crianças querem se casar com traficantes'", disse.

"A melhor maconha do mundo"

Francisco de Vargas, diretor da Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai (Senad), reconhece "uma série de mortes violentas", mas rejeita que sejam parecidas com as do México.

"Sofremos o fator Bolívia, há um cultivo de coca ancestral ali", disse.

Contudo, ele reconhece que a escassa presença do Estado em todo o país e o "quase nulo controle aéreo" facilitam o trabalho dos traficantes estrangeiros e os produtores paraguaios.

"O problema real do Paraguai é a impunidade e a corrupção, que favorecem o tráfico. O tráfico de drogas é uma ameaça não convencional à segurança nacional", disse e admitiu que relatórios de inteligência destacam que dinheiro do narcotráfico financia as campanhas eleitorais.

Para lutar contra este flagelo, o Senad só dispõe de meios limitados, com apenas 250 agentes em terra.

Contudo, Vargas destaca que desde junho de 2012 foram apreendidos 3.750 quilos de cocaína.

O Paraguai tem entre 10.000 a 15.000 hectares de cultivo de maconha com baixo custo de produção, de 30 dólares por quilo, e um rendimento por hectare de três toneladas, em dois ou até mesmo três colheitas ao ano, já que a terra é fértil no país, de acordo com a Senad.

Rio de Janeiro e São Paulo recebem 80% da maconha produzida no Paraguai e da cocaína da Bolívia e da Colômbia que transita pelo Paraguai, um país onde historicamente se contrabandeia todo tipo de artigos, desde armas e cigarros até automóveis e drogas.

"Temos a melhor maconha do mundo", brinca Cándido Figueredo, correspondente do jornal ABC em Pedro Juan Caballero.

Ameaçado pelos traficantes, ele está protegido a todo momento por quatro policiais, armados com metralhadoras israelenses FAMAE. No mês passado, o diretor de uma rádio da cidade foi morto a tiros por dois motociclistas.