BRASÍLIA - O Ministério da Justiça divulgou nesta sexta-feira (18) - Dia Internacional contra o Tráfico de Seres Humano - pesquisa em que detalha modalidades e rotas de tráfico de pessoas no Brasil. Entre as formas de exploração identificadas, o trabalho mapeou clubes explorando menores para jogar futebol.

Segundo o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, o trabalho é o primeiro feito no país de forma mais abrangente sobre o problema que ele classifica como um "crime subterrâneo". "São indicadores positivos para a articulação de políticas dos órgãos de governo para orientar o enfrentamento de um tipo de crime que não é muito fácil de ser combatido", afirmou o ministro.

Segundo Cardozo, as estatísticas oficiais mostram baixo número de inquéritos e pessoas identificadas como vítimas. Pelo levantamento, entre 2005 e 2011 apenas 475 brasileiros foram identificados fora do país como vítimas de tráfico de pessoas.

Ele revelou não haver dados precisos sobre o número de vítimas não só no Brasil como no mundo. "O número de inquéritos e vítimas é muito menor que o que imaginamos", disse Cardozo lembrando que campanhas fazem aumentar o número de denúncias. "A Campanha Coração Azul aumentou em 1.500% o número de ligações para o número 180 [que denuncia exploração de mulheres]".

A pesquisa, denominada "Diagnóstico sobre tráfico de pessoas nas áreas de fronteira", foi realizada no primeiro semestre deste ano pela Secretaria Nacional de Justiça, órgão do ministério.

O trabalho reúne informações colhidas por várias investigações realizadas ao longo dos últimos cinco anos por CPI's em vários parlamentos, inquéritos policiais e reportagens. Foram feitas ainda entrevistas com entidades que trabalham contra a exploração do trabalho e sexual, além de vítimas e familiares.

O aspecto mais relevante do diagnóstico é a identificação de rotas de tráfico de pessoas e a finalidade para a qual se destinam as vítimas. São identificadas a região de origem do traficado, por onde passa a pessoa, qual seu destino e a finalidade que vai ser explorada.

No Brasil, foram identificadas tanto rotas de chegada de pessoas do exterior e de cidades do interior para serem exploradas em grandes cidades, como rotas de brasileiros traficados para outros países com a mesma finalidade.

Além dos tipos mais comuns de tráfico --para exploração sexual e para trabalho em regime análogo à escravidão, presentes em praticamente todos os estados fronteiriços-- o levantamento identificou outras modalidades da exploração de pessoas.

Segundo o relatório, foram identificados casos de crianças adotadas em cidades do interior para servirem de trabalhadoras domésticas nos estados do Amazonas, Pará, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Roraima, Pará, Amapá, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Paraná tiveram casos de pessoas exploradas para servirem de "mulas" para o tráfico de drogas e outras substâncias proibidas.

Uma nova modalidade de exploração foi identificada em Porto Mutinho (MS) onde a prefeitura local apurou que crianças indígenas do Paraguai cruzavam a fronteira para serem exploradas na mendicância nas ruas da cidade.

Para o ministro também foi surpresa a identificação de que índios são levados em regime de trabalho escravo para lavouras nas regiões Norte e Sul. Houve também casos no Acre, Paraná e Pará de adolescentes explorados em clubes de futebol - os nomes desses clubes não foram informados.

No Paraná, adolescentes sul-coreanos eram trazidos ao Brasil por aliciadores para jogar futebol e ficaram com os passaportes retidos, além de terem o dinheiro que era enviado pela famílias roubado pela quadrilha.
No Amapá são identificados casos de casamento servil, quando a mulher é traficada para servir a um homem.

A pesquisa trabalha ainda na tentativa de elaborar um perfil dos traficados. Nesse aspecto, o mais comum é que são pessoas com famílias em condições de vulnerabilidade. Segundo o levantamento, a idade média das vítimas está entre 18 e 24 anos e são preferencialmente escolhidas entre as de baixa escolaridade.

De acordo com o ministro, a pesquisa também identificou um "modus operandi" das quadrilhas que buscariam regiões de alta vulnerabilidade social para atuar. Segundo ele, em muitos casos os exploradores são vistos como aliados das vítimas.