A estudante Aline Tomaz dos Santos, 22 anos, sempre gostou da área da Saúde e, ainda no Ensino Médio, tinha certeza de que seria nessa área que gostaria de construir a carreira de pesquisadora. No entanto, por pouco não teve que sair de Belo Horizonte para fazer o curso que escolheu. Aluna de Biomedicina, especialidade criada em 2010 na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Aline é uma das brasileiras que contribuíram para engordar as taxas de matrículas de jovens entre 18 e 24 anos no ensino superior no Brasil, desde 1995.

Há 20 anos, 6% da população brasileira com essa idade conseguia terminar o Ensino Médio e garantir uma vaga na faculdade. Em 2012, o índice havia subido 10 pontos percentuais, chegando a quase 16% em todo o país. A conta foi feita com base em dados de relatório do Tribunal de Contas da União (TCU), que fez uma vasta análise do cenário da Educação no Brasil nos últimos anos.

Aline começou os estudos em 2012, e deve se formar daqui a dois anos. Mas, antes, pretende fazer intercâmbio, de preferência na Austrália, e também cursar pós-graduação em neurofisiologia.

Estatística

Quem também tinha o sonho de entrar na UFMG era o estudante de Química Pedro Henrique Oliveira de Paulo, 18 anos. Ele sempre frequentou escolas públicas e, neste ano, conseguiu atingir seu objetivo.

Pedro e Aline fazem parte dessa estatística, que mostra o aumento do número de alunos na faixa etária mais adequada para entrada na faculdade. Para o coordenador de mestrado em educação da PUC Minas, Carlos Roberto Jamil Cury, há quatro fatores que explicam o fenômeno.

“Houve uma expansão no Ensino Superior para atender uma demanda que estava reprimida e que, em parte, é atendida pelo Pro-Uni, pelo Fies, pela política de cotas e pela abertura de novas escolas e vagas em universidades federais, sobretudo com o Reuni, que oferece licenciaturas no turno da noite”.

O professor afirma que este conjunto de fatores explica porque houve um aumento na entrada no Ensino Superior, hegemonicamente no privado, por causa dos financiamentos do governo federal às faculdades. “Ao mesmo tempo, houve a entrada de um número mais significativo de jovens numa faixa mais adequada”, destaca.

O crescimento dos índices de matrícula ocorreram ao mesmo tempo em que os recursos para o Ensino Superior aumentaram (veja infografia). Mas, ao mesmo tempo, a cada ano, cerca de 19% do orçamento empenhado retornaram aos cofres da União, por não terem sido liquidados.

A fazer

O ministro Bruno Dantas, que assina o relatório do TCU, afirma que “o Brasil, apesar de ter melhorado muitos de seus indicadores educacionais ao longo dos últimos anos, ainda apresenta baixa taxa de escolaridade da população e desigualdades profundas quando se comparam as oportunidades de acesso e os resultados por extrato de renda, por raça/etnia e entre regiões e unidades federativas”.

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Financiamento facilita acesso às instituições privadas

Mesmo com toda a polêmica que ronda o Fies desde o início deste ano, esse mecanismo de financiamento estudantil ainda tem participação fundamental no aumento de ofertas de vagas no ensino superior. Segundo levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU), o volume de recursos liberados em 2013 foi, em termos reais, 250% maior que o disponibilizado em 2010.

Um dos jovens que se beneficiou dessa política é Leandro Dantas Rocha de Pinho Tavares, 23 anos, estudante de Publicidade e Propaganda na UNA. Com o recurso de 75% do Fies, os outros 25% ficaram sob responsabilidade da família. “Se não fosse o recurso do financiamento eu não estaria na faculdade, pois na época não tinha condições de arcar com o valor”, destaca.

Leandro começou a trabalhar em um programa chamado “Pra Valer”, oferecido pela faculdade onde estuda, e teve direito a 50% de desconto no valor do curso. A partir do terceiro período, iniciou o processo para conseguir o Fies e fechou em 75%. Ele optou pelo financiamento porque avalia que o Prouni é muito burocrático. Em casa, suas duas irmãs também utilizaram o Fies.

Já Lucas Medeiros, 23 anos, ex-motoboy, cursa Sistemas de Informação na Newton Paiva, com 100% de recursos. “A vantagem de se ter o financiamento é que você só paga depois de dois anos após a conclusão do curso. Antes disso, pagamos somente uma manutenção, no valor de R$50, de três em três meses”, ressalta.

Ele diz que não faria faculdade se não tivesse acesso ao Fies. Hoje, ele trabalha como técnico de informática para a Prefeitura de Belo Horizonte.

Ensino Médio

O relatório do TCU aponta como desafio para o ensino médio a adequação da idade em que os jovens ingressam na escola, assim como a permanência deles nas salas de aula. De acordo com o tribunal, há um déficit de pelo menos 32 mil vagas potenciais para atender a meta de universalização fixada pelo Plano Nacional de Educação.

Há também uma quantidade elevada de professores sob o regime especial de contratação temporária e cerca de 46 mil docentes das redes estaduais não possuíam formação específica em nenhuma das doze disciplinas obrigatórias dessa etapa de ensino.