O clima tenso entre Fiat e Volkswagen e a fabricante de estrutura para assentos veiculares Keiper, que interrompeu o fornecimento de a utopeças para as montadoras na semana passada durante uma negociação de reajuste de preços, jogou luz na crise do setor automotivo. Nos últimos doze meses, os licenciamentos caíram um terço, afetando drasticamente a produção, que despencou 26%. O emprego foi a reboque.

Entre abril de 2015 e o mesmo mês deste ano, 11 mil vagas foram fechadas na cadeia produtiva de veículos automotores, agrícolas e rodoviários. Destas, quase 9 mil foram na linha de montagem de carros. Os dados são da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Em outubro de 2013, o setor como um todo chegou a empregar 160 mil pessoas. Em abril, eram 128,4 mil, retração de 31,6 mil postos em três anos.
Instalada em Betim, a montadora Fiat amargou queda de 49% nos licenciamentos em abril deste ano frente ao mesmo mês do ano passado.

O reflexo na cadeia de fornecedores é imediato. Com quatro plantas e quatro mil funcionários em Minas, a Sumidenso do Brasil, fornecedora de chicotes elétricos para a Fiat, registrou 35% de queda no faturamento em 2015 frente a 2014. Para este ano, a previsão do diretor Kanji Iasunaga é de retração de mais 15%. “Os custos não param de subir, a pressão cambial impactou muito no ano passado e está em época de dissídio coletivo”, enumera.

Ele ressalta que tem sido difícil negociar reajustes com as montadoras. “Sabemos que o momento não é ideal. O timming não ajuda. Mas a ociosidade do parque industrial tem prejudicado muito o setor, que tem mantido os custos fixos”, lamenta.

Concessionárias

Na outra ponta da cadeia, os cortes também já começaram. Na Roma, referência em vendas da marca, com cinco unidades em Belo Horizonte, a queda nas vendas foi de 23% entre o fim do ano passado e este mês, segundo o gerente de vendas, Mark Crepalde.

O pátio está cheio. A concessionária tem estoque para 50 dias, quando o ideal é de 30 dias. Para atrair o público, a Roma faz promoções e distribui bônus.

Na Jorlan, revendedora Chevrolet com três lojas em BH, o estoque tem girado em cerca de 45 dias, segundo o diretor de Vendas, Eduardo Oliveira. A queda nas vendas refletiu em redução de pessoal. Cerca de 30% dos funcionários foram dispensados. Assim como na Roma, as promoções são a arma para fisgar o cliente. “Além do bônus, apostamos no IPVA grátis e nas propagandas”, diz Oliveira.

Produção retomada após seis dias de paralisação

Seis dias após suspender o fornecimento para a Fiat, em Betim, durante negociação de preços, a Keiper, empresa que produz assentos para automóveis, decidiu ontem retomar os trabalhos.

Ontem de manhã, cerca de 700 metalúrgicos protestaram em frente à planta da Keiper em Betim contra a suspensão das atividades da empresa, diante do temor de cortes no quadro de pessoal e até fechamento da unidade.

Com a falta de fornecimento de peças da Keiper, desde a última sexta-feira, a Fiat também interrompeu a produção. Com a paralisação, 18 mil funcionários da montadora ficaram ociosos.

O diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de Betim, Robson Porto, que trabalha como inspetor de qualidade da Keiper, disse que havia o temor de que a Keiper poderia encerrar as atividades em Betim, demitindo 800 funcionários.

“Vi que o nosso emprego estava em risco, por isso fizemos a manifestação”, afirmou Porto.

O condutor de Processo Integrado Gilberto Reis trabalha na Fiat há 20 anos e garante nunca ter visto uma situação igual.

“Além da crise do país, ainda tem essa empresa (Keiper) que a gente não sabe se vai continuar ou vai fechar. Isso pode prejudicar muitos pais de família”, protestou.

Há a previsão de outra manifestação nos próximos dias, desta vez com os familiares dos funcionários da empresa e metalúrgicos de outras fornecedoras de peças.

A Fiat informou que estava em processo de negociação com a Keiper para reajuste de valores. No entanto, a montadora não confirmou se os valores foram reajustados. Procurada pela reportagem, a Keiper informou, apenas, que a produção foi restabelecida.
 

Cadeia automotiva atola na crise