Nos últimos dias, mutuários da Caixa têm recebido ligações do banco sugerindo que eles utilizem o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) para quitar pelo menos parte do saldo devedor do financiamento imobiliário. A previsão da Caixa é atingir 40 mil mutuários com a ação.

Uma das justificativas, segundo uma fonte ligada à diretoria do banco, seria a necessidade de reforçar a receita, que caiu por causa da crise. A Caixa nega. Conforme o banco, “muitos clientes não sabem que têm a possibilidade de utilização da conta vinculada do FGTS para pagar parte da prestação, amortizar o saldo devedor ou liquidar a dívida”. O banco estaria, apenas, se antecipando.

Mas se por um lado as investidas beneficiam a Caixa, de outro aderir à proposta pode aliviar o bolso de quem pegou empréstimo para comprar a casa própria.

O motivo do sucesso da ação pode ser explicado na ponta do lápis. Enquanto o FGTS rende cerca de 3% ao ano, os juros do financiamento imobiliário são em torno de 10%. Ou seja, aquele mutuário que optar pelo pagamento antecipado utiliza o dinheiro de forma melhor.

“O FGTS perde valor no decorrer do tempo porque a correção é muito baixa, muitas vezes inferior à inflação. Utilizar o dinheiro que está parado para reduzir a dívida é ótima opção”, diz o presidente da Associação dos Mutuários e Moradores de Minas Gerais (AMMMG), Sílvio Saldanha.

Quem optar pela amortização da dívida pode fazer o pagamento de duas formas. Uma das possibilidades é usar o dinheiro para abater as últimas parcelas do empréstimo. Para Saldanha, essa opção é mais vantajosa, já que no financiamento imobiliário há uma regressão dos valores. Ou seja, as parcelas finais são menores. “Assim, é possível reduzir bastante o tempo da dívida”, diz.

A outra forma é reduzir o valor das parcelas, mas manter o prazo, que pode chegar a 420 meses, ou 35 anos. Nesse caso, o cliente da Caixa pode amortizar até 80% das 12 prestações seguintes. A dica é aplicar o dinheiro que seria usado para pagar as parcelas e fazê-lo render.

O médico Rodrigo Melo ficou surpreso ao receber a ligação da Caixa. “Me informaram todos os dados e quanto eu tenho no FGTS. A pessoa que ligou disse que se eu optasse por usar o Fundo nem precisaria ir à agência. Era só dar o aval durante a ligação. É muito prático”, elogiou.

Também acionado pelo banco, o professor Marcelo Peixoto analisa a possibilidade de quitar as últimas prestações. “Consigo reduzir a dívida em sete anos. É uma boa proposta”, diz.

Na prática

Em uma simulação é possível ver, na prática, como o FGTS pode mudar a dívida. Imagine uma pessoa que financiou R$ 171 mil na Caixa, em um prazo de 420 meses. Por mês, o cliente paga R$ 1.739. Se ele utilizar um saldo de R$ 18 mil do FGTS para amortizar as últimas parcelas, é possível reduzir 35 partes da dívida. Ou seja, diminuir o débito em quase três anos. (veja infografia)

Ponderação

O educador financeiro Sandro Borges pondera que a remuneração extra do FGTS, aprovada por meio da Lei 13.466,dá mais atratividade ao FGTS. A previsão do governo é que a rentabilidade salte de 3% para 5%. Para o professor, o uso do FGTS para quitar o empréstimo da casa própria deve ser analisado com cuidado. “Mas na maioria dos casos não aconselho”, diz.

Segundo ele, o brasileiro tem o péssimo hábito de não fazer reservas. “E o FGTS faz esse papel. É um dinheiro em caso de o trabalhador perder o emprego, por exemplo”, diz.

O presidente da Comissão de Direito Imobiliário da OAB-MG, Kênio Pereira, concorda. “A situação econômica do país não é das melhores. Se o FGTS for a única reserva é perigoso gastá-lo”, diz.


Banco dá até 90% de desconto para clientes inadimplentes


Até o dia 30 deste mês, clientes da Caixa que estão com dívidas em atraso há mais de um ano têm até 90% de desconto para quitar o débito. A campanha, chamada de Quita Fácil, é válida para inadimplentes dos mais diversos serviços do banco, como crédito pessoal, cartões de crédito, cheque especial, crédito para material de construção (Construcard) e crédito para giro nas empresas.

“Pessoas físicas e jurídicas são beneficiadas com a campanha”, afirma o superintendente Regional da instituição, Marcelo Bomfim.
De acordo com ele, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), há 118 mil contratos em atraso. Em Minas, são 320 mil. “Não tenho a informação de quanto eles representam em dinheiro, mas esperamos que a maior parte dos devedores renegocie conosco”, diz.

Aqueles que devem há menos tempo também podem se beneficiar. Conforme o superintendente, nesses casos, entretanto, os descontos são menores. “Mesmo assim, vale a pena procurar a Caixa e passar o Natal sem restrições de compras”, diz.

Quem se interessar pode procurar qualquer agência do banco ou se dirigir ao caminhão do Quita Fácil, que fica estacionado até amanhã, das 10h às 16h, na Praça da Estação. Nele, três superintendentes renegociam débitos diretamente com os inadimplentes. “De lá, os clientes já saem com os boletos em mãos para quitar a dívida”, diz Bomfim.

Também é possível obter as informações no site www.caixa.gov.br na aba “negociação de dívidas” ou pelo telefone0800 7268086 (opção 8). É necessário informar o número do CPF ou do CNPJ. “Quando o cliente acessa esses canais, ele é informado de qual será o desconto oferecido pelo banco”, garante.

Arte