Eles não estão previstos na legislação eleitoral, que determina candidaturas individuais aos cargos no Legislativo, mas ganham força cada vez maior. Algumas iniciativas pioneiras já existem, inclusive na Câmara Municipal de Belo Horizonte. E várias delas vão lutar por uma das 41 vagas no parlamento no dia 15 de novembro. Trata-se dos mandatos coletivos que, embora centrados no nome eleito, abrem espaço para a participação mais ampla, de grupos e entidades.

O fenômeno ganhou força em BH com a iniciativa do PSOL, que criou a Gabinetona - uma proposta de mandato coletivo iniciado por Áurea Carolina e Cida Falabella em 2017; ganhou a Câmara dos Deputados com a eleição da primeira, e, 2018, e também a Assembleia Legislativa, no mesmo ano, com Andréia de Jesus. Não por acaso, a legenda aposta no formato com 12 candidaturas, muitas delas de quem participou da experiência na Câmara Municipal.

Tainá Rosa

Tainá e Lauana buscam maior representação das mulheres negras

Caso da professora de história e iluminadora teatral Tainá Costa e da assistente social e cantora de rap Lauana Nara, que se juntaram no 'Mulheres Negras Sim'. Ambas oriundas da favela e com a preocupação de dar voz aos negros e mulheres no parlamento. "Eu fui uma das criadoras da Gabinetona, trabalhei com a Áurea, mas a candidatura não era algo que estava no horizonte. Mas ano passado, durante um evento no Recife, começamos a pensar no projeto. A democracia é pobre de negros, e principalmente de mulheres negras. A ideia é oxigenar a política, que hoje é cinza em todos os aspectos. Várias comissões parlamentares que tratam de assuntos sociais estão paradas por falta de interesse de muitos vereadores. Nós queremos mostrar que o Alto Vera Cruz, o Vale do Jatobá precisam de atenção. Se não temos voz no debate, nossas pautas não aparecem", diz a primeira.

Dú Pente

Dú Pente encabeça candidatura da Juventude Negra Política

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já Dú Pente está à frente da Juventude Negra Política, que nasceu como um movimento de discussão e inclusão, e hoje reúne 30 ativistas em torno da proposta. O grupo tem ideias como criar um aplicativo para divulgar o mandato e reunir propostas, financiado por parte do salário. "Não estamos direcionados a um bairro, não é questão de curral eleitoral. A ideia é trabalhar pelos vulneráveis, pela redução das desigualdades, pelos direitos dos negros, mulheres, da comunidade LGBTIQA+. Queremos apresentar projetos coletivos vindos de arquitetos, assistentes sociais e outras áreas, buscar uma ocupação coletiva da política, fazê-la de uma forma limpa".

Vez do morro
No caso da candidatura centrada em torno do líder comunitário Júlio Fessô (Rede), a ideia é colocar o Morro do Papagaio e regiões adjacentes no debate. "Normalmente só aparece gente promentendo obra ou fazendo uma coisa ou outra em época de campanha. Agora com a chuva e a pandemia, se não fosse a ajuda do terceiro setor nós não teríamos conseguido seguir adiante, ficamos a ver navios com  alguém de dentro. O Morro tem 90 anos e nunca foi representado na Câmara. E a gente sabe que só vai ter vez e voz se estiver lá. São várias lideranças juntas para lutar por nós", destaca.

 

Coletiva BH quer mandato
para fortalecer atuação do SUS

Num momento em que a importância do atendimento público de saúde se reafirma com a pandemia e o tema está no centro do debate, o movimento ColetivaBH quer levar para a Câmara Municipal um trabalho de valorização e retomada de práticas e serviços que foram deixados de lado nos últimos anos. O grupo de 10 co-vereadores é encabeçado pela pediatra Sônia Lansky, que atua no SUS praticamente desde o início do sistema. E quer levantar uma bandeira que vai além da atuação clínica, e engloba vários aspectos relacionados.

"Houve uma estagnação em vários programas de atenção à saúde que funcionavam muito bem em Belo Horizonte e fizeram a cidade se tornar referência. A questão da atuação primária, da saúde mental, do atendimento às gestantes e à mulher em geral. Não é só doença. A preocupação com a renda mínima que proporcione uma alimentação digna; com o saneamento, a moradia, o atendimento à população de rua. Com todas as limitações, o SUS atuou muito bem na pandemia e impediu um quadro ainda mais trágico", ressalta.

O grupo é composto por oito mulheres e dois homens e reflete a diversidade desejada para a atuação legistativa. "A maioria é negra, traz a questão da cultura e da vida da periferia, do movimento estudantil, da população LGBTIQA+, da defesa da mulher. A vontade de se expressar nos uniu e fez nascer o ColetivaBH. Como diz nosso lema, a saúde é coletiva".

Coletiva

Sônia e o Coletiva BH lutam por maior atenção à saúde pública na capital mineira

Visões distintas
sobre o fenômeno

Para o professor e cientista político Adriano Cerqueira, do Ibmec, o movimento em torno das candidaturas coletivas é uma nova roupagem para algo que sempre aconteceu na disputa política: a mobilização de grupos e pessoas por pautas e interesses. Ele lembra, que em muitos casos, parlamentares são apoiados e eleitos para defender esses grupos, ainda que de forma individual. Mas destaca que especialmente as legendas à esquerda surgem com uma proposta de ampliar a representação e a voz de setores nem sempre representados.

"Esse instrumento, que não está previsto na lei, combina bem com a ideia da construção coletiva da política, trabalhada pelos partidos de esquerda. Traz o sonho de que a pessoa que é eleita na verdade representa um projeto, um grupo e vai exercer o mandato de acordo com as determinações desse grupo. É algo semelhante ao que se teria caso vigorassem os distritos. Só que neste caso não em torno da escolha de alguém pela localidade, e sim pela identificação de propostas", define.

Já o também cientista político Malco Camargos tem visão mais pragmática. Para ele, trata-se de uma forma de ampliar a visibilidade e o alcance das campanhas. "A eleição de vereador se dá normalmente por proximidade, por vínculos pessoais. Se você disputa não com uma pessoa, mas com quatro, cinco, 10, você maximiza a chance de eleição daquele grupo que, na verdade é um nome só, que vai à urna. Não vejo como uma estratégia de ação pós-mandato, mas principalmente como uma estratégia de campanha".