O carro popular, por muito tempo, dominou o mercado de automóveis no Brasil. Modelos de baixo custo, simples em conteúdos e acabamento correspondiam a mais de50% dos emplacamentos no início da década. Hoje apenas Fiat Mobi e Renault Kwid figuram no segmento de entrada, com valores abaixo de R$ 40 mil. No entanto, eles podem voltar. Pelo menos é o que explica o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos Moraes, numa coletiva online com jornalistas de Belo Horizonte. 

Os populares podem ser uma solução para estimular a indústria e demais setores da cadeia automotiva, que nas palavras do representante da entidade levará mais que um ano para se recuperar. “Acho que eles podem voltar sim. As montadoras já estão estudando essa possibilidade. Afinal, é preciso olhar para o bolso do consumidor para saber o que ele consegue comprar e financiar”, afirma.

No entanto, ele sabe que o financiamento pode ser um entrave na venda desses carros, em que o crédito é fundamental para a aquisição. “Temos um desafio que são as taxas de juros. Apesar de a Selic estar em 2%, o CDC que estava acima dos 20%, chegou a cair para 19%, mas hoje já é oferecido a 20,4%. Isso porque a percepção dos bancos é que a inadimplência irá aumentar e eles já elevaram os juros”, observa. 

O buraco

Moraes, que também é diretor de comunicação da Mercedes-Benz, explica que a indústria automotiva tem passado por sua crise mais forte devido à pandemia de Covid-19. Segundo o executivo, não se trata de um problema apenas da indústria brasileira, mas ele é categórico em afirmar que por nossos problemas estruturais e tributários, os fabricantes brasileiros irão demorar mais que seus colegas estrangeiros.

“No início do ano, prevíamos um crescimento de 9% em 2020, sobre os resultados de 2019. Nossas projeções levavam em conta as tendências de crescimento do PIB, câmbio controlado e elevação do índice de confiança do consumidor. Hoje temos um cenário de retração de 40%, que corresponde a 1,4 milhão de veículos que não serão produzidos. E o pior, como se trata de uma crise no setor de saúde, e não econômica, não dá para avaliar quando termina ou não”, analisa.

Para se ter uma ideia do tamanho do tombo, Moraes exemplifica com números do mercado mineiro. Em 2019, foram licenciados 609 mil veículos no Estado, o que correspondeu a 21% dos emplacamentos no país. Este ano, de 1º de janeiro até 22 de junho, o número de registros no Detran foi de 155 mil unidades, sendo que em maio foram emplacadas menos de 11 mil unidades.

Planos de ação

Com a experiência de quem tem convívio estreito com a matriz da Mercedes, o presidente da Anfavea destaca que na Alemanha o governo adotou projetos de estímulo para a indústria daquele país, como a reposição de frota para incentivar a economia e o consumo. 

“Eu sou da opinião que é melhor gastar dinheiro com iniciativas que estimulam a economia do que gastar dinheiro com seguro-desemprego. Hoje temos 70 milhões de brasileiros que dependem do auxílio emergencial. E quando esse auxílio acabar eles vão deixar de consumir. Infelizmente, sairemos mais pobres por termos problemas estruturais não resolvidos”, alerta Moraes, que é enfático ao dizer que o governo precisa corrigir falhas como o modelo tributário. 

“Vivemos uma bagunça tributária, que faz com que um mesmo carro recolha IOF três vezes até chegar na garagem do consumidor. São coisas que desestimulam a compra. Não seria melhor uma tributação mais baixa que seria compensada por um volume maior? Essa é nossa discussão”, analisa o executivo, que afirma que a “bagunça” tira a competitividade do país nas exportações. Pois, segundo o presidente da Anfavea, junto com o carro também se exporta o imposto, embutido no custo de produção.

Novos produtos

Com o mercado parado, muitos executivos de montadoras já anunciaram que seus projetos para 2021 sofrerão atrasos nos calendários. Moraes explica que toda cadeia deverá investir cerca de R$ 40 bilhões nos próximos quatro anos. No entanto, agora não é hora de gastar. “Os projetos estão congelados, não cancelados. O dinheiro está lá mas não há autorização para gastá-lo nesse momento. Agora, estamos no modo sobrevivência” pondera.

E se não se pode investir em novos projetos, a indústria também acredita que algumas normas que determinam a inclusão de tecnologias que elevem a segurança, assim como reduções de emissões, podem ser postergadas para quando a tempestade passar.

“Não somos contra o regulatório das metas e limites, de itens de segurança, eficiência e emissões. Somos a favor do veículo mais seguro e limpo. Mas a questão é: somos capazes de fazer isso agora? Temos receita para fazer isso? E o mais importante: Será que o cliente poderá pagar por essas tecnologia?”, deixa a pergunta no ar.