A 29 dias do início dos saques do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), a balconista Bianca Aparecida do Carmo planeja retirar o limite autorizado pelo Ministério da Economia, de R$ 500, para quitar uma conta em atraso: “Devo bem menos que este valor a uma prestadora de serviço, mas vou sacar e quitar”.

Esse deve ser o caminho de muitos mineiros que se encontram na mesma situação. Levantamento do Serasa Experian mostra que quase 2,1 milhões de moradores do Estado estão com dívidas em atraso de até R$ 500. Como há muitos mineiros com mais de uma dívida, o total de débitos na base da Serasa, no valor de até R$ 500, se aproxima dos 3,9 milhões de registros.

Bianca, a balconista, não chegou a ter o nome inscrito em lista de maus pagadores, mas quer “ficar livre da dívida”.  Diante de perfis como o dela e dos números da Serasa, economistas e lojistas estão otimistas com a possibilidade de consumidores usarem o saque para quitar pendências.

“Se R$ 500 resolverem o problema, ótimo. Se o saldo da dívida for maior do que o valor a ser sacado, vale a pena renegociar a diferença e pagar quantas parcelas puder”, orientou o economista-chefe da Serasa, Luiz Rabi.

Em todo o país, segundo pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) em parceria com o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), quase quatro em cada 10 pessoas estão com o nome negativado por dívidas que somam o mesmo valor.

“Esse valor de R$ 500 pode parecer pouco para alguns, mas é a metade de um salário mínimo. Para quem está com contas em atraso, esse recurso extra poderá aliviar o bolso. Mesmo para quem tem uma dívida maior, esse dinheiro pode ser usado para abater parte do débito e contribuir em uma renegociação com parcelas menores, que possam caber no orçamento”, considerou o presidente do SPC Brasil, Roque Pellizzaro Junior.

A maioria dos brasileiros (53%) deve no máximo R$ 1.000, cifra quase idêntica a um salário mínimo (R$ 998). Os 2,1 milhões de mineiros que devem até R$ 500 representam quase um terço do total de moradores do Estado na lista de inadimplentes da Serasa, independentemente do total da dívida.

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A balconista Bianca Aparecida do Carmo vai quitar débitos antes de ter o nome negativado

Injeção

Nas contas da equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, a liberação de até R$ 500 em cada conta ativa ou inativa irá injetar R$ 28 bilhões no mercado. Levando-se em conta os saques em 2020, quando os trabalhadores poderão retirar parte do FGTS na nova modalidade criada pelo governo, batizada de saque-aniversário, outros R$ 12 bilhões poderão ser aplicados na economia doméstica, totalizando R$ 40 bilhões.

Este valor anima comerciantes, como Mércia Campos, gerente de uma lanchonete em Belo Horizonte. Para ela, muita gente que não está com pendência financeira vai sacar o valor por diferentes motivos: “Se a pessoa deixar no FGTS, por exemplo, não poderá sacar quando desejar. Já se retirar e investir em outra aplicação, como a poupança, poderá retirar quando precisar”.

Sem falar que a rentabilidade no FGTS é inferior a outras aplicações, mesmo após a taxa básica de juro, a Selic, ter sido reduzida de 6,5% para 6%, na semana passada, pelo Conselho de Política Monetária (Copom) do Banco Central.

Renegociações

A decisão do Banco Central de reduzir a taxa básica anual de juros (a Selic diminuiu de 6,5% para 6% na última semana) e sinalizar que novas quedas vão ocorrer até o fim do ano se tornaram atrativos para devedores renegociarem dívidas, mesmo aquelas com saldo acima do limite autorizado pelo governo para o saque do FGTS em 2019 (R$ 500).

Especialistas avaliam que as condições da renegociação ficarão mais favoráveis, com juros menores, após a guinada do Banco Central em relação à Selic. "Os descontos na renegociação tendem a ser mais fáceis. Ainda mais numa época em que se aproximam datas comemorativas, como o Dia das Crianças (outubro), a Black Friday (novembro) e o Natal (dezembro). As pessoas voltam a ter crédito com a renegociação”, recomenda Luiz Rabi, economista-chefe da Serasa.

O economista-chefe da Fecomércio-MG, Guilherme Almeida, vai na mesma linha: “Aqueles que têm saldo maior (que R$ 500), poderão abater a dívida ou até mesmo procurar o credor e renegociá-la, pagando à vista com desconto”.

Saúde

A quitação da dívida total ou mesmo parte dela é tida como alívio para muitos brasileiros, sobretudo aqueles que colecionam problemas de saúde em razão de débito. Um estudo divulgado em julho pelo Instituto Locomotiva, em parceria com a Negocia Fácil (serviço de cobrança digital), revelou que 54,8 milhões de brasileiros têm o sono prejudicado por causa do endividamento. A pesquisa mostra ainda que 45,3 milhões sofrem com alterações no apetite e que 54,1 milhões dos devedores têm autoestima prejudicada.

O educador financeiro José Vignoli, do SPC Brasil, recomenda, por exemplo, até a “substituição da dívida por uma outra que cobra juros mais baixos”. “É uma opção a ser levada em conta, como é o caso do consignado, que tem juros mais baratos que o do cartão de crédito, por exemplo. Já as dívidas com serviços básicos, como água e luz, embora cobrem juros menores, trazem transtornos na família por causa do corte no fornecimento. Para algumas pessoas, a inadimplência chega a um ponto tão dramático que acabam recorrendo a uma espécie de ‘rodízio’, ou seja, escolhem a cada mês qual conta será paga em detrimento de outra”.

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