Charmoso, conveniente, mas quase esquecido. O Aeroporto da Pampulha vive hoje uma realidade bastante distante da que registrava nas décadas anteriores, quando foi palco de recepções a astros e times campeões; além de opção rápida de ligação com outros terminais centrais, como Santos Dumont (Rio de Janeiro) e Congonhas (São Paulo). Se chegou a registrar mais de 3 milhões de passageiros em 2004, no ano passado foram apenas 179.685. Atualmente, não há voos comerciais regulares.

A proibição da operação de jatos, por questões ambientais e de segurança; e a transferência dos voos nacionais para Confins transformaram uma operação lucrativa em fonte de prejuízo para os cofres públicos (em especial, a Infraero). 

O convênio que devolve o controle do complexo ao governo do Estado traz alguma perspectiva, com a possibilidade de concessão do espaço à iniciativa privada. Dificilmente, no entanto, com o movimento e o formato de operação anteriores. Por outro lado, abre espaço para um reaproveitamento da área.
 

Museu e shopping
É o que sugere a professora da Escola de Arquitetura da UFMG Celina Borges. Ela, que estudou o aeroporto e seu impacto no entorno, acredita que, diferentemente do que parecia o ideal há três anos – a retomada de voos nacionais para aproveitar a centralidade do terminal – , o mais indicado, atualmente, é consolidar seu aproveitamento pela aviação executiva e os voos estaduais com outras atividades. “O terreno é muito amplo e rico de possibilidades. Ele poderia ganhar atividades de recreação para a população local; escolas de inclusão digital e formação de profissionais ligados à aviação, incubadoras, mesmo um museu. E como já se cogitou, um shopping center. O poder público tem toda a condição de encontrar a sustentabilidade sócio-econômica do aeroporto”.

Sem concorrência
Para o ex-governador e hoje senador Antônio Anastasia (PSD), a cessão do Pampulha ao Estado por até 35 anos é positiva. Ele lembra que, em seu mandato, encaminhou à Secretaria Nacional de Aviação Civil um planejamento para reforçar a vocação regional e transformar o complexo em polo da aviação executiva e de manutenção de aeronaves. E acredita que o ideal é explorar novas possibilidades.

“A Pampulha não deve ser concorrente do Aeroporto Internacional em Confins, mas complementar, explorando, fundamentalmente, a aviação regional e executiva. Ele pode se tornar um indutor da economia da capital e permitir a atração de grandes empresas, além da gerar empregos de alta capacitação. Temos espaço para isso no Brasil, especialmente no Sudeste, e a Pampulha, a meu ver, pode se firmar nesse segmento”, afirma. 

 

Governo quer que iniciativa privada assuma a operação

Embora já celebrada entre as duas partes, a cessão do Aeroporto da Pampulha ao governo do Estado passa a vigorar no início de 2021. Até 31 de dezembro, a operação do complexo permanecerá com a Infraero, permitindo a transição administrativa. O acordo prevê prazo de até 35 anos para a exploração, mas também permite a devolução à União caso não sejam encontradas alternativas viáveis de aproveitamento – existe a possibilidade de concessão à iniciativa privada, ou de parcerias.

A Secretaria de Estado de Infraestrutura e Mobilidade (Seinfra) promete lançar em breve um Procedimento de Manifestação de Interesses (PMI), para recolher propostas de uso que garantam a viabilidade econômica do espaço. E cita como exemplo de aproveitamento a construção de um centro de convenções, assim como o reforço da exploração da aviação executiva. A previsão é de realizar a concessão do aeroporto tão logo os estudos estejam consolidados. 

O governador Romeu Zema acredita que, com a pandemia de Covid-19 e a adoção de reuniões remotas, com possibilidade de queda no volume de viagens aéreas, a Pampulha ganhe um novo horizonte com a estrutura atual. “Se nós já tínhamos um aeroporto que estava atendendo razoavelmente bem e previsão que continuasse por mais cinco anos, este horizonte, agora, passa a ser por mais 10 ou 15 anos. Acredito que estes equipamentos passarão a ser superdimensionados. Vamos dar o tratamento necessário à vocação do Aeroporto da Pampulha”.

Pátio lotado
Curiosamente, a pandemia provocou uma cena atualmente rara em se tratando do mais antigo aeroporto a atender a capital. O pátio está lotado de aeronaves “estacionadas” da Azul, que transferiu toda a sua operação para Confins, incluindo os voos dentro do Estado.