A criação do Auxílio Brasil com valor de R$ 400,00 por mês por beneficiário – conforme confirmou nesta sexta-feira (22) o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ministro da Economia, Paulo Guedes – vai injetar por mês um total de R$ 430 milhões na economia mineira, o que representa R$ 227 milhões, ou 111%, a mais em relação aos R$ 203 milhões destinados atualmente pelo Bolsa Família. O Auxílio Brasil deve entrar em vigor em novembro, em substituição ao Bolsa Família, que hoje contempla, em todo o Estado, 1.077.158 famílias. Atualmente, o valor médio pago a cada grupo familiar é de R$ 189,00. O novo programa vai unificar o pagamento em R$ 400,00 por beneficiário. O Auxílio Brasil é temporário e estará em vigor até o fim de 2022.

Em todo o país, o número de famílias contempladas passará dos atuais 14,6 milhões para cerca de 17 milhões. O Auxílio Brasil é destinado a famílias em situação de extrema pobreza, que tenham gestantes ou pessoas com menos de 21 anos entre os seus membros. Atualmente, o Bolsa Família define como famílias em situação de extrema pobreza aquelas que têm renda de até R$ 89 por pessoa.

Impacto

Com os novos valores, o Auxílio Brasil vai injetar ao todo R$ 5,1 bilhões na economia mineira em 2022. Para o economista Paulo Casaca, do Ibmec, embora o volume de recursos vá garantir maiores condições de compra às famílias beneficiadas, o impacto no comércio será menor do que o alcançado pelo auxílio emergencial pago na pandemia de Covid-19. “È claro que este dinheiro dá um gás na economia porque aumenta o volume de demanda. Por outro lado, este recurso vai ser usado basicamente na compra de alimento, principalmente por conta d a pressão da inflação sobre essas famílias mais pobres”, explica o economista.

Teto de gastos

O programa, que exigirá R$ 30 bilhões em recursos extras que excedem o limite fiscal, causou atritos dentro da área econômica do governo federal e gerou críticas no mercado e entre o setor produtivo por conta do chamado “furo no teto de gastos”. Desde a última terça (19), quando o valor do Auxílio Brasil foi divulgado, a Bolsa de Valores de São Paulo acumulou perdas de 5,93% e a cotação do dólar saiu de R$ 5,5933 para R$ 5,6671. Segundo a economista Mafalda Ruivo Valente, das Faculdades Promove, a decisão do governo de exceder o teto de gastos vai exigir outras medidas que devem fazer com que a situação econômica fique ainda mais complicada em 2022. “Não há milagre; o dinheiro terá que sair de algum lugar. Só que o governo ainda não indicou ao certo de onde virão os recursos. E essa incerteza acaba gerando essa alta do dólar, que leva a maior inflacionária, que acabará forçando o Banco Central a aumentar os juros para conter os preços, afirma a economista. 

 

Novo perfil

A criação do Auxílio Brasil um ano antes das eleições presidenciais de 2022 é vista por analistas como uma guinada no viés político do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Além disso, o novo programa social do governo federal é considerado uma tentativa de Bolsonaro no sentido de recuperar a popularidade, em especial entre as camadas da população que serão beneficiados com o auxílio.

Para o cientista político Bruno Carazza, do Ibmec, Bolsonaro passará de um perfil liberal na economia e de independência política no trato com o Congresso Nacional, visto durante a corrida ao Planalto em 2018, para um político de ações populistas e assistencialistas na economia, enquanto na política o que se destaca é seu compromisso com o chamado Centrão. “É um Bolsonaro diferente em muitos aspectos. O primeiro aspecto é que ele não mais é uma surpresa no campo eleitoral. Agora ele precisa recuperar terreno, reconquistar popularidade que foi perdida. O programa chega tarde e sem a garantia que vá gerar o efeito de aumento de popularidade, principalmente se medirmos que o auxílio emergencial gerou um apoio e foi efêmero, que não se sustentou com o tempo”, avalia.

Já para Adriano Cerqueira, cientista político também do Ibmec, o esforço político de Bolsonaro na criação do Auxílio Brasil ainda pode render frutos para o presidente, mesmo com o preço a ser pago com desgastes vindos da área econômica – como a necessidade de se furar o teto de gastos. “A medida tem um custo, é verdade, mas é um movimento mais agressivo dele em busca de se reposicionar no jogo político. Muitas pessoas já estavam, inclusive, analisando a possível inviabilidade da candidatura dele à reeleição. E o que ele está lançando mão é uma medida largamente utilizada em anos eleitorais, que é tentar alavancar a economia”, analisa Cerqueira.