Dona Marilene Teixeira, de 67 anos, mudou o humor e o comportamento nas compras: “Antes, o supermercado do mês ficava em torno de R$ 300 aqui em casa. Agora, mais de R$ 500. Diante disso, freei os gastos”. Ela não é a única. Pelo 75º mês consecutivo, os moradores de Belo Horizonte estão pessimistas diante do consumo, como revela pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisa Econômica e Administrativas (Ipead) da UFMG.

O estudo elabora o chamado Índice de Confiança do Consumidor (ICC), que encerrou abril passado em 37,20 pontos. O indicador varia de zero a 100 – quanto mais alto, melhor o cenário econômico na visão das pessoas. A nota 50 é a divisa entre os pessimistas e os otimistas. 

Thaize Martins, coordenadora da pesquisa, recorda que janeiro de 2013 foi o último mês em que o ICC ficou acima de 50 pontos. “O que mantém o índice baixo é 0 conjunto das componentes macroeconômicas, como a situação da economia e o desemprego, hoje em torno de 13 milhões de pessoas”, diz.

O ICC é a média de seis componentes, que também oscilam de zero a 100. Em abril, cinco delas ficaram abaixo de 50: emprego (24,29), inflação (26,96), situação econômica do país (27,56), pretensão de compras (44,17) e situação financeira da família em relação ao passado (49,11). Apenas a componente situação financeira da família ficou no campo positivo, com nota 53,87.
A tendência, acredita Thaize, é de melhora nos próximos meses, mas, segundo ela, o ICC não fechará 2019 acima de 50 pontos. “Estamos num patamar que poderá alcançar os 40 pontos”, acredita.

O pessimismo também foi capturado pelo radar da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH). Uma pesquisa concluiu que a confiança do consumidor caiu quando comparado o primeiro trimestre deste ano com o último de 2018. “O estudo mostrou que 64,3% (dos entrevistados) não pretendem gastar mais neste ano do que no ano passado, sobretudo, por causa do desemprego”, disse Ana Paula Bastos, economista da entidade.

Para ela, o retorno da confiança dos consumidores virá com a chegada de investimentos. “É necessário investimento direto. A não-aprovação da reforma da Previdência gera retenção de investimento, porque os empresários não sentem confiança”, diz. 

Enquanto o desemprego estiver elevado e os preços permanecerem nas alturas, dona Marilene continuará fazendo malabarismos para poupar o valor que recebe da pensão deixada pelo marido, seu Aguimar. “Para economizar, troquei algumas marcas por outras mais em conta, como o amaciante e o arroz”, revela a moradora de BH.