Quem aderiu à tarifa branca no ano passado e se programou para consumir energia fora do horário de ponta, mantendo a demanda das 22h às 15h59, conseguiu economizar 20% na conta de luz. Isso significa que, de um mês para outro, uma conta que antes custava R$ 3,8 mil caiu para R$ 3 mil. 

Foi o caso de Carlito Domingos de Souza, proprietário de uma pequena padaria no bairro Jardim Vitória, na região Nordeste de Belo Horizonte. Depois de solicitar a instalação do medidor digital na empresa dele, Carlito viu a despesa com energia despencar. “Achei interessante, fiz todas as contas e achei que poderia valer a pena. Deu certo porque eu me planejei bastante”, afirma. 

Na tarifa branca, a energia é cobrada de acordo com a hora em que é utilizada. E quanto menor o consumo fora do horário de maior demanda, mais barata fica a conta, conforme afirma o engenheiro de processos comerciais da Cemig, Lucas Martins. 

A explicação é simples. A rede elétrica fica mais sobrecarregada das 16h às 20h59 (ou 17h às 21h59 no horário de verão). Esse é o momento em que a maioria das pessoas chega em casa, liga as luzes e usa o chuveiro, por exemplo, demandando muito das distribuidoras, que precisam fazer altos investimentos para manter o sistema funcionando. “Se os consumidores migrarem para os horários mais ociosos, é possível reduzir o preço como forma de atrativo e, ainda, garantir uma economia para as empresas”, diz o Martins.

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Carlito Domingos, dono de uma pequena padaria no bairro Jardim Vitória, conseguiu reduzir a conta de energia de R$ 3,8 mil para R$ 3 mil após a adesão ao sistema 

E a diferença nos valores chama a atenção. Das 22h às 15h59, o quilowatt-hora (KWh) custa R$ 0,48. O valor sobe para R$ 0,73 das 16h às 16h59, aumento de 52,08%. Já no horário de pico, das 17h às 20h59, o KWh vai para R$ 1,14, elevação de 137% quando comparado ao menor valor aplicado. Ou seja, quem usar energia nesse horário verá a conta de luz sofrer forte elevação. 

Atualmente, os consumidores pagam uma tarifa apenas, independentemente do horário do uso: R$ 0,59 por KWh. Todos os valores estão isentos de encargos e impostos.

Para evitar os horários de pico, a MedScaner, especializada em diagnósticos de imagem e localizada em Barbacena, na Zona da Mata, concentrou todos os pedidos eletivos em apenas uma unidade. Todos os demais exames são realizados até às 18h, conforme explica o diretor da empresa, Francisco Lambert.

Ele não informa o valor da conta de luz, mas diz que a redução foi de 15%. “Fomos a primeira empresa de Barbacena a aderir a esse modelo e estamos nos adaptando para economizar cada vez mais”, diz o empresário. 

Mas quem não se planeja pode ver a conta de luz ir às alturas. Em Uberaba, no Triângulo Mineiro, o proprietário da Street Confecções, Thiago Boaventura Abreu, amargou alta de 8% na fatura. “Não me planejei bem. As pessoas costumam ficar depois do horário e a conta acabou ficando mais alta”, lamenta.

Sistema está disponível para quem consome em média 250 kWh 

A tarifa branca foi implantada de forma escalonada no país. Até dezembro de 2018, somente quem consumia 500 quilowatts-hora (KWh), em média, poderia aderir ao sistema. A partir de janeiro deste ano, a modalidade de cobrança ficou disponível para quem consome 250 kWh, em média. Novas ligações também podem optar pelo medidor digital, que garante a leitura diferenciada. Isso significa que casas e apartamentos menores podem ser beneficiados. A partir de 2020, qualquer imóvel poderá ser incluído no programa.

Desde quando a tarifa branca começou a vigorar, 45 unidades consumidoras aderiram a ela. Dessas, 12 não se adaptaram e pediram para voltar à cobrança convencional. O engenheiro de processos comerciais da Cemig, Lucas Martins, alerta que o cancelamento pode ser realizado a qualquer momento. Porém, o imóvel só pode ser inserido na modalidade novamente após seis meses.

Custos
Ele destaca que o custo do medidor é da Cemig. Porém, o consumidor deve arcar com as adequações do padrão de luz, que deve ser energizado. Com energia, o equipamento consegue distinguir o consumo por faixa de horário. O valor das adequações gira em torno de R$ 1,2 mil. 

“Esse medidor que vai instalar é digital. Não é analógico, como na tarifa convencional. Como o custo de adequação é de responsabilidade do consumidor, ele também deve analisar se a redução na conta de luz vai amortizar esse investimento antes de optar pela nova modalidade”, pondera.

Na prática
O eletrotécnico Helton Hipólito Gonçalves instalou o medidor em sua residência recentemente. Ele morava em uma casa com mais pessoas e, agora, dividirá o imóvel com outras duas. Todos, segundo o eletrotécnico, ficam fora de casa no período em que a energia é mais cara. “Achei que valia a pena porque aqui em casa nós trabalhamos o dia todo e só chegamos em casa depois do horário de pico. Mas ainda não recebi nenhuma conta para ter certeza”, explica.

Ele, que está reformando o imóvel, afirma que a sugestão para implantar o medidor foi do engenheiro. “Ele disse que, pelos nossos horários, podemos ter uma boa redução. Mas sabemos que será necessário racionalizar o uso”, diz.

Stand-by
Dificilmente algum estabelecimento conseguirá zerar a conta no horário de ponta. O motivo são os equipamentos que não desligam, como geladeiras e freezers, além das luzes de stand-by, que costumam ficar acessas durante todo o tempo. Mesmo com alguns pontos de energia, a economia na conta pode ocorrer.