As dificuldades enfrentadas pelos micros, pequenos e médios empresários para a obtenção de crédito no país, principalmente devido à burocracia e aos altos juros, têm levado as fintechs a surfarem nesse novo nicho de mercado. Essas startups, que trabalham para inovar e otimizar os serviços no segmento financeiro, ampliam as ofertas ao empresariado, com empréstimos e outras transações a taxas muito mais em conta.

A Finpass, autointitulada “Tinder do crédito”, atua como ponte entre o mercado financeiro e pequenas e médias empresas, utilizando a tecnologia de “matching” para tornar o processo mais rápido e inteligente. A empresa foi a campeã do “Desafio BNDES Fintech”, realizado em 26 de novembro, para eleger a empresa com as melhores soluções no ramo.

Atualmente, são 250 instituições financeiras cadastradas na plataforma, que preenchem 550 variáveis sobre o perfil de empresário para o qual eles pretendem conceder o aporte, considerando itens como setor de atuação e tamanho da empresa. 

“Assim, o cliente sabe, desde o primeiro momento, com quantas instituições poderá negociar”, afirma Dan Cohen, CEO da empresa. Apenas em Minas Gerais, já foram 557 organizações beneficiadas desde 2015, com um total de R$ 180,5 milhões em créditos concedidos no Estado. 

Atuando de forma semelhante, a Capital Empreendedor, que começou a operar em 2017, já possui mais de R$ 200 milhões em operações e conta com 3 mil empresas financeiras cadastradas com o objetivo de injetar dinheiro no mercado. 

Leonardo Medina, analista da unidade de acesso a serviços financeiros do Sebrae Minas, afirma que a alternativa é uma excelente opção para impulsionar os negócios. Especialmente de empresas que estão começando no mercado, que têm dificuldades para preencher os requisitos para a tomada de crédito no sistema tradicional. 

“Muitas vezes, os bancos pedem garantias, apresentação da capacidade de pagamento, o que é muito difícil para quem está começando. Nas fintechs, as taxas são baixas e há menos burocracia”, diz.

Alternativas
Com uma proposta semelhante, a mineira Mobi Payment oferece um sistema de pagamentos fora dos bancos, com custos transacionais menores em saques, depósitos e pagamentos. 

“Isso facilita a vida do pequeno e médio empresário, que tem uma conta digital muito mais adequada às suas necessidades. Precisamos lembrar que muitas cidades não possuem sequer uma agência bancária, então o nosso serviço democratiza a atividade do empreendedor”, afirma Ricardo Capucio, fundador da empresa. 

Cliente da plataforma, a microempreendedora Andréa Diniz, que vende roupas em casa, nunca recorreu aos serviços de um banco tradicional. “Desde que comecei, há dois anos, uso os serviços da Mobi Payment para aceitar pagamentos em cartão e fazer transações. Facilita muito a vida do empreendedor, porque as taxas são menores e cabem no nosso bolso”, diz. 

Já a fintech Zetra, com sede em Belo Horizonte e em outras três capitais brasileiras, oferece alternativas de crédito consignado para os empregados de grandes empresas, como Coca-Cola e Azul Linhas Aéreas. “É uma espécie de benefício para que a empresa possa bonificar o funcionário com um crédito fácil”, afirma Renato Araujo, fundador da Zetra. Em 2019, o grupo vai expandir a atuação também para as empresas de pequeno porte e espera um aumento de até 35% no faturamento. 

Fintech

Renato Araújo, fundador da Zetra: “É uma espécie de benefício para que a empresa possa bonificar o funcionário com um crédito fácil”

Empresários devem avaliar histórico e políticas de privacidade

Apesar das vantagens, as fintechs também exigem alguns cuidados dos empresários que estão em busca de facilidades. 

Leonardo Medina, analista da unidade de acesso a serviços financeiros do Sebrae Minas, afirma que as operadoras do sistema financeiro devem ser tratadas como qualquer outro fornecedor, que exige pesquisa e negociação antes de fechar o negócio. 

“O empresário deve pesquisar sobre a instituição, pegar referências, saber se há algum banco por trás. As fintechs também oferecem um produto, assim como os outros fornecedores, só que neste caso o produto é o dinheiro”, explica. 

Para evitar o endividamento irresponsável, ele aconselha observar, além do tamanho das parcelas, as taxas de juros e o tempo de duração do financiamento contratado. 

Por se tratar de uma transação virtual, as políticas de privacidade da empresa e os detalhes das condições oferecidas também devem ser observadas com atenção antes da contratação.

“Normalmente, é tudo feito por meio digital, sem nenhum contrato físico ou assinatura. Por isso, o empresário precisa compreender que, quando ele aperta um botão e aceita os termos, isso já é a assinatura do contrato”, diz.

Regulamentação
Em maio deste ano, o Banco Central regulamentou duas modalidades de fintechs que atuam no setor de crédito. 

Um deles, chamado Sociedade de Empréstimo Entre Pessoas, prevê o tipo de plataforma na qual pessoas que querem emprestar dinheiro acessam projetos de pessoas que querem captar, para escolher em qual preferem investir. 

A outra modalidade é a Sociedade de Crédito Direto, por meio da qual as fintechs podem captar recursos de fundos de investimento sem ter que passar pela intermediação de um banco tradicional, podendo ofertar diretamente para o cliente o recurso captado.

“Apesar de serem apenas duas, das mais de dez áreas existentes, essa regulamentação pode ser considerada um avanço. Antes, só era possível atuar em parceria com algum banco, mas agora as fintechs possuem mais autonomia para ofertar o crédito”, afirma Medina. 

Em expansão
Segundo o Radar FintechLab, que mapeia o cenário de fintechs no Brasil, o país tem hoje 453 startups financeiras em operação. O número representa um crescimento de 23% na comparação com 2017, quando havia 369 empresas operando no segmento. 

O setor de Pagamentos é líder, com 105 fintechs, 26% do total. Ele é seguido pelas iniciativas voltadas a Gestão Financeira e Empréstimos, com 70 companhias cada uma e responsáveis individualmente por 17% do total.