Em meio à crise econômica, aumenta o número de brasileiros que usam a tecnologia para economizar. Além dos aplicativos que oferecem cashback (devolução de parte do dinheiro gasto), cupons de desconto, milhas e redução no valor pago por meio das compras coletivas, os próprios estabelecimentos lançam plataformas de fidelização. Como reflexo, 26% dos brasileiros hoje têm algum tipo de app de oferta instalados no celular, o equivalente a uma em cada quatro pessoas, conforme levantamento do Ibope Conecta.

Na avaliação do coordenador de Economia do Ibmec, Márcio Salvato, todo e qualquer desconto é bem-vindo, especialmente em tempos de vacas magras. Ele alerta, no entanto, que o consumidor não deve se “iludir” e comprar demasiadamente devido aos programas de fidelidade. “Ninguém dá nada de graça. O custo dos produtos ou descontos que as empresas oferecem já está embutidos no preço da operação. Quem não usa o benefício está pagando por quem usa”, diz.

A estudante de medicina Fernanda Cerqueira não corre esse risco. Heavy user (usuária de peso) de aplicativos de descontos, ela consegue preços melhores do combustível que coloca no carro às viagens que faz. “Já troquei pontos do cartão de crédito e de programas de fidelidade por cafeteiras, fone de ouvido, passagens, celular, gasolina, entre outros. Fico sempre atenta às datas de vencimentos dos pontos”, afirma.

A enfermeira Lorena Isis dos Santos também aproveita as oportunidades. Ela já trocou os pontos por ingressos para o cinema, pratos em restaurantes, panela elétrica, relógio e passagens aéreas. Para acumular cada vez mais benefícios, ela compra tudo no cartão de crédito. Na última quarta, por exemplo, Lorena embarcou de férias para o Chile. Um dos trechos da viagem foi pago com milhas. “Eu até mudei o tipo do cartão para acumular mais. E além do cartão uso vários aplicativos”, diz.

Fernanda Cerqueira Posto Ipiranga App CashBack

A estudante de medicina Fernanda Cerqueira usa diversas plataformas para conseguir desconto, entre elas, apps de postos de gasolina

Drogarias

Até na farmácia é possível economizar. Na drogaria Araujo, por exemplo, o cliente que levar a tampinha da caixa do remédio genérico tem desconto significativo sobre o preço inicial. Outra ação da marca é uma parceria de cashback com a Proctor and Gamble, que fabrica produtos de limpeza, barbeadores, cosméticos, produtos alimentícios, itens de perfumaria, entre outros. “O cliente que se cadastrar no site da P&G e comprar produtos da marca recebe de volta até R$ 50”, explica o gerente de operações da Araujo, Pablo Krettli.

Ele cita, ainda, os programas de fidelidade dos laboratórios de medicamentos e dermocosméticos como forma de comprar mais e gastar menos. Por meio do cadastro nessas empresas, é possível conseguir descontos de até 80% em diversos produtos. “Os funcionários da drogaria estão aptos a informar todos os descontos e parcerias que incidem sobre cada um dos medicamentos. O sistema está preparado para isso”, afirma Krettli.

 

Supermercados investem em promoções personalizadas

É possível gastar menos no supermercado com os aplicativos próprios. No Extra e no Super Nosso, por exemplo, o cliente recebe ofertas exclusivas, de acordo com os hábitos de consumo de cada um. Para isso, basta fazer o download do app dos estabelecimentos no celular.

“A partir dos dados de compra do cliente, conseguimos oferecer descontos em produtos que normalmente ele compra e outros que ele poderia gostar. O ‘Meu Desconto’ é uma evolução na forma do varejo oferecer ofertas e na maneira como os programas de fidelidade relacionam-se com os clientes. Para utilizar, basta o cliente ativar as ofertas de interesse e o desconto será aplicado no fim da compra, após ele digitar o CPF”, explica o diretor de Customer Experience do GPA, grupo controlador do Extra, Teodoro Ornelas. Hoje, 12 milhões de clientes estão cadastrados no app da rede.

No Super Nosso, além de o cliente receber ofertas personalizadas por meio do app Clube Super Nosso, é possível acumular pontos com Dotz, uma espécie de moeda virtual que pode ser trocada por diversos produtos, como passagens, calçados, eletrônicos e outros. “Acreditamos que o valor percebido pelo cliente com esse tipo de programa é muito grande. Afinal, ele troca os pontos por passagens, eletrônicos, produtos que têm grande valor”, afirma o diretor de Vendas do grupo Super Nosso, Rafael Brandi.

Cashback

Pioneiro no setor de cashback, que permite a devolução de parte do dinheiro gasto ao consumidor, o BeBlue já devolveu mais de R$ 200 milhões aos quase 3 milhões de usuários do app, localizados em 11 estados do país, incluindo Minas Gerais. Dezesseis mil estabelecimentos são conveniados à plataforma. Juntos, eles já comercializaram mais de R$ 2 bilhões por meio do app. O sistema funciona bem porque o valor que retorna ao cliente só pode ser usado nos estabelecimentos conveniados à plataforma, fomentando as vendas daquela rede específica. E a tendência é de crescimento desse mercado. 

“O conceito de cashback já existe há alguns anos em países como os Estados Unidos, mas apenas recentemente vem ganhando espaço no Brasil. Com ao avanço da tecnologia, as soluções digitais, como o modelo de cashback, estão cada vez mais em ascensão e a tendência é que elas se popularizem ainda mais nos próximos anos” afirma o CEO de Beblue, Murilo Silverio.

Saiba Mais

Para o CMO do Peixe Urbano, Adalberto Da Pieve, os descontos deixaram de ser suficientes, já que a veracidade dos anúncios pode ser conferida com uma simples e rápida busca na internet. Por isso, as empresas começaram a buscar soluções mais certeiras de fidelização. O foco do Peixe Urbano, que atuava exclusivamente como um grupo de compras coletivas, foi o cashback. O motivo da diversificação é o fato de o dinheiro que volta para o consumidor ser utilizado apenas nas lojas parceiras.

“Nosso primeiro teste foi feito este ano e gerou um aumento de 20% no tíquete médio e adesão de 5% da base de usuários, ainda que com uma divulgação pequena. Depois do resultado positivo, passamos a adotar o cashback com uma frequência maior. A última ação já apontou uma adesão de 30% da base”, diz.