Com as atividades paralisadas por embargo ambiental, 200 trabalhadores demitidos e um pedido de recuperação judicial, a crise enfrentada pela MMX começa a mostrar seus efeitos sobre as cidades de Brumadinho, Igarapé e São Joaquim de Bicas, onde está localizado o Sistema Serra Azul. Após os empregos, o comércio e a arrecadação municipal também devem sofrer perdas.

A paralisação das atividades da mina e a difícil situação financeira do grupo de Eike Batista gera dúvidas sobre a capacidade da companhia para honrar as rescisões.

De acordo com o Sindicato Metabase de Brumadinho, o clima é de insegurança. A entidade informa que não tem garantia de que todos os funcionários demitidos receberão os acertos, considerando que, com o pedido de recuperação judicial, há risco de que a verba da empresa destinada aos acertos seja embargada pela Justiça.

Logo após o anúncio das demissões, na semana passada, a entidade encaminhou para a Justiça do Trabalho um pedido de cancelamento das dispensas, mas ainda não houve retorno.

A mineradora mantém cerca de 100 funcionários que fazem a segurança e a manutenção básica de alguns equipamentos na unidade Serra Azul.

“Estou buscando um novo espaço no mercado e não está fácil. Sou casado e tenho três filhos, mas pelo menos até o final desse ano não tenho perspectivas muito boas”, avaliou o técnico em planejamento e manutenção de equipamentos móveis, Paulo Roberto Aguiar, um dos demitidos pela mineradora.
 

Trabalhador demitido

Demitido depois de nove anos de empresa, o funcionário Paulo Roberto Aguiar procura recolocação no mercado 

 
Uma reunião emergencial na Superintendência Regional do Trabalho e Emprego foi marcada para a próxima terça-feira, em Belo Horizonte. Para o presidente do sindicato, Agostinho José de Sales, a expectativa é que a empresa se recupere e volte a operar na cidade.

“Os benefícios como planos de saúde, cartão alimentação e participação nos resultados farão muita falta aos empregados. Mas como os equipamentos e máquinas da empresa não foram vendidos, temos esperança de recuperação”, afirmou Sales.
Dentre os empregados demitidos há moradores de Contagem, Ibirité, Sarzedo e Brumadinho, principalmente. Hoje, o salário base da categoria é de R$ 1.320,00.

Perdas coletivas

Além da perda de renda dos trabalhadores, os maiores prejuízos devem ser sentidos pelos cofres públicos municipais. No caso de Brumadinho, a estimativa é de uma redução de 51% da arrecadação da cidade com a perda da Compensação Financeira pela Exploração de Produtos Minerais (Cfem).

O prefeito de Brumadinho, Antônio Brandão, afirma que os impactos são ainda maiores considerando que empresas terceirizadas também podem deixam de pagar tributos ao serem afetadas pela paralisação da MMX.

“O desemprego impacta o comércio, que, por sua vez, paga menos impostos. Isso sem falar nas terceirizadas, que contribuem com o ISSQN. É uma sequência de perdas”, apontou.
Sem alternativas para compensar a possível perda de arrecadação, a prefeitura aposta nas belezas naturais da cidade como única solução possível.

“Temos uma vocação natural para o turismo rural dentro de Brumadinho. O que precisamos agora é nos preparar para esse futuro, organizando o setor dentro de toda cidade a fim de gerarmos receita efetivamente”, explicou o secretário Municipal de Fazenda de Brumadinho, Geraldo Luiz Rezende.
 
Varejo de Brumadinho prevê um Natal magro
 
Apesar de ainda não terem sentido de forma prática os efeitos negativos das demissões da MMX, comerciantes de Brumadinho estão preocupados com o desempenho das vendas nos últimos meses do ano.

Na cidade com menos de 34 mil habitantes, a notícia foi recebida com pesar pelos empresários, que sofrerão os impactos da perda real no poder de compra de 200 famílias.

Diego de Sales, proprietário de uma loja de presentes que existe há 15 anos no centro da cidade, prevê o esfriamento nas vendas.

“Já não estamos em um bom momento desde que a empresa deu férias coletivas. Uma pena que isso ainda possa piorar”, diz.
 

Comerciantes estão preocupados

O comerciante Diego Sales projeta vendas abaixo da média para o fim do ano

Outro empresário que também estima perdas é o dono da loja de calçados mais antiga da cidade, Milton Junior. “Em dezembro, quando costumamos ter boas vendas devido ao Natal, acredito que o movimento seja bem menor”, lamenta.

Para o dono de uma loja de produtos agroveterinários, José Custódio, a notícia das demissões piora ainda mais o desempenho do comércio, que já estava desaquecido desde o início do segundo semestre.

“O mais preocupante é que são muitas pessoas perdendo o emprego de uma só vez”, aponta o comerciante.

Futuro

O prazo legal estimado para que os estudos de adequação ambiental da MMX sejam concluídos é de 120 dias. É preciso, também, um aval do Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais (Copam). Enquanto isso, as atividades permanecem paralisadas.

Um embargo também foi determinado no mês de maio, na Unidade de Tratamento de Minério (UTM). Foram identificou danos à cavernas situadas nas áreas exploradas e o Copam aplicou duas multas, no valor de R$ 50 mil cada uma, por descumprimento da legislação ambiental. A empresa entrou com recurso.

Sem pistas de como será o desfecho da situação, sindicato dos trabalhadores, prefeitura e empresários aguardam um posicionamento da Justiça. Procurada, a MMX não se manifestou sobre as demissões.
 
Embargo ambiental suspendeu atividades
 
Os problemas da MMX em Minas começaram em fevereiro, depois que a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad) decretou embargo das atividades na mina Tico-Tico, que integra o projeto Serra Azul.

A alegação era de que a mineração no local tinha danificado cavernas importantes para o complexo ambiental da área. Depois de várias tentativas para contornar o embargo, a mineradora decidiu dar férias coletivas de 30 dias aos empregados da mina.

Com o fim das férias, a MMX informou que as atividades irão permanecer suspensas por tempo indeterminado. Segundo informações do Sindicato Metabase de Brumadinho, 200 demissões foram realizadas entre os dias 10 e 13 de outubro.

A empresa entrou com pedido de recuperação judicial na última quinta-feira. Caso o pedido seja aprovado, a MMX será a terceira empresa do grupo de Eike Batista a entrar em recuperação judicial. As outras duas são a OGX, do setor de óleo e gás, e o estaleiro OSX.