A crise está desacelerando, mas não ha qualquer sinal de que a retomada do crescimento esteja próxima. É o que mostra o tradicional Boletim Regional, produzido anualmente pelo Banco Central e distribuído na semana passada com os dados de 2016.

O documento, que compila e analisa os principais indicadores da economia mineira e brasileira, mostra o tamanho do desafio que será reverter a depressão que já se arrasta por três anos. 

Produção industrial despencando, explosão do desemprego e até mesmo produção agrícola em queda marcaram os últimos 12 meses. Analisar os números, impressiona.

Em 2016, o Produto Interno Bruto (PIB) de Minas Gerais recuou 3,1% nos três primeiros trimestres do ano, praticamente acompanhando o índice nacional, de retração de 4%.

A taxa básica de juros (Selic) na casa de 14,25% por quase todo o ano segurou o crédito e emperrou investimentos na indústria e nas empresas de maneira geral.

Segundo dados do Banco Central, o saldo das operações de crédito superiores a R$ 1 mil para pessoa física em Minas gerais recuou 2,5% em 2016, no confronto com 2015. No Brasil a queda foi de 3,6%. A retração para as empresas foi vertiginosa, de 7,1% em Minas e 8,9% para o Brasil, na mesma base de comparação.

A produção industrial de Minas em doze meses até novembro registrou queda de 7% no confronto com igual período imediatamente anterior. A indústria automotiva foi o setor mais afetado, com retração de 18,6%.

Para tentar estabilizar o estoque, as montadores adotaram diversas estratégias. Inclusive demissões. A montadora Fiat, localizada em Betim, deu férias coletivas aos funcionários durante o ano, sem sucesso.

Mineração

A indústria extrativa mineral foi o segundo setor da economia mineira mais afetado, fechando o ano em queda de 13,1%. O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, operada pela Samarco, foi o principal motivo para a queda. Como reflexo, a ociosidade da indústria mineira aumentou 1,8 ponto percentual entre o trimestre terminado em agosto e o seguinte, finalizado em novembro.

Conforme o coordenador da Gerência Técnica de Estudos Econômicos em Belo Horizonte, Rodrigo Lage de Araújo, devido à base de comparação fraca, a previsão é a de que o segmento elimine as perdas em 2017. Segundo ele, o preço do minério em recuperação, somado à retomada das exportações, será suficiente para melhorar o cenário.

“A experiência internacional e a teoria econômica apontam que inflação baixa e estável é precondição para o crescimento sustentável”
Boletim Regional do Banco Central

O emprego foi a reboque. No trimestre de setembro a novembro, foram encerradas 33,5 mil postos de trabalho no Estado, conforme o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Com desemprego em alta e falta de demanda no comércio, a inflação é pressionada para baixo. Em 2016, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em Belo Horizonte fechou em 6,6% e 6,29% no Brasil, de acordo com o IBGE.

Para os próximos meses, conforme o chefe do departamento Econômico do Banco Central, Tulio Maciel, a previsão é de queda da forte da inflação. “Minas acompanha o índice nacional”, diz. 

Segundo ele, a projeção de safra agrícola recorde para 2017 deve contribuir para reduzir os preços dos alimentos. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) prevê alta de 17,4% na colheita nacional e de em Minas 15,3%.

Além Disso

Em 2016, os setores industriais de automóveis, de máquinas e equipamentos para a indústria (bens de capital) e a mineração foram os que mais sofreram perdas. 

“A crise reduz a demanda por bens duráveis e, consequentemente, o investimento das empresas em máquinas. O setor de mineração, após o desastre ambiental de Mariana, também vem sofrendo sucessivas perdas”, explica Sérgio Guerra, economista da Fiemg. 

Em contrapartida, os setores de alimentos, bebidas, celulose e papel, e outros produtos químicos geraram resultados positivos. “Só o setor de alimentos e bebidas representa 17% de toda produção industrial em Minas”, pontua Guerra. 

Para este ano, a projeção é de que haja um crescimento na produção industrial de 0,9%, e do faturamento real da indústria em 1%. “Há a expectativa de recuperação principalmente no setor de veículos automotores, que já ensaia uma produção maior desde dezembro do ano passado. Por enquanto, temos apenas algumas reações pontuais. Apostamos em um crescimento de forma mais disseminada no fim do ano”, diz Guerra.

Queda vertiginosa das vendas provoca quebradeira no comércio
A crise econômica está passando como um furacão pelo comércio de Belo Horizonte. Com a queda vertiginosa nas vendas, uma infinidade de lojas estão fechando as portas, trocando de endereço ou reformulando o modelo de negócios para cortar custos. 
 

Queda vertiginosa das vendas provoca quebradeira no comércio

Corte - A gerente da Melissa, Daniele de Carvalho: loja da Savassi foi reduzida à metade por conta da queda de 40% nas vendas


Dono de imóveis e, hoje, consultor de franquias, Lúcio Flávio Aleixo Filho, já chegou a ter abertas três lojas do Clube dos 13, de produtos esportivos, duas em shoppings e uma na Savassi. Por causa da crise, fechou todas elas. Reclama também que precisou baixar o preço dos aluguéis dos imóveis comerciais que possui para o nível de cinco anos atrás. 

“Sentimos uma piora muito grande nas vendas desde que o funcionalismo público se mudou para a Cidade Administrativa. Não consegui manter os negócios e vários dos meus antigos concorrentes também fecharam as portas”, explica Lúcio.

Redução
Já a loja da Melissa, de calçados femininos, na tradicional avenida Cristóvão Colombo foi reduzida à metade. Quando começou a crise, há três anos, a franquia que ocupava duas lojas passou a ocupar apenas uma. Na próxima semana, mudará novamente para o ponto ao lado.


“Nos últimos anos, tivemos uma queda de 40% nas vendas. Para este ano, com investimentos em modernização do nosso espaço, com um novo layout mais moderno, esperamos que esse decréscimo se reverta” 

Daniele de Carvalho, gerente da Melissa


Segundo Alessandro Runcini, diretor da Câmara de Dirigentes e Lojistas da Savassi (CDL Savassi), 2016 foi o pior para o comércio nos últimos 12 anos. Preços de aluguéis altos, obras de revitalização da praça da Savassi e a redução de 155 vagas de estacionamento na região são alguns dos fatores apontados para que muitos lojistas saíssem da região ou mudassem os rumos dos negócios.

“Estamos passando por uma fase muito difícil. A Savassi, como a maioria das regiões de Belo Horizonte, passa por mudanças. 

Na contramão
Existe, porém, quem tenha aproveitado as oportunidades da crise. No espaço antes ocupado pela loja de roupas femininas Jey, na Savassi, agora estão duas novas lojas. Uma delas é a Santoô Store, também de roupa feminina, que está na região há cinco meses. 

“Foi uma oportunidade que vimos de implantar um negócio em meio à crise. Tivemos um bom número de vendas nesse período, e apostamos na nossa nova coleção, que vai sair em março”, explica Liliane Drumond, gerente da Santoô.
 

Indicadores Econômicos