Cristiana Kumaira é a “prefeita” de um dos cartões-postais de Belo Horizonte. No papel de gerente executiva do Circuito Cultural Praça da Liberdade, ela administra, como gosta de dizer, as dores e as delícias da cidade, dentre elas, o pesado trânsito e a falta de estacionamento na região Centro-Sul. Preocupações que só aumentam agora que as projeções apontam para um recorde de visitação nos atuais 12 espaços que integram o Circuito.
 
Na expectativa pela conclusão das obras de mais seis espaços, como o Museu do Automóvel e o Centro Cultural Oi Futuro, Cristiana revela um “namoro” com outras casas de cultura, mas prefere adotar a cautela sobre um futuro casamento. “Precisamos amadurecer essa governança. O Circuito é um projeto que se iniciou, de fato, em 2010, e precisamos consolidá-lo. Nosso intuito é que ele inove, não somente no aspecto cultural, o que exige uma capacidade de articulação de todos esses espaços que não tem modelo parecido no país”.
 
 
Qual é o papel do Circuito Cultural Praça da Liberdade nesta mudança do destino turístico em Minas Gerais? Belo Horizonte afinal deixou de ser apenas uma espécie de “dormitório” – de onde as pessoas saíam para visitar outras cidades – para se tornar um importante local de visitação?
 
Um ponto importante do Circuito é a gente pensar, sobretudo, que ele faz bem para Belo Horizonte e que Belo Horizonte faz bem ao Circuito. É um projeto que traz um cenário não só do ponto de vista turístico, mas econômico. Além, é claro, do elemento cultural, que, somado a outras iniciativas, põe a cidade num status diferenciado. Estamos caminhando para ser uma cidade mais atrativa, com mais oportunidades. Com as pessoas passando mais tempo aqui, altera-se o resultado da economia na cidade. A realidade que tínhamos antes era a de um turista que ficava um dia e seguia para as cidades históricas. Agora, não só por causa do Circuito, como também por outros projetos, ele fica mais dias. Com 12 espaços em funcionamento no Circuito, posso garantir que o turista pode ter uma semana comprometida em visitá-los e conhecê-los.
 
Você já dispõe de números sobre o impacto do Circuito na economia?
 
Estamos estudando uma maneira de como mensurar isso, pois o Circuito nasceu em 2010 e não está 100% concluído. Seremos mais espaços do que somos hoje. Cada um está num estágio de desenvolvimento. No entanto, a gente já começa a ter alguns sinais. Há pouco tempo, em reunião com todos os gestores dos espaços, constatamos que o Circuito gera, hoje, algo em torno de mil empregos, entre diretos e indiretos. O impacto sob o ponto de vista cultural é inquestionável. É um projeto que, quanto mais as pessoas conhecem, mais gostam. Geralmente, elas visitam um espaço e depois voltam para conhecer os demais.
 
O belo-horizontino já tem conhecimento desses espaços? Qual a porcentagem de visitantes que são de fora da Belo Horizonte e de oriundos da própria cidade?
 
Durante a Copa do Mundo, tivemos um número recorde de 125 mil visitantes em julho. Comparado ao ano anterior, é quase o triplo de visitação. Mas é importante frisar que esse número já vinha aumentando e que a Copa incrementou com a vinda de mais estrangeiros. A gente está correndo atrás dessa porcentagem, no sentido de criar mecanismos para que se possa aferir com precisão de onde são os visitantes. Hoje, a gente tem um desafio que é o fato de o visitante não querer ser incomodado, preenchendo um formulário. Empiricamente posso dizer que o número de visitantes belo-horizontinos vem crescendo, vindos das mais variadas regiões da cidade. Não é apenas o morador da zona centro-sul que visita o circuito.
 
Como está a implantação dos outros espaços? Estão dentro do cronograma?
 
Cada projeto tem um tempo diferente, dependendo muito do impacto da obra, do restauro e das condições do prédio. Estamos tratando de prédios históricos e tombados. Não é uma simples obra. Exige-se todo um cuidado, um acompanhamento diferenciado para que sejam preservadas todas as características dessas edificações. Estão quase todos na fase de projeto ainda, em que se faz necessário uma série de aprovações dos órgãos competentes. Tem todo um processo que, infelizmente, não é tão rápido. Isso não quer dizer que esses novos espaços, através de seus gestores, já não estejam participando da gestão do Circuito.
 
E como funciona essa gestão, já que seis espaços são do Estado e outros seis têm a parceria da iniciativa privada? Como gerente executiva do Circuito, quais são os seus limites? Você tem autonomia para estabelecer uma programação unificada?
 
É importante explicar que eu sou presidente do Instituto Cultural Sergio Magnani, que é uma organização do terceiro setor com expertise em gestão e execução de políticas públicas, principalmente as relacionadas à área de Cultura e Educação. Nós temos um termo de parceria com o poder público, em que temos metas e resultados com prazos determinados. Isso exige um compromisso diário na busca desses resultados. Um dos diferenciais do Circuito é como essa gestão se dá, pois não há projetos similares pelo mundo afora. Ela é feita num diálogo permanente com a entidade civil e os gestores e parceiros de todos os espaços, por meio de comitês. É muito importante contar um pouquinho como o Circuito funciona porque existe um desconhecimento das pessoas, que às vezes podem achar que é uma praça histórica cercada de prédios com programações estruturais alinhadas ao lazer. É mais do que isso: ele inaugura uma governança social e colaborativa entre iniciativa privada e poder público, com ênfase na redemocratização da Cultura, algo que não há referência. Não é uma gestão simples, mas já avançamos muito.
 
Existe alguma espécie de acompanhamento da gestão desses espaços privados, já que estão ocupando prédios cedidos pelo governo estadual?
 
Não interferimos no estilo de gestão de cada espaço, até porque a diversidade é o que diferencia o Circuito. O que a gente sente é um comprometimento muito grande dos espaços em geral com essa gestão, principalmente com a formação de público. Em 2013, tivemos mais de dez mil crianças passando pelos programas educativos. Esse número é muito importante para a gente, porque as crianças trazem os pais no final de semana. Nessa área educativa, é interessante observar que cada espaço tem sua programação. São experiências diferentes e é assim que tem que ser.
 
Mas, ao ceder esses espaços, existe, em contrato, alguma contrapartida das empresas? Seria apenas o lado educativo?
 
Existe um documento, como se fosse um contrato, que cede o espaço em comodato por 20 a 30 anos. Existe uma contrapartida prevista para cada parceiro, inclusive o restauro e a recuperação dos prédios. Todos eles passaram por essa restauração, o que significa um investimento significativo.
 
Como vocês estão acompanhando a polêmica em torno do Teatro Oi Futuro Klauss Vianna? Apesar de a Oi Futuro estar de mudança para o Palacete Dantas e o Solar Narbona, na Praça da Liberdade, a classe artística se ressente da perda de um importante palco no prédio que será desapropriado para dar lugar ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
 
Essa discussão é válida, mas necessariamente não tem a ver com a questão da mudança do Oi Futuro para cá. Essa situação já existia e, em contrapartida, a cidade passa a contar com vários espaços novos surgidos nos últimos anos. A vinda do Oi Futuro é bastante positiva, pois facilitará o acesso das pessoas e enriquecerá nossa programação. 
 
Uma das críticas que fizeram ao Circuito no início de sua implantação, é a centralização da cultura na cidade, em caminho oposto à regionalização defendida em administrações anteriores da Prefeitura. Como a senhora vê essa questão?
 
É preciso esclarecer que o projeto não foi criado com a intenção de centralizar a ação cultural. Muito pelo contrário. Eu entendo o projeto, assim como os gestores dos espaços, como uma grande caixa de ressonância, que pode dialogar com os outros espaços da cidade, o que já tem sido praticado por nós. Temos um projeto para acontecer no final do ano, um evento literário, que terá desdobramento em outros espaços culturais na cidade. Existe uma prática completamente contra essa primeira impressão. Nós sempre tivemos a preocupação em divulgar também o que está acontecendo na cidade. E temos um projeto ligado às regionais, chamado “Hoje é Dia de Museu”, em que oferecemos um ônibus para trazer as crianças das escolas.
 
Até 1963, não havia ruas que separavam os prédios da Praça da Liberdade. Vocês pensam em retomar essa ideia? Há alternativas para o pesado trânsito de carros na região?
 
O Circuito está em Belo Horizonte, o que significa compartilhar todas as suas dores e delícias. A mobilidade é uma questão que afeta a cidade e não teria como deixar de afetar o Circuito. Existem projetos que propõem alterações no trânsito e outros que sugerem alterações mais profundas no entorno, mas, de nossa parte, o que fizemos foi contratar um estudo para poder conversar com as pessoas responsáveis dessas áreas. Não somos especialistas nesse tema, mas entendemos que é nossa obrigação provocar essa reflexão. Se hoje somos 12 espaços, no futuro seremos 18. E isso tem um impacto.
 
Outro questionamento que vocês vêm recebendo é em relação ao horário de funcionamento diferenciado dos espaços. Existe a possibilidade de uma padronização?
 
A maioria funciona dentro do mesmo horário. Mas existem situações em que não se justifica um período de abertura igual a de outros espaços. Um exemplo é o Arquivo Público, que tem uma visitação diferente dos outros espaços, que são pesquisadores, principalmente. Na maioria, estamos trabalhando para que tenham um bom período de horário comum. Às quintas, todos eles ficam abertos até mais tarde, beneficiando pessoas que trabalham na parte da tarde e só poderiam vir à noite. Independentemente de ser quinta, já temos dois espaços que funcionam até às 21h, que são o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e a Casa Fiat de Cultura.
 
Já pensam em abrigar mais algum outro espaço e que esteja fora do entorno da Praça da Liberdade, como o Cine Belas Artes?
 
Existe um namoro com o Belas Artes. Na verdade, com vários espaços. É possível, sim, mas agora temos como meta concluir o que está por vir. Isso não impede que essa parceria aconteça em alguns eventos. A médio prazo, a tendência é que o Circuito dialogue cada vez mais intensamente com outras regiões da cidade, inclusive com a Praça da Estação. É importante também frisar que precisamos amadurecer essa governança. O Circuito é um projeto que se iniciou, de fato, em 2010 e precisamos consolidá-lo. Nosso intuito é que ele inove, não somente no aspecto cultural, o que exige uma capacidade de articulação de todos esses espaços que não tem modelo parecido no país. É importante que ele fique bem claro antes que possamos abrir para outros. Não é simplesmente entrar com a sua vocação. Precisamos saber qual é a contrapartida.