A disparada do dólar nas últimas semanas, tendo batido recorde de alta no Plano Real ao atingir R$ 4,25 no final de novembro, já começa a impactar as viagens internacionais e a procura por intercâmbio, principalmente nos Estados Unidos e Canadá. Diante da escalada da moeda norte-americana, muitas pessoas já estão revendo os planos à procura de novos destinos no mercado doméstico.

É o caso de Ivana Amâncio, de 41 anos, sócia de um lar para idosos em Belo Horizonte, que iria em outubro de 2020 para Orlando, nos Estados Unidos, para comemorar os 15 anos de idade de uma de suas sobrinhas, mas com a alta do dólar já busca alternativas. Ela viajaria com mais oito integrantes da família. 
No entanto, diante da demora em obter o visto para os EUA, o grupo pretende esperar até fevereiro para ver se há um recuo da moeda norte-americana, mas não descarta a opção de ir para uma praia no próprio Brasil ou realizar aqui em Belo Horizonte uma festa para a sobrinha. 

“Devemos deixar mais para frente. Agora não estamos conseguindo conciliar os preços. Se formos nessas condições, vamos passar a viagem toda fazendo contas”, diz Ivana.

“No último um mês e meio temos notado uma queda da procura por intercâmbio e muitos estudantes que já estavam interessados desistiram”, conta Suzana Dias, sócia da agência de intercâmbios Get It.

Na esteira do dólar, o euro também já pesa para quem tem viagem marcada para a Europa. Ontem, a moeda estava cotada a R$ 4,92 em Belo Horizonte. 
Cifra que pesa nos planos do engenheiro de software Thiago Porto, de 34 anos. Em fevereiro ele vai para Portugal, mesmo destino de uma viagem que fez em maio. A passagem já saiu quase R$ 2 mil mais cara, e ainda fica a preocupação com a compra da moeda. “Assusta porque aconteceu uma alta muito grande em uma levada só, e para o custo de uma viagem internacional, cada centavo desses a mais faz muita diferença”, garante.

A Associação Brasileira de Agências de Viagens de Minas Gerais (Abav/MG) garante, no entanto, que ainda não houve impacto nas empresas do setor. “Temos artifícios para poder combater esses aumentos bruscos. O dólar entre R$ 3,90 e R$ 4,25 já era esperado, não é uma catástrofe e a tendência é de estabilidade. Mas se passar disso, levará o euro a R$ 5. Complica para quem ganha em real”, afirma Alexandre Brandão, presidente da entidade, que aponta os vizinhos Argentina e Chile como possíveis destinos alternativos para escapar da variação do câmbio.

“Quem já tem o hábito de viajar para o exterior, viaja mesmo com o dólar alto. Para as agências de turismo, o problema é conseguir novos clientes”, garante Dayane Assis, funcionária de uma agência CVC em Belo Horizonte.

A gerente de Marketing da Belvitur, Andrea Panisset, garante também que as famílias não deixam de viajar, mas passam menos tempo nos locais e experimentam outros destinos. Ela destaca que 2019 bateu recorde de vendas, com aumento de 20% em relação ao ano passado. Só em novembro, a expansão chegou a 35%, o que ela atribui à estratégia agressiva de Black Friday.

A agência STB tem oferecido destinos como Canadá e Austrália como alternativas para os clientes que buscam intercâmbio nos EUA. 
“A moeda é menos valorizada nesses dois países, dá para economizar e ainda conhecer um país de primeiro mundo”, garante o gerente da loja em Belo Horizonte, Antonio Azadinho Jr, que calcula uma economia entre 20% a 25% com a troca.

Incertezas ainda pressionam moeda norte-americana

A disputa comercial e cambial entre os Estados Unidos e a China tem levado investidores a buscar o dólar, que representa menos riscos em caso de desaquecimento da economia mundial. 

“Do começo de 2019 até agora já saíram mais de R$ 40 bilhões do Brasil. A insegurança comercial leva os agentes econômicos a buscarem uma moeda conversível, no caso o dólar”, explica Marco Flávio da Cunha Resende, professor do departamento de Economia da UFMG, que também atribui a alta às recentes declarações do ministro da Economia Paulo Guedes, em Washington. 

O ministro disse que “é bom se acostumar com juros mais baixos por um bom tempo e com o câmbio mais alto por um bom tempo”. As declarações geraram incertezas em relação à moeda brasileira.

Os juros a que Guedes se referiu também são outro motivo apontado para a desvalorização da moeda brasileira. A queda na Selic (taxa básica de juros da economia), atualmente em 5% ao ano, diminui o rendimento de quem aplica o dinheiro no país. As instabilidades políticas em países vizinhos ao Brasil também impactam na ascensão do dólar.

“O estrangeiro vê a região (países vizinhos ao Brasil) de maneira mais cautelosa, aumenta a aversão ao risco dos investidores, e a menor oferta de dólares no país provoca essa alta”, diz Mauro Rochlin, economista e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). 

Internamente, Rochlin também vê como causa a demora em aprovação das reformas que o mercado vê como necessárias no Brasil. “Em um ano de governo, só foi aprovada a da Previdência, nada ainda de reforma administrativa ou tributária, e o mercado lê isso como menor condição política de realizar essas mudanças”, complementa.

Por outro lado, a alta do dólar beneficia os exportadores de produtos como a soja. Já os repasses em itens importados ou que dependam de insumos adquiridos via importação, principalmente eletrônicos, ainda devem pesar no bolso do consumidor, de acordo com Marco Flávio Cunha Resende. 

“Subiu o custo de produção, mas o empresariado está segurando o aumento porque a economia ainda está estagnada, mas assim que começar a crescer, o que deve ocorrer nos próximos meses, isso virá embutido nos preços”.

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SAIBA MAIS

Diante da incerteza que tamanha variação do câmbio gera, é preciso acompanhar a cotação e ficar atento a dicas para não ter prejuízo, principalmente na hora de comprar a moeda estrangeira. “Quem tem mais tempo, deve comprar quantias menores, de forma fracionada, para atenuar as perdas com a oscilação. Então, a partir do momento em que se decidir pela viagem, eu já começaria comprando a moeda mês a mês, para não ficar refém de uma alta brusca”, sugere Alexandre Monteiro, sócio da startup mineira MelhorCambio.com. 

Criada em 2015, a empresa mapeia a cotação de 22 moedas em mais de 1.500 casas de câmbio de 283 cidades brasileiras, plataforma útil para quem pretende ficar atento diante da oscilação da moeda. O site recebe 3 milhões de acessos por mês e fornece um serviço de alertas em caso de queda do dólar, por exemplo. Em Belo Horizonte, tanto euro quanto dólar têm uma diferença de até 4 centavos entre as casas de câmbio pesquisadas.