Quanto mais a vida fica corrida, mais o comércio se prepara para atender às demandas mais urgentes. As redes de drogarias oferecem muito mais do que medicamentos e os grandes supermercados avançam cada vez mais para dentro dos bairros, apresentando um leque ampliado de produtos. Resistir ao avanço dos gigantes é um eterno desafio para o pequeno comerciante, mas há exemplos de quem consegue manter a fidelidade da clientela frente a concorrência.

Nesta segunda reportagem da série “Heróis da resistência”, o Hoje em Dia conversou com comerciantes que se mantêm imbatíveis no mercado em áreas bastante impactadas por gigantes. É o caso da Farmácia Universal, referência no comércio do bairro Floresta, principalmente em manipulação. Fundada há 86 anos por Trajano Procópio, hoje é administrada por sua neta, Luciana. A loja fica na rua Itajubá e, num raio de apenas 100 metros, pode-se encontrar uma Droga Raia e duas novas unidades da Drogaria Araujo.

“Mantemos a tradição no atendimento diferenciado. O segredo ao trabalhar a manipulação de medicamentos é a personalização, é conhecer o público de perto e oferecer um produto diferenciado. Não posso vender as mesmas coisas que as grandes redes, pois não consigo bater o preço. Então, procuro por produtos diferenciados, como os veganos, naturais e com potencial alérgico menor”, explica Luciana.

 

 

Além de manter a tradição de um bom atendimento aprendida com o pai, Spencer, que morreu em abril deste ano, aos 95 anos, Luciana também está atenta às mudanças do mercado. Ao longo dos anos, a empresa foi se adaptando não só à demanda do público, como também à legislação da área. A loja e o laboratório foram reformados, mas sem perder o charme – um antigo armário de madeira permanece no espaço, dialogando com as prateleiras brancas.

A farmácia também tem site e perfil em redes sociais. “Mas as vendas online vêm mesmo do WhatsApp. É um grande facilitador, porque o cliente pode tirar foto da receita e conversar diretamente com a gente”, conta Luciana, acrescentando que, além dos medicamentos prescritos por médicos, a manipulação também envolve receitas feitas por nutricionistas. A história da farmácia, desde a fundação em 1933, pode ser conferida aqui

No concorrido setor de drogarias e farmácias - são 1.318 farmácias e drogarias na capital mineira, segundo a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL/BH) - , a fórmula do atendimento personalizado conquista um público em especial: aqueles que já passaram dos 60. “Muitas drogarias colocam o valor do produto lá embaixo para tentar chamar o cliente. Mas se você fizer isso constantemente, a empresa quebra, porque a lucratividade diminui muito. Então, eu procuro atrair o cliente pelo atendimento, diz Thiago  Araújo, dono da Europa Farma, uma pequena drogaria em Venda Nova. 

Segundo ele, para se destacar entre as farmácias vizinhas, é preciso se envolver no dia a dia do cliente. "Fazemos atendimento em domicílio e ações para que o cliente sempre se lembre de nós. Tem gente que vem aqui só para bater papo”.

Reduto da resistência

O bairro Floresta, na região Leste, concentra muitas das lojas representativas entre os “heróis da resistência”. Além da Farmácia Universal, é nele que estão a Sorveteria Universal, a Casa Eure, a loja Marcelo, a Casa Pérola, entre outros negócios com mais de 50 anos de história.

Um dos casos mais emblemáticos é do barbeiro Butinada, que trabalha no bairro desde 1963. “Com esse trabalho eu formei meus três filhos, um advogado, uma engenheira e um major da Polícia Militar”, conta Antônio Moreira, o barbeiro de 80 anos.

O espaço simples atrai pessoas de poder aquisitivo alto, que fazem questão de trocar uma conversa um dedo de prosa com o barbeiro. “Já cortei cabelo de muita gente importante, de jogador do Atlético, de delegado, de juiz, de promotor”, conta.

butinada barbeiro

Seu Butinada é um dos mais antigos profissionais no segmento de salão de beleza em Belo Horizonte

 

O setor de salão de beleza sempre foi competitivo, mas ficou ainda mais nos últimos anos, após a onda de abertura de barbearias - hoje tem até uma famosa rede no setor, com unidades em bairros nobres. Butinada continua recebendo os clientes fiéis, trabalhando de segunda a segunda, mas enxerga com desconfiança a expansão desse mercado. “Tem muita gente que não está pagando todos os impostos e não tem nenhum fiscal para olhar. Aí fica complicado para quem quer fazer direitinho”, afirma.

Para o presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH), Marcelo de Souza e Silva, quem se mantém no mercado há muitos anos está atento às inovações e mudanças, mesmo que mantenha a tradição na forma de vender ou prestar serviço. "O comerciante deve sempre estar atendo ao crescimento da cidade. Uma mudança de mão em uma rua pode ser decisiva. Uma padaria fica melhor instalada numa rua de chegada do bairro do que de saída, porque as pessoas compram pão quando estão indo para casa. 

Qualidade no produto

Quem vai ao supermercado pode comprar arroz, feijão, leite, legumes, frutas e os mais diferentes tipos de carnes em um único local,  que tornou-se um forte concorrente para os açougues que existem nos centros comerciais dos bairros. Mas num mercado em que a qualidade é um fator determinante para atrair os clientes, quem aposta numa boa carne não perde cliente. Entre os 1.190 açougues existentes na capital mineira, o Açougue Frigocarlos é um exemplo de longevidade – há 53 anos é uma referência no comércio do bairro Santo André.

De acordo com o proprietário, Carlili Ferreira Santos, o açougue faz entregas para clientes de diversas regiões de Belo Horizonte, da Zona Sul à Pampulha. “Tem gente que se muda de bairro, mas não deixa de comprar a carne daqui”, conta.

carlili frigocarlos

Seu Carlili afirma que o cuidado com a qualidade é fundamental para manter a clientela

 

Ele faz questão de prezar pela refrigeração da carne, para que a qualidade não se perca. “Nosso segredo é trabalhar somente com carne boa. Se você chegar ao açougue durante a tarde, não vai ver nada no expositor. Quando o calor sobe, guardamos tudo de volta no freezer. O expositor até esfria a carne, mas não a mantém numa boa temperatura”, explica.

Aos 73 anos, ele até pensa em se aposentar, mas o amor pelo comércio acaba falando mais alto. “Graças a Deus aqui não tem crise. E gosto muito do meu trabalho, de conversar aqui com um, depois conversar com outro”.

De acordo com o analista da unidade de Indústria, Comércio e Serviços do Sebrae-MG Victor Mota, para se manterem no mercado, as empresas mais antigas precisam decidir se vão conservar tradições ou se mudar o perfil para se adequarem às mudanças de mercado. O risco é  errar ao tentar imitar os outros. Caso opte-se pela modernização, é bom buscar ajuda com quem entende do assunto.

Leia mais:
Afetividade, proximidade e variedade: magazines de bairros turbinam fórmula de sucesso para crescer