Após as dificuldades que enfrentaram no início desta década – quando a economia do Brasil colecionou bons números e favoreceu até que as camadas mais humildes viajassem de avião –, as empresas de ônibus reviram conceitos e, agora, comemoram crescimento de até 16% em algumas rotas, principalmente interestaduais.

A reviravolta a favor das viagens terrestres se deve, entre outros fatores, à saída da companhia de aviação Avianca do mercado. A aérea detinha importantes rotas e, como o mercado doméstico é concentrado em poucas companhias, os preços das passagens aéreas dispararam com a saída da concorrente. Na Grande Belo Horizonte, por exemplo, a inflação do bilhete aéreo avançou 32,71% no acumulado de 12 meses, encerrado em abril passado, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O preço fica ainda maior se levado em conta a cobrança das bagagens pela companhia. A título de exemplo, uma viagem apenas de ida do aeroporto internacional de Confins para o Santos Dumont, no Rio de Janeiro, no próximo sábado, sai a R$ 773,49 em determinada companhia aérea. Com a inclusão de uma bagagem de até 23 quilos, o valor salta para R$ 848,49. Trata-se de um aumento de 9,6%.

Já a rota Belo Horizonte/Rio de Janeiro, num ônibus executivo, custa R$ 94,19 em determinada operadora. Quase 10% do preço total se a pessoa precisar se deslocar até Confins. É por causa de comparações como esta – embora seja preciso levar em conta várias particularidades, como a duração da viagem e o horário de partida – que muitos passageiros migraram para o transporte rodoviário. 

“E eles ficaram positivamente surpresos”, comemorou Letícia Peschi, conselheira da Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati).

Ela explica o porquê da surpresa: “Os passageiros não sabiam de muitos serviços (implantados nos últimos anos), como assentos exclusivo para mulheres, o que evita eventual importuno (de homens). Também alimentos a bordo, compra de passagens por aplicativos e a política de preço por ocupação de veículos: uma passagem comprada com antecedência pode sair até 60% mais barata”.

Preferência

Uma das pessoas que prefere entrar no ônibus é a artista plástica Sônia Belo, que mora em BH. Neste ano, conta ela, viajou duas vezes para Porto Seguro, litoral baiano, pela estrada: “A diferença de preços é muito grande. Dependendo, avião, só para fora do Brasil”.

As companhias terrestres agradecem a análise dela. Alexandre Brandão, que é dono de uma empresa que negocia passagens terrestres e é vice-presidente financeiro da Associação Brasileira das Agências de Viagens em Minas Gerais (Abav-MG), lamenta a disparada dos preços tanto em viagens aéreas interestaduais quanto dentro dos estados.

“A Avianca tinha muitas permissões de pousos e decolagens em rotas nobres para voos de longa duração, num total de 79. Com a saída dela, o mercado ficou menos concorrido. E há a cobrança da bagagem, que é cara”, criticou. 

O executivo sentiu na pele a diferença de preços entre os modais numa viagem para dentro do Estado. Brandão e a família, num total de cinco pessoas, precisam viajar no próximo fim de semana para um compromisso em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri. O retorno está previsto para 22 de julho, 15 dias depois.

Mas o orçamento das cinco passagens aéreas ficou em torno de R$ 5 mil. “Decidimos que vamos por terra mesmo. No ônibus leito, pagaremos aproximadamente R$ 1.250,00 para todos”, justificou o vice-presidente financeiro da Abav em Minas Gerais.

Venda de bilhetes na rodoviária de BH teve alta de 4%

Um indicativo de que o avanço no preço das passagens pelo alto favoreceu o transporte terrestre é o crescimento nos embarques em terminais rodoviários. No de Belo Horizonte, foram registrados 59.220 embarques de janeiro a maio, número quase 4% maior do que o do mesmo intervalo do exercício anterior (56.979).

Trata-se de um indicativo porque a Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge), que administra o terminal, não discrimina os embarques interestaduais dos intermunicipais.

Mas o vice-presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens no Estado (Abav-MG), Alexandre Brandão, destaca que a empresa dele apurou, em média, alta de 10% na venda de bilhetes terrestres este ano. 

“Para fora do Estado, o principal destino que negocio é o Espírito Santo. Não foi só o transporte terrestre que comemora a alta: donos de restaurantes em estradas também. Um primo meu, que é dono de um tradicional estabelecimento à margem da BR-040 (destino para Rio de Janeiro), notou aumento de 15% (no número de clientes)”, contou.

Outro indicador que mostra o crescimento do movimento nas estradas foi registrado pelo terminal rodoviário de BH no feriado de Corpus Christi, em junho, quando a expectativa de aumento foi de 9% em relação a 2018. Aproximadamente 165 mil pessoas transitaram pelo local nos seis dias considerados pela Codemge para o período do feriado, de 19 a 24 de junho. Foram mais de 3,5 mil partidas.

Voe Minas

Enquanto a rodoviária coleciona aumentos, a aviação intermunicipal teve um retrocesso recente. O programa Voe Minas, que subsidiava viagens da capital para cidades do interior, foi oficialmente encerrado esta semana.

Domingo passado foi o último dia do programa. A Codemge informou que o Voe Minas “foi descontinuado “após uma avaliação dos projetos em andamento, buscando melhorias e o adequado atendimento ao povo mineiro. A decisão pelo encerramento da iniciativa levou vários fatores em consideração na análise, entre eles a realidade financeira atual do Estado e o valor de subsídio demandado pelo projeto para sua operação – de 2016 a 2019, R$ 18 milhões”. Na prática, o governo pagava às empresas aéreas os assentos que não eram vendidos.

Das rotas extintas, apenas o município de Teófilo Otoni permanece recebendo voos por meio de operador privado, sem interrupção do serviço. “Outras definições em relação ao processo de transição de rotas do para a iniciativa privada estão em andamento”, informou a Codemge.