O conturbado cenário econômico que o país atravessa fez com que 15 milhões de lares brasileiros entrassem em crise em 2018, elevando o total de domicílios impactados pela turbulência financeira para 27 milhões. Para amenizar o estrago, mineiros estão se reinventando, transformando “bicos” em renda, caçando promoções e trocando marcas por outras mais baratas.   

O estudo 360º Consumer View, realizado anualmente pela Nielsen, empresa que estuda consumidores em mais de cem países, também mostra que, neste ano, 12 milhões de brasileiros conseguiram sair da crise.
Segundo o levantamento, desemprego, inadimplência e aperto financeiro reforçam um cenário de “looping” (movimento cíclico de famílias entrando e saindo da crise), que gera “incertezas e dificuldades de forma mais duradoura”.

A instabilidade na conta bancária também vem formando um novo perfil de consumidor, que busca alternativas para manter o padrão de consumo.
A pesquisa retrata que dentro do grupo daqueles que entraram em crise, 38% passaram a trocar marcas, 22% reduziram os gastos, 67% estão endividados no cartão e 12% recorreram ao crédito consignado.

“As pessoas têm procurado novos produtos e novas marcas para substituir os que eram consumidos antes, além das promoções. Em itens de higiene, limpeza e alimentação, o cliente consegue economizar até 50% com troca de marcas. O brasileiro também reduziu a capacidade de consumo e passou a ir ao supermercado mais direcionado, com as compras na ponta do lápis. Tudo isso resulta em economia”, diz Daniel Nogueira, especialista em Finanças da Crowe, empresa do setor de consultoria e auditoria.

Outro dado apontado no estudo é o aumento na procura da população por fontes de renda alternativas. Em 2018, a parcela que buscou uma renda extra chegou a 68%, contra 58% em 2017. Entre as principais opções para faturar um dinheiro a mais estão o trabalho como babá, motorista de aplicativos de mobilidade urbana, encarregado de passear com animais de estimação e vendedor de roupas e cosméticos.

“A busca por uma renda extra é fruto da alta taxa de desemprego e da redução da massa salarial. Os empregos formais têm tido menos reajustes nos últimos anos. Houve ainda o aumento dos empregos informais, que normalmente têm um salário mais baixo do que os trabalhadores com carteira”, diz o diretor da Nielsen Brasil, Ricardo Alvarenga.

Indústria 

Segundo o executivo, a crise e a mudança de perfil do consumidor exigem da indústria e do varejo uma adaptação à nova realidade. 
“No início da crise, o movimento das indústrias e do varejo era mais reativo, focado em descontos e promoções para manter o volume das vendas.

Mas as empresas também têm feito mudanças estruturais e de estratégia, adequando o formato de vendas, modelo de loja e portfólio aos novos desejos do cliente”, diz. O peso do consumo dos lares brasileiros é de 63,4% no Brasil. Mais da metade do que é produzido depende da demanda das famílias no país. 


‘Bicos’ e trocas de marca viram alternativa em meio à turbulência

Em meio à instabilidade gerada a partir da crise econômica, a saída para grande parte da população é buscar alternativas para complementar o orçamento familiar. É o caso da engenheira Katia Nunes que, após ficar desempregada, encontrou na revenda de lingeries uma renda essencial para suprir as despesas da casa. 

“A empresa de engenharia em que eu trabalhava fechou por causa da crise e fui obrigada a buscar uma alternativa. O mercado estava muito ruim, e eu com uma criança de colo era carta fora do baralho. Sabia que dificilmente conseguiria um trabalho. Então o que era bico virou uma renda fixa”, diz. 

O negócio prosperou e Katia afirma que, hoje, o ganho com as vendas já é igual ao salário que recebia na antiga firma, com o acréscimo de ter mais disponibilidade de tempo. 

“Consegui manter o padrão de vida conciliando as vendas com a engenharia. Posso dizer que não me falta dinheiro mais, pois consigo ter um retorno financeiro interessante com as duas funções. O comércio de lingerie já corresponde a 50% da renda da família”, afirma. 

Economia 

Além da renda extra, a população tem adotado uma postura diferente no momento das compras para tentar minimizar os efeitos do cenário econômico conturbado. 

O militar Eder Laranjeira pesquisa preços e abre mão da fidelidade para conseguir uma economia nas gôndolas. 
“Procuro produtos com o valor mais em conta, mas sem deixar cair a qualidade. Alguns supermercados oferecem a opção de produtos com a marca própria, que acabam custando mais barato”, diz.

Laranjeira também afirma que teve o poder de compra diminuído nos últimos anos. 
“Está complicado. Antes você comprava um carrinho cheio com certa quantia, mas hoje não enche meio carrinho com o mesmo valor. Estou tendo que abrir mão de várias coisas pois, caso contrário, não consigo comprar nem o básico”, lamenta. 

A auxiliar de produção Elisângela da Silva virou uma caçadora de promoções desde que a crise bateu à porta. Também não hesita em trocar uma marca mais cara por outra mais barata. 

“Como as coisas estão muito caras, passei a comprar só quando encontro promoções. E se eu posso substituir uma marca por outra, opto pelo produto mais em conta. Depois que passei a adotar essas alternativas, senti a economia no bolso. Está até sobrando um dinheirinho no final do mês”, comemora.