“Aqui, há colaboradores que trabalham de chinelo e bermuda e há quem venha de terno. Para todos eles, o horário de trabalho é flexível: a pessoa escolhe o melhor para ela. No serviço, há videogame e é possível receber serviços de manicure, cabeleireiro...”, relata, satisfeito, João Augusto Resende, co-fundador da Toro, uma fintech de investimentos com sede em Belo Horizonte.

O dia a dia na companhia ilustra bem uma pesquisa que mostra o quanto a flexibilização ganha espaço no ambiente de trabalho em Minas e no do Brasil: 27% das empresas do Estado e 38% das nacionais estão maleáveis em relação aos horários dos colaboradores. Em Minas, 16% delas têm como prática o home office (trabalho em casa). No país, 21%. Já no que diz respeito à chamada vestimenta casual, como chinelos e bermudas, 32% das firmas em Minas são flexíveis. No Brasil, 37%.

O levantamento é da Aon Brasil, empresa especializada em oferecer soluções em risco, previdência e saúde. “O mercado de trabalho está crescendo, novas gerações estão chegando e existe uma competição maior por novos talentos. É uma evolução natural”, analisou Paulo Jorge, vice-presidente executivo de Saúde e Benefícios da Aon Brasil.

O levantamento não abordou o quanto esses benefícios trazem de rendimento às companhias e aos trabalhadores, mas executivos como Resende, co-fundador da Toro, garantem que a flexibilidade é uma espécie de mola para bons resultados. “O ambiente de trabalho fica mais leve, mais integrado. Esta liberdade, que muitos enxergam como tabu, gerou mais responsabilidade. A gente deixa de controlar o micro e ganha no colaborativo. Conseguimos puxar a responsabilidade das pessoas”, explica o co-fundador da Toro.

Talentos

“Com cada vez mais diferentes perfis de profissionais em uma mesma organização, acreditamos que disponibilizar opções para o colaborador escolher aquela que melhor se adequa às suas necessidades e momento de vida será um caminho importante para a atração e retenção de talentos”, explica Rafaella Matioli, diretora de Health e Retirement Solutions da Aon Brasil.

Os dados apurados em Minas Gerais ainda não podem ser comparados com pesquisas anteriores, pois este é o primeiro recorte em nível estadual.
Contudo, na esfera nacional, houve aumento em relação ao levantamento passado, concluído em 2017.

Em alguns casos, o crescimento acumula três dígitos. A título de exemplo, o percentual de empresas que passaram a flexibilizar o horário de trabalho no Brasil subiu 192% de 2017 (13%) para 2019 (38%). Em relação às organizações que disponibilizam licença-maternidade estendida (prazo maior que o previsto em lei), o percentual cresceu 142% na mesma base de confronto: passou de 12% para 29%.


Trabalhadores podem até optar por ‘pacotes’ de vantagens

As últimas edições das pesquisas divulgadas pela Aon Brasil sugerem que o pacote de benefícios oferecidos pelas empresas a seus funcionários tende a crescer nos próximos anos. É o que os especialistas chamam de benefício flexível: categoria em que o colaborador escolhe aqueles da sua preferência dentro de um conjunto elaborado pela companhia. A margem para aumento no Brasil é muito grande, pois, atualmente, apenas 3% das empresas oferecem estes pacotes. Em Minas Gerais, esse dado não foi levantado.

Segundo especialistas, há trabalhadores que abrem mão de um salário maior em troca de benefícios que garantam qualidade de vida. Para as companhias, uma das vantagens, segundo especialistas, é a retenção de mão de obra talentosa.

“As pessoas estão buscando uma qualidade de vida melhor, mais conforto no trabalho, querem mais tempo para levar o filho na escola ou fazer uma atividade física... O salário deixa de ser primordial: os colaboradores querem algo a mais. É uma tendência crescente, um investimento na qualidade de vida”, reforça Paulo Jorge, Vice-Presidente Executivo de Saúde e Benefícios da Aon Brasil.