O surto de dengue no país vai além de um problema de saúde pública e começa a interferir na rotina das empresas, afetando a produtividade e elevando custos de empresários.

Levantamento da Gesto Saúde e Tecnologia, consultoria da área de saúde corporativa, revela que, no ano passado, 2,5% dos funcionários de grandes empresas foram afastados do trabalho em virtude da contaminação pelo Aedes aegypti, contra 1% em 2014. A doença gerou, nesses casos, ausências de cinco a sete dias.

Quando isso acontece meus custos são altos. O tratamento da doença o plano de saúde cobre, mas eu tenho que pagar dois salários: um para o funcionário afastado e outro para quem sou obrigado a colocar no lugar, normalmente um temporário”, disse o gerente do hotel Boulevard Plaza, na Savassi, Flávio Lemos. Em janeiro, a gerente de governança do hotel ficou 15 dias afastada após contrair dengue.

Em Minas Gerais, o último boletim publicado pela Secretaria de Estado de Saúde indica 37.737 casos prováveis e dois óbitos até a última terça-feira. Os dados mais recentes disponíveis no Ministério da Previdência Social apontam aumento de 109% no número de brasileiros afastados do trabalho por diagnóstico de dengue. O dado se refere ao período de janeiro a agosto de 2014 em comparação com igual intervalo de 2015.

Gastos com planos de saúde sobem até 200%

As despesas das empresas com o  plano de saúde dos funcionários podem subir até 200% em caso de dengue, segundo levantamento da Gesto Saúde e Tecnologia. Isso ocorre em empresas que fornecem aos trabalhadores planos de saúde com cobertura integral. Outros planos, como os coparticipativos, também registram aumento de custos, mas em proporções menores.

Isso ocorre porque o paciente aumenta a frequência de uso do plano, realiza um volume maior de exames e pode, em casos mais extremos, ficar internado. Geralmente, o atendimento a infectados com dengue é realizado em pronto socorro e não em consultas eletivas, o que acarreta despesas maiores também.

A sobrecarga de trabalho quando a empresa não contrata um substituto para o funcionário afastado é outro efeito da proliferação da dengue. Nas Lojas Rede da Savassi, varejo de perfumaria e produtos de beleza, segundo o gerente Cristiano Pires, são atendidas diariamente mil pessoas por uma equipe de 45 vendedores.

Dois funcionários foram afastados em janeiro após a infecção pelo Aedes aegypti, sem que outras tenham sido contratadas.

“Claro que não se pode culpar o funcionário doente, a dengue está em todo lugar agora. Mas a empresa teve que pagar pelos sete dias dos dois afastados”, afirmou. Segundo ele, a loja é frequentemente dedetizada. O empresário Pedro Moraes também sente no bolso os reflexos da proliferação do mosquito Aedes aegypti. De acordo com ele, é comum ter pelo menos um funcionário afastado por dengue em uma das suas cinco padarias todas as semanas. A solução, nestes casos, é substituir o empregado doente. “A doença é muito forte, a pessoa não tem a menor condição de trabalhar. A substituição do empregado é necessária. Mas ela custa alto”, diz.

Ele explica que cada funcionário recebe, em média, R$ 100 por dia, sem contar os encargos trabalhistas.

Para que outro empregado faça a substituição do doente, é necessário que ele trabalhe dobrado.

“Como a empresa não contratou substitutos para os dois que tiveram dengue, os outros ficaram sobrecarregados” (Cristiano Pires - gerente das Lojas Rede na Savassi)
“A pessoa com dengue não tem condições de trabalhar. Por isso, é necessário substituí-la. Os gastos, nestes casos, são inevitáveis” (Pedro Moraes - Proprietário de cinco padarias em Belo Horizonte)