O período de seca que assola o agronegócio mineiro e causa perdas nas lavouras de café em todo o Estado não tem gerado dor de cabeça para alguns cafeicultores do Sul Minas. Por meio da fertirrigação por gotejamento, esses proprietários mantêm as plantações irrigadas utilizando um volume de água até 90% menor do que o demandado pelo método tradicional.

O método consiste basicamente em dissolver os adubos minerais na água que é levada a cada pé de café por meio de um sistema de canalização. Os nutrientes são depositados apenas no solo, de forma que a maior absorção aconteça pela raiz e não pelas folhas das plantas.

O produtor da cidade de Carmo da Cachoeira e sócio da Villa Café, Paulo Duarte, utiliza a fertirrigação por gotejamento há cerca de 12 anos. Ele destaca que o método é uma alternativa muito eficaz em tempos de escassez de água.

Na produção de café arábica das fazendas Santa Helena e Dom Bosco, ambas de propriedade da Villa Café, o volume que gira entre 1.800 e 2.500 sacas permaneceu inalterado.

“O sistema tem um computador que distribui a água por lâminas que ficam em toda a lavoura. Isso acontece em períodos de tempo diferentes e, normalmente, são consumidos apenas dois milímetros de água por pé de café”, explica Duarte.

Para que não haja sobrecarga de energia no sistema, a fertirrigação é realizada das 19h às 5h. No entanto, um dos entraves para a difusão do método é o alto custo de implantação.

Investimentos

A Villa Café investiu aproximadamente R$ 1 milhão para chegar ao nível de produção atual. Hoje, a fazenda possui 150 hectares, sendo que 90 deles estão ocupados por mais de 250 mil pés de café.

“O sistema é caro. Eu tenho 210 mil metros de tubos gotejadores que custaram, há cerca de 12 anos, U$S 3,5 o metro. Isso sem falar nos custos de motores e de rede hidráulica. Hoje, acredito que no máximo cinco propriedades no Sul de Minas contem com a fertirrigação”, comenta Duarte.

A colheita de café no Sul de Minas deve ser 20% menor em 2015, na comparação com o ano anterior segundo projeções da Cooperativa de Cafeicultores da Zona de Três Pontas (Cocatrel). As perdas são consequência da seca de 2014, que já impacta nas colheitas que se iniciam em maio.

Com a seca, consumidor pagará até 31,75% mais pelo café

Um dos maiores impactos da seca no mercado do café é a tendência de elevação dos preços do produto. Por ser um dos itens de maior representatividade na agricultura mineira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) projeta elevação de 31,75% nas cotações reais do produto para 2015, uma vez que a expectativa é de recuo de 14,85%.

Segundo levantamentos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), as cotações do café arábica registraram alta no mercado brasileiro em outubro, impulsionadas pelo aumento nos preços externos da variedade. Os valores internacionais, por sua vez, foram influenciados por incertezas sobre o volume da safra 2015-2016 brasileira devido à estiagem.

O analista de mercado Eduardo Carvalhaes explica que, com a soma de todos esses fatores, não há chance de que a oferta de café em 2015 supere as médias de 2014. Portanto, os preços para o consumidor final não devem diminuir.

“O consumo mundial de café cresce a uma média de 2% ao ano, segundo levantamentos da Organização Internacional do Café. Além disso, os estoques na Europa e Estados Unidos, que são os maiores mercados consumidores, vão durar no máximo mais dois meses. A conclusão é que, mesmo que chova nos próximos três meses, somente a safra de 2016 poderá trazer reflexos no preço final”, avalia.