Reflexo do processo de retomada da economia após a fase mais crítica da pandemia da Covid-19, associado ao crescimento abrupto e progressivo da demanda, nos últimos meses, a falta de embalagens e insumos consumidos por diversos setores produtivos já ameaça o Natal dos brasileiros. 

Em Minas Gerais, tanto a própria indústria como outros segmentos que dependem das embalagens – o que inclui de grandes a pequenos empreendedores, como os que vendem bolos, doces e outros produtos – já sofrem com a escassez e vêm a produção ameaçada e com custo elevado. O preço de embalagens plásticas, de papel e de vidro chegou a subir 45% desde março e alguns produtos já são raridade no mercado. 

Para especialistas, a alta é mesmo consequência direta da crise econômica causada pela pandemia do novo coronavírus, algo que, inicialmente, traduziu-se na desarticulação de cadeias produtivas e na subida do câmbio e, após alguns meses de estagnação, caracterizou-se pela elevação significativa de encomendas de tais itens, sem a devida preparação por parte das indústrias do setor. 

Além disso, vale lembrar que as embalagens são, em boa parte dos casos, feitas de plástico e de papel, insumos taxados em dólar, o que contribuiu para a disparada dos preços. No final, a conta arrebenta na outra ponta da corda: os consumidores. 

“Já estamos vendo aumento de preços, principalmente nos gêneros alimentícios. Com o crescimento da demanda ainda mais acentuado para o período natalino, esse fenômeno pode se agravar”, destaca o economista Eduardo Coutinho, do Ibmec.

A disparada dos custos atinge em cheio também os pequenos empreendedores. A jornalista e empresária Nalu Saad abriu, há quatro anos, uma loja especializada em bolos. Com a chegada da pandemia, o movimento via delivery cresceu e hoje representa 30% do total das vendas. 

Com a mudança de cenário, ela passou a ter necessidade ainda maior de embalagens, principalmente as plásticas. E, com a alta nos preços, infelizmente, teve de repassar custos. “A embalagem para mim faz parte da apresentação do produto, não há como dispensar, em especial no delivery”, afirma Nalu, que, inclusive, já começou a buscar outras soluções para diminuir esse ônus, como o uso mais frequente de sacolas de papel para acondicionar os doces.

Quem depende de embalagens de vidro também está sofrendo. Dona de uma empresa que fabrica doces e produtos típicos de Minas para venda em empórios, a chef de cozinha Danielle Couto produz 500 potes por semana e vem enfrentando dificuldades na hora de comprar caixas de papelão e vasilhames. 

Sem opções no mercado nos tradicionais fornecedores, Couto já avisou à clientela que não conseguirá atender a demanda de fim do ano. “Infelizmente, minha produção continua só enquanto durarem os estoques de potes de vidro e caixas para transporte. Já tive até de deixar produzir alguns itens para priorizar a demanda por itens ligados ao Natal”, lamenta.

 

Fábricas reconhecem gargalo e dizem não poder fazer ‘mágica’
 

Sondagem feita pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que indústrias de segmentos variados estão com enormes dificuldades para atender os clientes. Pelos dados da CNI, o percentual dos que apontam tal problema subiu de 44%, em outubro, para 54%, este mês. 

O levantamento mostra ainda que, dos 27 setores analisados, pelos menos 19 deles têm metade das empresas nessa situação. Para o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, a dificuldade na obtenção dos insumos é o maior gargalo para a produção. 

“Ainda existe a dificuldade de se conseguir insumos nacionais, pelos baixos estoques. Esse problema está desorganizando as cadeias de produção, repercutindo em toda indústria”, afirma Andrade.

Ainda segundo a pesquisa da CNI, praticamente todos os empresários consultados acreditam que a questão do abastecimento só será normalizada em 2021. Considerando os empresários da indústria de transformação, para quase metade dos entrevistados (47%), a normalização ocorrerá no 1º trimestre de 2021. 
Outros 30% acreditam que o desabastecimento chega até o 2º trimestre de 2021 e 16%, na segunda metade de 2021 ou além. Apenas 4% acreditam que ainda em 2020 o problema será equacionado.

A alta do dólar fez mesmo com que disparassem os preços dos insumos – a maioria importados – que são usados para produzir vidro e plástico. 
Com o câmbio nas alturas, importar não resolve o problema e os fornecedores acabam optando por exportar os insumos, do que atender o mercado interno. 
No caso do plástico, os insumos necessários para a produção aumentaram em média 45% desde março. “Não tem como fazer mágica. Temos hoje dificuldade para comprar o insumo e, quando conseguimos, ele está mais caro. Infelizmente, é impossível não aumentar os preços”, destaca a empresária Ivana Serpa Braga, presidente do Sindicato da Indústria do Material Plástico do Estado de Minas Gerais (Simplast-MG).

Além disso, a disparada na demanda fez com que as fábricas priorizassem cumprir contratos já firmados, diminuindo a oferta aos pequenos distribuidores e produtores. Para o presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Vidro (Abividro), Lucien Belmonte, o problema não está na capacidade produtiva, mas na demanda do mercado. “Infelizmente temos que honrar que já tem contrato firmado, eles acabam de certa forma sendo beneficiados neste momento. Quem tá na outra ponta, quem não tem contrato, acaba sofrendo mais nesta hora”, afirma Belmonte.