Enquanto o governo federal não decide se irá reeditar alguma forma de auxilio financeiro para as famílias mais pobres, em meio ao recrudescimento da pandemia, milhares de mineiros temem entrar em situação ainda mais crítica do que a vivida em 2020. Segundo o IBGE, até novembro, praticamente quatro a cada 10 lares em Minas tinham ao menos um integrante recebendo algum tipo de auxílio oferecido pela União. Hoje, essas pessoas estão a ver navios.

Até a noite de ontem (10), embora não houvesse definição sobre a reedição do “coronavoucher”, circulava em Brasília a certeza de que um eventual novo auxílio seria inferior ao de 2020.

O ministro da economia, Paulo Guedes, chegou, inclusive, a cogitar que o valor ficasse em, no máximo, R$ 300. A preocupação, contudo, seguia a mesma do final do ano passado: de onde tirar recursos para tal ajuda, que, em 2020, somou mais de R$ 320 bilhões? 

Vale lembrar que, ao longo dos primeiros nove meses da pandemia, os valores dos benefícios foram caindo. Em maio, por exemplo, a média do auxílio chegava a R$ 812 por domicílio. Em novembro, o repasse caiu para R$ 586.

Para a economista Mafalda Ruivo Valente, das Faculdades Promove, com o desemprego em alta – aproximadamente 12,2% dos mineiros (1,27 milhão de pessoas) estavam sem trabalho, no final do ano passado –, a renovação do auxílio seria, sem dúvida, uma saída. "É uma medida que chegaria para salvar a comida no prato das pessoas”, diz.

Contas públicas

A criação do novo auxílio pode, contudo, trazer grande impacto financeiro. O IBGE estima que o endividamento do Estado brasileiro já esteja próximo dos 100% do PIB. Sem espaço e ambiente po[/TEXTO]lítico para a criação de novos impostos, a saída do governo poderia ser ultrapassar o teto de gastos, emitindo papéis e títulos públicos (ou seja, dívidas) que seriam vendidos no mercado para pagar a conta. Ou, ainda, transferir orçamento de outras áreas. 

Expectativa inicial, em 2020, era de a ajuda federal seria usada para alimentação, mas o que se viu foi um aumento na venda de eletrodomésticos e materiais de construção, por exemplo

Para o economista Felipe Leroy, a reedição causaria, basicamente, dois problemas: um rombo maior nas contas públicas e uma “ilusão monetária” nos beneficiados. “O auxílio precisa ser renovado, mas, em si, é maléfico, porque aumenta o déficit do governo e dá sensação a quem o recebe de que pode gastar de qualquer maneira”, explica.

Falta de planejamento agravou cenário atual 

A incerteza sobre a reedição do auxílio emergencial causa apreensão à diarista Kelly Pedrosa, de 37 anos. Moradora de Betim, na Grande BH, ela afirma que tem passado dificuldades para manter as contas em dia e comprar comida desde que o benefício parou de ser depositado, no final de 2020. 

Com a pandemia se alongando, as faxinas praticamente sumiram – até ontem, Kelly havia feito duas em fevereiro e levou para casa R$ 250,00. Com o dinheiro, comprou uma cesta básica e “misturas” – como frango e ovos. “Só não estou passando fome porque recebo o auxílio da igreja onde congrego”.

No ano passado, com o auxílio, a diarista usou parte dos recursos para adquirir uma geladeira e uma máquina de lavar novas. “O certo teria sido planejar-se para o alongamento da crise”, diz o economista Felipe Leroy. 

Para ele, o que houve com Kelly, infelizmente, repetiu-se entre muitas famílias de baixa renda: sem ter educação financeira, vivem, agora, aperto ainda maior do que o esperado. 

Leia também:
Estado anuncia reforço da fiscalização para evitar carnaval às escondidas
Lenovo e Ducati se unem para desenvolver tecnologias para motos e computadores
Quinta-feira em BH pode ter temperatura de até 30ºC e pancadas de chuva; veja a previsão