O Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu manter a taxa básica de juros (Selic) inalterada. De acordo com o comunicado publicado após o fim da reunião, o BC (Banco Central) indica que a Selic permanecerá no patamar de 14,25% nas próximas reuniões.

"Tomados em conjunto, o cenário básico e o atual balanço de riscos indicam não haver espaço para flexibilização da política monetária." A decisão foi unânime.

Essa foi a primeira reunião sob o comando de Ilan Golfajn e da nova diretoria do Banco Central. 

A decisão anunciada nesta quarta-feira (20) já era esperada pela maior parte do mercado financeiro, mas pressões do lado político contribuíram para que alguns analistas avaliassem a possibilidade de um corte. A expectativa maior era pelo comunicado da decisão.

Os juros estão em 14,25% ao ano desde julho do ano passado. A próxima reunião do Copom está marcada para os dias 30 e 31 de agosto, mas a previsão do mercado é de um corte de juros apenas na reunião de 18 e 19 de outubro. 

Na próxima terça-feira (26), o BC divulga a ata da reunião desta quarta-feira. A instituição informou que vai alterar o formato do documento. A proposta é deixar a comunicação mais simples e direta.

O BC indicou uma série de riscos econômicos para justificar a manutenção da taxa básica de juros em 14,25%.

A inflação acima do esperado no curto prazo, decorrente, principalmente, de preços de alimentos, pode se mostrar persistente; as incertezas quanto à aprovação e implementação dos ajustes necessários na economia permanecem; e um período prolongado com inflação alta e com expectativas acima da meta pode reforçar mecanismos inerciais e retardar o processo de queda da inflação.

Por outro lado, o BC informa que os ajustes na economia podem ser implementados de forma mais célere, permitindo ganhos de confiança e reduzindo as expectativas de inflação; e o nível de ociosidade na economia pode produzir desinflação mais rápida do que a refletida nas projeções do Copom.

SEM INGERÊNCIA

Pouco antes do início da reunião desta quarta (20), preocupado em afastar a imagem de que seu governo estaria pressionando por uma queda dos juros, o presidente interino, Michel Temer (PMDB-SP), disse que o "Banco Central tem plena autonomia para definir a taxa de juros".

Por meio de assessores, Temer afirmou ainda que "a política monetária tem como prioridade o combate a inflação e este é o objetivo central do meu governo".

Nos últimos dias, o próprio presidente interino vinha manifestando, em entrevistas, seu desejo de que a taxa de juros fosse reduzida. Ele chegou, inclusive, a dizer que havia pedido à equipe econômica avaliar a possibilidade de uma redução dos juros.

Nesta quarta-feira, o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) também falou sobre o assunto. Durante entrevista no Palácio do Planalto, ao ser questionado sobre a reunião do Copom de hoje [quarta], ele afirmou: "O presidente interino vê com muito bons olhos [a redução de juros], mas a palavra final neste caso é do Banco Central".

Durante o governo Dilma, a presidente afastada pressionava o Banco Central a reduzir a taxa de juros, o que comprometeu a credibilidade da instituição e contribuiu para prejudicar o combate à inflação. O mercado, no período da petista, avaliava que o BC não tinha autonomia necessária para praticar sua política monetária.

Temer assumiu com o compromisso de fortalecer sua equipe econômica. Seus comentários sobre a taxa de juros, manifestando seu desejo de corte na taxa Selic, não chegaram a gerar turbulências no mercado, como ocorria no governo da petista.

Nesta quarta, porém, o próprio presidente interino avaliou que os comentários do seu governo sobre o assunto poderiam prejudicar os trabalhos do BC e decidiu divulgar que o banco tem "plena autonomia para definir a taxa de juros".


Leia abaixo a íntegra do comunicado divulgado pelo Copom.

"O Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 14,25% a.a., sem viés.

O cenário básico com que o Comitê trabalha pode ser resumido pelas seguintes observações:

O conjunto dos indicadores divulgados desde a última reunião do Copom mostra perspectiva de estabilização da atividade econômica no curto prazo. Entretanto, as evidências sugerem que a economia segue operando com alto nível de ociosidade

No âmbito externo, o cenário permanece desafiador. No curto prazo, o ambiente encontra-se relativamente benigno para as economias emergentes. No entanto, a dinâmica da recuperação da economia global permanece frágil, com incertezas quanto ao seu crescimento

As expectativas de inflação apuradas pela pesquisa Focus para 2017 recuaram, mas seguem acima da meta para a inflação, de 4,5%; e

As projeções condicionais do Copom para a inflação permaneceram relativamente estáveis nos horizontes relevantes para a condução da política monetária desde sua última reunião, mas recuaram em relação às projeções divulgadas no último Relatório de Inflação. No cenário de referência, a projeção para a inflação de 2017 encontra-se em torno da meta de 4,5%. No entanto, no cenário de mercado, a projeção para 2017 está em torno de 5,3%.

O Comitê identifica os seguintes riscos domésticos para o cenário básico para a inflação:

Por um lado, (i) a inflação acima do esperado no curto prazo, em boa medida decorrente de preços de alimentos, pode se mostrar persistente; (ii) incertezas quanto à aprovação e implementação dos ajustes necessários na economia permanecem; e (iii) um período prolongado com inflação alta e com expectativas acima da meta pode reforçar mecanismos inerciais e retardar o processo de desinflação

Por outro lado, (iv) os ajustes na economia podem ser implementados de forma mais célere, permitindo ganhos de confiança e reduzindo as expectativas de inflação; e (v) o nível de ociosidade na economia pode produzir desinflação mais rápida do que a refletida nas projeções do Copom.

Tomados em conjunto, o cenário básico e o atual balanço de riscos indicam não haver espaço para flexibilização da política monetária.

Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Ilan Goldfajn (Presidente), Anthero de Moraes Meirelles, Carlos Viana de Carvalho, Isaac Sidney Menezes Ferreira, Luiz Edson Feltrim, Otávio Ribeiro Damaso, Reinaldo Le Grazie, Sidnei Corrêa Marques e Tiago Couto Berriel."


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