A diversificação da agropecuária de Minas Gerais – que além do café e do leite é forte em dezenas de outros produtos – garante ao Estado um lugar de destaque na economia nacional e, portanto, deve ser fortemente valorizada, conforme o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Roberto Simões, que conversou com exclusividade com o Hoje em Dia. Na avaliação de Roberto Simões, que durante a entrevista analisou os setores da cana-de-açúcar, do café e do leite, a fábrica de amônia que será erguida em Uberaba, no Triângulo Mineiro, com capacidade de produzir 519 toneladas por ano, será extremamente vantajosa para a agricultura brasileira, que, atualmente, depende de importações. Ressalva, no entanto, que o Brasil precisa investir muito mais na produção não só de amônia, mas de fosfato e potássio, pois os fertilizantes são um dos principais gargalos da produção agrícola nacional.

A produção agropecuária de 2013 foi melhor do que a de 2012?

O ano de 2012 foi um ano muito forte para Minas Gerais. No período, o Estado bateu recorde de Valor Bruto da Produção (VBP), o segundo melhor desempenho do país, atrás apenas de São Paulo. A diversificação da agropecuária mineira é um dos responsáveis por puxar para cima os resultados. Em 2013, o bom desempenho se manteve. Tivemos excelente produção de grãos, com safras altíssimas, principalmente quando consideramos soja, milho e feijão.


A pecuária também apresentou bom desempenho?

O cenário foi muito positivo para as carnes, com forte crescimento das exportações. Os preços na pecuária de corte chamaram a atenção. Suíno e frango também se destacaram, com comportamento muito bom. Mas o destaque do ano foi o leite.

Por quê?

O ano foi extraordinário para o leite, que atingiu preços historicamente altos. Foi o melhor ano dos últimos tempos para o setor. Nunca tivemos preços nominais tão altos aos produtores devido à escassez do produto no mercado internacional.

E agora?

Agora, com o começo do período chuvoso, a produção leiteira aumenta em consequência da melhora do pasto e do tratamento do gado. Há, portanto, uma retomada do setor com aumento da produção e da oferta. Em função disso, o Brasil atravessa um período de redução dos preços.

Para 2014 os preços menores prevalecem?

Não, não prevalecem. Todos os dados disponíveis indicam que esta queda não permanecerá. O mercado continuará forte em função da falta de produto no mundo, fator que mantém a competitividade do leite brasileiro.

Com novos recordes?

Os recordes provavelmente não serão batidos novamente, mas é possível realizar uma pecuária leiteira de qualidade tendo em vista que houve uma certa redução no custo da produção devido a uma leve queda nos preços do milho e da soja, que já não são tão altos como eram no passado.

O Valor Bruto da Produção (VBP) agrícola mineira deve ficar em R$ 25,7 bilhões em 2013, queda de 11,5% na comparação com o ano anterior, que fechou em R$ 29 bilhões. O que puxou os números para baixo?

O café tem sido o vilão da agricultura não só mineira, como nacional. A cultura do café arábica, que é um café de qualidade, tem atingido preços muitos baixos, batendo de frente com o alto custo da mão de obra utilizada na colheita. Temos uma crise de preço, que é uma crise praticamente internacional.

No Brasil, qual é o principal motivo desta crise?

A entrada dos cafés asiáticos em grande quantidade, a baixa qualidade deste café e os preços baixos praticados pelos estrangeiros complicam o mercado mundial, puxando os preços para baixo. Estamos tentando medidas para aliviar essa crise. O governo federal já fez alguma coisa, mas falta ainda muito a ser feito. Seguiremos defendendo uma política mais adequada para esse setor.

Qual é a solução ideal?

Depois de passada essa crise, serão necessárias ações de longo prazo, elaboradas sob uma visão macroeconômica, mais estudadas. Precisamos pensar à frente, inclusive com práticas não tão habituais.

O senhor pode citar algum exemplo de prática não habitual que pode ser a “salvação da lavoura”?

Precisamos estudar a eliminação de uma pequena parte de cafés improdutivos ou de baixa qualidade que estão influenciando negativamente o mercado interno. O objetivo é conseguirmos um salto na qualidade do produto e um pouco de redução de oferta de má qualidade. Também é necessário focar mais em cafés gourmet, demarcação de origem e certificação. Enfim, em tudo aquilo que leve a uma melhor qualidade para que se tenha pelo menos parte da produção vendida a preços melhores. Mas isso deve ser estruturado com calma, para que o produtor não se assuste. É um projeto de longo prazo, mas que, certamente, trará bons resultados.

Produtores que têm café estocado à espera de uma melhora do setor devem vender as sacas agora ou podem aguardar mais?

Quando chega o momento em que o produtor precisa fazer dinheiro para honrar os compromissos, pagar as compras, não há como esperar mais. O produtor que se encontrar nessa situação terá que, inevitavelmente, vender as sacas, independentemente de o preço estar bom ou ruim. Já tem muita gente perdendo dinheiro e, se o mercado continuar assim, mais gente irá perder. Afinal, o preço ainda é insuficiente.

O setor da cana-de-açúcar também tem apresentado dificuldades. O que tem acontecido?

O setor da cana-de-açúcar atravessa um problema severo. Minas chegou a ser o segundo maior produtor nacional, mas hoje compete com Goiás, oscilando entre a segunda e a terceira posições. O setor carece de considerações maiores. O Pró-álcool (Programa Nacional do Álcool, projetado para substituir em larga escala os combustíveis veiculares derivados de petróleo pelo derivado da cana-de-açúcar) fica sufocado pela política de contenções de preços da gasolina adotada pelo governo Federal. Como consequência, o álcool não se viabiliza economicamente, o que é absolutamente lamentável, pois o Brasil tem tudo para produzir um combustível economicamente correto, de fonte renovável, mas não tem tido sucesso apesar de ter desenvolvido toda a tecnologia de carros flex. O álcool tem a produção ameaçada.

Quais são as conse-quências dessa ameaça?

Assistimos nos últimos dois ou três anos ao fechamento de aproximadamente 40 plantas industriais de álcool e açúcar, sem contar a desistência de vários investidores do setor no Brasil. Temos que lembrar, ainda, que o açúcar é um produto que depende de concorrência externa. O produto teve preços excelentes há até pouco tempo, mas agora, com a recuperação da Índia e do restante da Ásia, a nossa competitividade cai um pouco, pois caem os preços. Então, o setor vive uma certa dificuldade no âmbito geral.

No Brasil, o crédito é um aliado do produtor?

O crédito em si talvez seja um dos menores problemas do setor, pois há liquidez do mercado. Há, no entanto, muitos produtores que por terem registrado algum problema anterior, ou por terem pedido a reformulação do seu fluxo de pagamento, não conseguem o empréstimo, o que é absurdo. Quando o produtor tinha algum problema na produção causando dificuldade de pagamento de algum financiamento, ele chamava um técnico, que emitia um laudo. Antigamente, a situação era comum e a renegociação da dívida para que o produtor pudesse refazer o caixa acontecia de forma natural.

E hoje?

Hoje, tudo mudou. Qualquer movimento no sentido de renegociar uma dívida é visto com maus olhos pelos bancos, que reclassificam as pessoas como “classe E”. Ou seja, o empréstimo é classificado como de alto risco. Então, apesar de o produtor precisar, o banco não empresta.

E como o produtor consegue o financiamento necessário?

Da pior forma possível. Ele procura outras fontes, inclusive os agiotas. Afinal, o produtor não pode deixar de produzir e, muitas vezes, de ampliar a produção. E, neste caso, a chance de insucesso no empréstimo é enorme, pois as taxas de outras fontes de empréstimos são imensas. Dinheiro tem muito, mas o banco nem sempre empresta.

A lagarta Helicoverpa armigera pode ser considerada uma epidemia fitosanitária em Minas Gerais?

A Helicoverpa é um problema que precisa ser solucionado antes que ela tome uma dimensão incontrolável, porque é uma praga de uma virulência extraordinária. Institutos como IMA, Embrapa e o governo devem encarar o problema e atuar com as medidas necessárias, inclusive autorizando a entrada de produtos químicos que não são permitidos usualmente no Brasil. Em uma emergência, é preciso liberar esses produtos rapidamente, para que não tenhamos uma praga dos tipos das pragas bíblicas que “ouvíamos” no Egito Antigo.

É possível estimar os prejuízos?

Ainda não tenho conhecimento de cálculos, mas já há notícias de incidência da lagarta em várias regiões distintas de Minas Gerais. Uma força-tarefa para instruir o produtor deve ser instaurada para um combate integrado da praga.

O dólar em torno de US$ 2,30 é bom para o setor?

Para a agricultura, essa relativa valorização do real em relação ao dólar é benéfica, pois permite melhores ganhos na exportação. Por outro lado, causa problemas para quem precisa importar muito. Como a balança comercial da agricultura mineira é baseada nas exportações, o câmbio é bom para nós. Produzimos muito e importamos relativamente pouco para essa produção. A importação fica limitada a fertilizantes e defensivos.

A Petrobras pretende construir, em Uberaba, no Triângulo Mineiro, uma fábrica de fertilizantes capaz de produzir 519 toneladas por ano. A previsão é a de que a fábrica comece a operar entre 2015 e 2016. Essa planta vai minimizar a dependência da agricultura brasileira da importação de fertilizantes?

Muito. A construção da fábrica é fundamental para o setor agrícola brasileiro, é fundamental para nós. Aliás, o Brasil precisava investir muito mais na produção de fertilizantes, não só amônia, mas fosfato e potássio, pois os fertilizantes são um dos principais gargalos da produção agrícola.