Mestre em Zootecnia, doutor em Estatística e Experimentação Agronômica e pesquisador da Embrapa há 33 anos, Rui Verneque assumiu a presidência da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) com orçamento menor do que no ano passado e muita experiência na bagagem. Otimista, ele pleiteia junto ao governo do Estado um aporte para engordar o caixa. Para o futuro, a previsão do novo presidente, que tem a calma e a simplicidade do homem do campo, é lançar um programa para melhoria da cachaça mineira, demanda dos produtores do setor.

Qual o orçamento da Epamig para este ano?
O orçamento total, envolvendo recursos do governo estadual e de captação, estão em torno de R$ 82 milhões.

E no ano passado?
No ano passado, o orçamento era 10% maior. Reduziu 10% em 2015.

Quais os planos para o futuro?
Nós estamos planejando a implementação de mais um programa de pesquisa, baseado na cachaça. Minas é o Estado de destaque na produção de cachaça de qualidade, artesanal, e nós vemos muitas demandas nesse setor. Queremos, portanto, passar para dez programas de pesquisa. Hoje são nove, envolvendo animal e vegetal.

Qual seria o objetivo desse programa?
Para se der ideia, apesar da importância de Minas no cenário de produção de cachaça, não existe um dado claro sobre qual a melhor cana para produzir uma cachaça de qualidade, qual a melhor fermentação, a questão para uma composição, resíduos indesejáveis. Temos uma demanda da associação dos produtores e a pesquisa precisa atender.

E é possível implantar mais um programa com o orçamento reduzido?
Não. Sem aumentar o orçamento, não será possível. A proposta do programa prevê que o Estado vai melhorar o aporte de recursos para a empresa.

E como a captação dos recursos seria feita?
O orçamento da Epamig tem sido insuficiente para aquilo que ela tem realizado. Nos últimos três anos, a empresa acumulou um déficit orçamentário de R$ 7 milhões. Mesmo que fosse aprovado o orçamento do ano anterior, 10% maior, a Epamig estaria em déficit. Por isso, estamos negociando com o governo estadual, apresentamos toda essa situação.

A falta de recursos traz outros problemas?
Em decorrência da falta de recursos, a estrutura de pesquisa é muito prejudicada. Na hora de negociarmos a contrapartida com órgãos de fomento para um financiamento, por exemplo, disputamos com várias outras empresas. E todas as fontes financiadoras de pesquisa admitem que a empresa tenha sua contrapartida. Ou financeira, ou de pessoal, ou de infraestrutura. É fundamental que a Epamig tenha infraestrutura pronta para que o pesquisador execute a proposta que ele aprovou.

Quanto seria necessário para lançar o programa da Cachaça e adequar a estrutura de pesquisas da Epamig?
Pelo menos R$ 24 milhões por ano a mais, para colocarmos a empresa numa situação comparável às principais instituições de pesquisa do Brasil. Para 2015, nós solicitamos ao governo um aporte de R$ 10 milhões além do orçamento, que já daria um ânimo para não apresentar o déficit de anos anteriores e também fazer melhorias das estruturas fundamentais para a empresa funcionar. Seria uma suplementação orçamentária e financeira.

A estrutura está precária?
Sim, muito. Nossa frota de veículos, por exemplo, está sucateada. O problema é que essas deficiências são resultado do que foi acumulado por anos.

Sobre melhoria genética, qual a posição do Brasil no que diz respeito a pesquisas?
Na pecuária zebuína, lembrando que o Zebu se adapta melhor às nossas condições de clima e de manejo, o Brasil evoluiu de forma exponencial. Hoje, nós temos programas de pesquisa e melhoramento para as raças zebuínas extremamente estruturados. Não só o zebuíno, que inclui o Nelore, Guzerá, Gir Leiteiro, como o próprio Girolando, que é o cruzamento do Gir com o Holandês. Hoje nós temos a melhor genética de Girolando e zebuíno do mundo.

E o mundo reconhece essa superação?
Muito. Tanto é que nós somos visitados por representantes de diversos países justamente para levar essa genética para o resto do mundo. Estamos muito bem nesses programas de melhoramento.

Mas ainda há dificuldade clara na exportação. Por quê?
Na realidade, existem vários fatores impeditivos. O maior complicador de exportação genética para outros países seria a legislação sanitária, que cada país tem a sua específica. É um fator que, às vezes, limita muito, embora o Brasil esteja muito bem nessas questões sanitárias. Temos todo um sistema de controle das principais doenças muito bem estruturado e fiscalizado pelo Sistema Estadual de Vigilância Sanitária. Mas existem exigências que dificultam nas legislações dos outros países.