Cresce no país o interesse pelo consumo de carnes de animais silvestres originários de criadouros autorizados pelo Instituto Brasileiro de Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Paca, cutia, queixada e capivara, dentre outros bichos criados em cativeiro, têm despertado o apetite de apreciadores de carnes exóticas.
 
O aumento do consumo é incentivado, principalmente, pelo maior criador, abatedor e dono do restaurante Cerrado Carnes, em São Paulo, o porto-riquenho Gonzalo Barquero, estabelecido em Cutia. Ele compra animais originários de criadouros mineiros. Um dos seus fornecedores é Cristóvão Coelho de Souza, proprietário da fazenda Inhapim do Brejo, na região de Baldim. Em Belo Horizonte, o restaurante Tavares, no Vale do Sereno, oferece vários tipos de carnes de animais silvestres. 
 
Enquanto o consumo aumenta, o número de criadouros estagnou, segundo Eduardo Junqueira, do Núcleo de Fauna do Ibama, em Minas Gerais. “Há uma grande demanda reprimida, mas os interessados devem aguardar a publicação da "Lista PET", com as espécies permitidas”, disse. 
 
É que desde 2008 o Ibama suspendeu as autorizações para criadouros e, recentemente, repassou essa atribuição para os Estados. No âmbito mineiro, agora a responsabilidade é da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e do Instituto Estadual de Florestas (IEF).
 
Por mais que cresça o consumo de carne de animais silvestres, a procura ainda está muito longe de alcançar o das carnes bovina, suína e de frango, simplesmente porque os preços das carnes exóticas são proibitivos para grande parcela dos eventuais consumidores. 
 
A carne considerada a mais nobre, a de paca, custa até R$ 250 o quilo no abatedouro paulista de Barquero que, sozinho, abastece praticamente todo o país. Ele comercializa uma tonelada e meia de carnes exóticas por mês.
 
Autorização
 
As exigências são várias para o interessado conseguir autorização para criar e comercializar animais silvestres. Apesar de todo o critério e os cuidados observados pelo Ibama, não é 100% garantido que as carnes exóticas sejam de fato de criadouros autorizados, já que o instituto não é onipresente ao ponto de fiscalizar, com a necessária frequência, os criadouros.
 
No caso da fazenda Inhapim do Brejo, o proprietário precisou impetrar ação na Justiça para obrigar o Ibama a ir ao local a fim de fazer a vistoria e dar a autorização. A visita se deu há 8 anos, e ninguém do Ibama apareceu mais por lá. O proprietário envia relatórios mensais ao órgão fiscalizador.
 
O criadouro da fazenda Inhapim do Brejo funciona dentro das recomendações, sob a responsabilidade técnica do zootecnista Fábio Hosken, especialista em animais silvestres. Ele já instalou cerca de 15 criadouros em Minas e também fora do Estado.
 
Autorizações, agora, são expedidas pelo IEF
 
Sônia Cordebelle, gerente de Proteção à Fauna e Flora do IEF, teve muito trabalho nesta semana ao receber do Ibama a transferência das atribuições sobre animais silvestres. Segundo ela, abatedouros e frigoríficos são permitidos desde que os animais tenham origem de criadouro autorizado ou de estabelecimento comercial de fauna silvestre credenciado.
 
É permitido também criadouro comercial de pessoa física ou jurídica com a finalidade de reproduzir e manter espécimes da fauna silvestre em cativeiro para fins de alienação de espécimes, partes, produtos e subprodutos desde que procedentes de criadouros comerciais autorizados.
 
Excepcionalmente, os animais apreendidos em ações de fiscalização poderão ser entregues “a mantenedores, criadouros científicos para fins de conservação, quando não for possível reintroduzir na natureza”. Para isso, cada caso é examinado antes e expedido um laudo sobre a aptidão do animal.
 
Cordebelle esclarece que não é permitido manter em cativeiro ou comercializar espécimes da fauna silvestre sem autorização do órgão ambiental competente. Agora, Semad/IEF.
 
Ambientalistas são contra consumo de carnes de animais silvestres
 
O consumo de carnes vermelhas mexe com Adriana Cristina Araújo, do Movimento Mineiro pelos Direitos dos Animais. Contra o consumo de todo tipo de carne vermelha, mais ainda quando originárias de animais silvestres, ela entende que a demanda por esse tipo de carne é baixa porque são “raros os abatedouros e frigoríficos registrados. Entretanto, cremos que haja abates clandestinos e domésticos das formas mais cruéis”.
 
Os poucos criadores, segundo Adriana, “defendem a prática como preservação das espécies. Entretanto, esse é um argumento antropocêntrico, focado somente no benefício humano, já que, certamente, nenhuma espécie de animal não humano desejaria viver destinado a ser abatido”.
 
Resistência
 
Eulália Jordá, do Movimento Mineiro de Defesa dos Animais, se diz contra o comércio de animais silvestres. Na opinião dela, “há os que se sentem bem apreendendo e abatendo os animais para comer a carne e dizem que não conseguem mudar os hábitos”. Ela se coloca entre “os abolicionistas”, vistos como radicais, e que por isso encontram todo tipo de dificuldades pela frente”. “Vivemos numa sociedade que apreende, tortura e abate os animais”, disse.
 
Franklin Oliveira, do Núcleo Fauna de Defesa Animal, classifica como “uma dicotomia” o consumo de carne de animais silvestres. 
 
“Enquanto a lei proíbe o abate de animais na natureza, o Ibama aprova abatedouros, um estímulo ao mercado clandestino”, disse. Ele e outros tentam reverter essa resolução partida do Conselho Nacional de Meio Ambiente.