Com a torneira da Caixa secando, bancos privados esperam aumentar a fatia de crédito imobiliário no país. Apesar da escassez de dinheiro disponível na poupança, uma das principais fontes de recursos para a compra financiada do imóvel, instituições querem aproveitar as barreiras impostas pela principal concorrente – como redução do percentual máximo de financiamento para 50% do valor total do bem - para servir como caminho alternativo para a realização do sonho da casa própria.

A exemplo da Caixa, que elevou a taxas de juros de 9,15% para 9,45%, quase todos os bancos reajustaram as tabelas para cima. Em contrapartida, mantiveram o limite para financiamento de imóveis usados entre 70% e 80%, o que facilita a aquisição das chaves.

“Historicamente, por regra, a média de valores de entrada gira entre 25% e 30%. Por isso, quando a Caixa anuncia que só financia a metade do imóvel, ela afasta os potenciais clientes. Quem tem R$ 200 mil para dar de entrada, por exemplo, dificilmente quer comprar um imóvel de R$ 400 mil. Provavelmente esse consumidor sonha com um apartamento mais caro, em torno de R$ 600 mil. E é aí que os outros bancos surgem como opção”, diz a advogada e MBA em Economia da Construção e Financiamento Imobiliário, Daniele Akamines.

Além de exigir do bolso uma entrada menor, os bancos privados já não cobram juros tão mais altos do que os aplicados pela Caixa, como acontecia antigamente, o que ajuda a tornar o negócio atrativo.

“Hoje, a diferença está em torno de um ponto percentual. As taxas dos privados estão mais competitivas, assim como as condições”, afirma o presidente da Câmara de Direito Imobiliário da Ordem dos Advogados do Brasil em Minas Gerais (OAB-MG), Kênio de Souza Pereira.

Fatia menor

O advogado lembra que no início do ano 2000, a Caixa era dona de 85% da carteira de crédito imobiliário no país. Atualmente, a fatia é de 70%, mas a tendência, com o cenário de sangria na caderneta de poupança e normas mais rígidas impostas pelo banco, é a de que o pedaço fique mais enxuto.

“O volume de consultas aos bancos privados já aumentou e deve crescer ainda mais. Com a Caixa não atuando na sua plenitude, em muitos casos eles acabam virando a única opção”, diz o consultor e ex-presidente da Câmara do Mercado Imobiliário e Sindicato das Empresas do Mercado Imobiliário de Minas Gerais (CMI/Secovi-MG), Ariano Cavalcanti.

O diretor executivo de Estudos e Pesquisas Econômicas da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel Ribeiro de Oliveira, faz as contas na ponta do lápis (veja infográfico).

Redução do teto

Em tese, a Caixa ainda aparece como a opção mais barata para quem deseja financiar um apartamento ou casa com preço de até R$ 750 mil. Mas com o aumento do grau de dificuldade, e a redução do teto de financiamento de 80% para 50% para a compra de imóveis usados, haverá uma corrida por operações em outras instituições bancárias.

“E ainda temos que torcer para que as taxas permaneçam inalteradas por um tempo. Com o aumento da demanda, é possível que haja uma elevação generalizada dos juros posteriormente”, adverte o diretor da Anefac.

Casa própria vira filão para bancos privados

Algumas instituições financeiras já aumentaram a carteira do crédito imobiliário em quase 50% neste ano

Enquanto a Caixa deve reduzir em 20% o crédito imobiliário, a maioria das instituições esconde o jogo, sob alegação de que não pode fornecer guidance – conjunto de comentários que uma empresa faz a respeito das perspectivas para as atividades. Mas fontes do mercado garantem que a intenção é explorar o filão, pelo menos enquanto houver dinheiro disponível.

“A carteira dos bancos privados está aberta. O Santander diminuiu o teto de financiamento para 70% do valor do imóvel e o Itaú reduziu o limite para 75%, mas todos estão emprestando e querem emprestar mais”, diz a advogada e especialista em financiamento imobiliário, Daniele Akamines.

Segundo ela, apesar dos saques crescentes na poupança, as instituições bancárias têm como obrigação aplicar 65% dos recursos da caderneta em financiamento imobiliário e saneamento. “Há espaço para crescer, tanto que o Banco do Brasil, que é de capital misto, aumentou a carteira de crédito imobiliário em quase 50% em março, na comparação com igual mês do ano passado. Já o Bradesco afirmou que pretende ampliar em 20% os empréstimos na modalidade”, ressalta.

Expansão

Em março deste ano, a carteira de crédito imobiliário do BB chegou a R$ 41 bilhões, crescimento de 49% na comparação com março de 2014. O banco informou que, além da poupança, utiliza outros meios de captação de recursos, como por exemplo as Letras de Crédito Imobiliário (LCI). Em nota, entretanto, disse que não fala sobre perspectivas.

Já o Bradesco declarou que espera que a carteira de crédito para a casa própria cresça perto dos 20% em 2015. “Temos bom funding poupança e um crescimento adequado para suportar o crescimento no imobiliário. Não mexemos nas condições. Financiamos até 80% do valor do imóvel em um prazo de até 30 anos. Procuramos ter taxas competitivas para atrair clientes”, justificou o diretor executivo do Bradesco, Luiz Carlos Angelotti, em comunicado.

Advogado e franqueado da imobiliária RE/MAX no Vila da Serra, Fabrício Machado diz que uma parceria com o banco Itaú o ajudou a conquistar, em abril, o terceiro lugar em contratação de financiamento imobiliário entre todas as franqueadas do país. “Os bancos privados, que já eram competitivos para imóveis voltados para a classe média alta, estão se fortalecendo como uma via alternativa”, diz o empresário, que vende casas e apartamentos entre R$ 500 mil e R$ 5 milhões.

Cautela

Antes de correr à primeira agência bancária e assinar contrato, porém, especialistas recomendam cautela e muita pesquisa. “Além das taxas de juros, o consumidor deve se informar sobre o Custo Efetivo Total (CET) e demais encargos, como seguro de vida e seguro do imóvel, que são obrigatórios. O banco deve oferecer pelo menos duas alternativas de seguradoras e se ainda assim o cliente não ficar satisfeito, ele pode fazer o seguro por fora”, aconselha o presidente da Associação Brasileira de Mutuários da Habitação (ABMH), Lúcio Delfino.