A politização da pandemia da Covid-19 não é novidade no país. Desde março de 2020, quando surgiram os primeiros casos, disputas entre governantes e parlamentares adeptos da ciência, que preconizam o isolamento social e o uso intensivo de máscaras, e outros, defensores da economia - que cobram flexibilidade cada vez maior no funcionamento de atividades como comércio e serviços -, mesmo diante de números crescentes da doença, têm sido constantes em todas as esferas de poder.

Agora, com a chegada mais intensa de doses de vacinas contra o novo coronavírus, e relativa aceleração no processo de imunização da população, tais batalhas sobre o tema, que deveriam ser trocadas pela convergência de diferentes forças políticas, parecem, ao contrário, se acirrar. Algo que ocorre, nitidamente, por influência da proximidade das eleições de 2022.

“O calendário eleitoral está na agenda dos políticos. Não é á toa que temos CPIs no Senado, debatendo questões como tratamento precoce e compras de vacina, e também na Assembleia do Estado (sobre os fura-fila) e na Câmara Municipal de BH (sobre compra de imunizantes pela cidade)”, diz o cientista político e professor do Ibmec, Adriano Cerqueira.

“E nessa questão da distribuição de vacinas, a briga vai ser entre quem quer aparecer como herói na história e tentar jogar para o outro lado a ideia de que não fez nada. Tudo isso para sustentar nomes que já foram colocados para 2022”, acrescenta ele, lembrando os casos do governador Romeu Zema (Novo), que deve disputar a reeleição, e do prefeito Alexandre Kalil (PSD), que já declarou-se pré-candidato ao comando do Estado.

Embate 

Em BH, um embate mesmo que indireto entre Zema e Kalil, tendo como pano de fundo as vacinas, já foi travado nesta semana. Na terça-feira (15), poucas horas após o secretário estadual de Saúde, Fábio Baccheretti, ter anunciado a intenção do Executivo de vacinar todos os mineiros adultos até outubro, o chefe da mesma pasta, só que municipal, Jackson Machado, apontou motivações política para a distribuição, pelo governo estadual, de menos imunizantes que o esperado para a capital. 

Mesmo sem mencionar responsáveis, Machado declarou não restar “a menor dúvida de que isso (a cidade aguardava 70 mil doses do Estado, mas obteve menos de 20 mil) foi por uso político da vacina”. “É algo que me deixa indignado: o fato de usarem a vacina e a pandemia como motivo de política”, afirmou. 

Questionada sobre o assunto, a Secretaria de Estado de Saúde garantiu que usou critérios técnicos na distribuição, uma vez que, em remessas anteriores, a capital recebera proporcionalmente mais doses para pessoas com comorbidades do que outras cidades.

Leia também:

Para especialista, situação econômica deve pesar mais que avaliação da condução da pandemia, em 2022