A crise deixou a quitação dos impostos à vista uma tarefa ainda mais difícil para o contribuinte. Com a corrosão da renda, só 26% dos donos de carros, motos e caminhões em Minas conseguiram pagar, em cota única, o Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA). A fatia é bem menor do que a do ano passado, quando 30% quitaram a taxa de uma só vez. Em 2012, entretanto, quando a turbulência não havia atingido o país, 32% liquidaram a fatura total. Os dados são da Secretaria de Estado da Fazenda (SEF).

Outro tributo típico de início de ano, o Imposto sobre Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU), cujo reajuste superou a casa dos 10%, também pesou no bolso. E ficou mais complicado quitá-lo à vista, mesmo com o desconto oferecido de 7%. Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, dos 670,1 mil imóveis contribuintes de IPTU e/ou taxas da capital, somente 43,8% pagaram a guia integralmente. No ano passado, por exemplo, 46% haviam efetuado o pagamento de forma integral. Ou seja, oito mil belo-horizontinos mudaram o comportamento de um ano para outro, postergando um pouco mais o desembolso.

Para o economista da Boa Vista SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito), Flávio Calife, o conselho dos especialistas financeiros de começar o ano com todas as contas em dia ficou mais difícil de ser seguido em 2016 devido à alta dos preços, do crescimento do desemprego e do crédito caro e escasso.

“As despesas de janeiro, como impostos e rematrícula escolar, estão pesando mais neste ano por causa do cenário econômico desfavorável. Com a piora no orçamento e menos recursos à disposição, é natural que menos gente tenha condições de quitar os tributos à vista”, diz.

As guias para pagamento do IPTU estão disponíveis na internet desde o dia 31 de dezembro do ano passado e foram entregues nas casas dos contribuintes em janeiro deste ano. Quem quitou o imposto ou antecipou duas ou mais parcelas, até 20 de janeiro, obteve desconto de 7%. Já o pagamento parcelado começa em 15 de fevereiro e vai até 15 de dezembro.

Com a crise, menos contribuintes quitaram IPVA e IPTU à vista em 2016
SEM DESCONTO – Jerson Antunes foi afetado pelo escalonamento de salários e optou por parcelar o IPVA (Foto: Flávio Tavares/Hoje em Dia)

Estado espera arrecadação 14% maior com o IPVA neste ano

Os impostos são esperança para incrementar as finanças públicas, especialmente em período de vacas magras. Segundo a PBH, a previsão é que a arrecadação com o IPTU chegue a R$ 1,5 bilhão. Já o governo estadual espera engordar o caixa em R$ 4,5 bilhões com o pagamento do IPVA, uma alta de 14% sobre 2015. De acordo com o último balanço, R$ 1,8 bilhão foram arrecadados, 44% do total previsto.

Tradicionalmente, o médico Jerson Soares Antunes Junior sempre pagou os impostos típicos do começo do ano de uma tacada só. Para isso, reservava uma parte do 13º salário e conseguia começar o ano com as contas pagas e o orçamento no azul. Neste ano, a história será diferente.

“O preço de tudo subiu assustadoramente. Além disso, tive que pagar matrícula do meu filho na faculdade e, como servidor público estadual, acabei tendo o salário parcelado. Então foi efeito cascata”, diz ele, que vai quitar os R$ 1.600 de IPVA do Citroën Picasso em três vezes.

Para o consultor financeiro Paulo Vieira, geralmente, o brasileiro saía de dezembro com a renda extra do 13º salário ou até de um emprego temporário. “Agora o desemprego subiu, as vagas temporárias secaram e as perspectivas não são boas. A saída quase natural é parcelar os impostos, mesmo perdendo o desconto”, diz.

Dono de um Gol, o perito Wagner Lopes ainda não quitou nem a primeira parcela do IPVA. “As contas acumularam. Vou tentar pagar neste mês”, afirma.

Com a crise, menos contribuintes quitaram IPVA e IPTU à vista em 2016