A forte alta do dólar ante o real ainda não trouxe o impacto esperado para a balança comercial e deve ter um efeito limitado. O avanço da moeda americana tem sido atenuado pela queda de preço das commodities no mercado internacional e pelo aumento de custo - como a de energia -, que afeta a produção brasileira.

Os números da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex) mostram que, enquanto o câmbio nominal subiu 7% em fevereiro ante janeiro, o valor total das exportações em dólares recuou 12%. O resultado dessa combinação fica evidente na queda das exportações: nos dois primeiros meses, o Brasil exportou US$ 25,796 bilhões, uma redução ante os US$ 31,960 bilhões do ano passado.

A piora no quadro se deve sobretudo aos produtos básicos. Esse grupo responde por 42% da pauta brasileira, mas a venda para o exterior em valores diminuiu 17% neste ano. "Por mais que o câmbio tenha se desvalorizado, não é possível ver o efeito (na balança) porque a queda das commodities está intensa", diz Daiane dos Santos, economista da Funcex. A previsão da entidade é de um superávit de US$ 3,5 bilhões.

A queda nos preços dos produtos básicos tem ocorrido ao longo dos últimos meses e foi intensificada com a desaceleração da economia chinesa, grande importadora de commodities do Brasil. Nessa semana, o governo chinês estimou o crescimento econômico de 7% para 2015 - um resultado bem abaixo do verificado nos últimos anos.

Entre as principais quedas de produtos básicos exportados pelo Brasil, se destacam o minério de ferro (redução de 43,2% em valores) e da soja em grão (tombo de 70,7%).

Um outro fator que tem derrubado os preços dos básicos é a sinalização de aumento de juros pelo Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos). "Quando os juros americanos sobem - e essa tendência está definida desde o ano passado -, eles derrubam os preços das commodities", afirma Fabio Silveira, diretor de Pesquisa da consultoria GO Associados.

A queda no preço das commodities também deve trazer um impacto indireto para a exportação brasileira de manufaturados. A indústria do Brasil tem como principais mercados os países da América Latina, também grande exportadores de produtos básicos. Com a queda do preço, esses países devem ter menor entrada de recursos e, consequentemente, vão comprar menos das empresas brasileiras. A exportação de manufaturados já recuou 13,1% neste ano.

A alta do dólar - sempre tão almejada pela indústria - também ocorre num momento em as empresas brasileiras estão diante de uma série de aumento de custos - como o da energia -, o que dificulta o ganho de competitividade. "Há uma série de aumentos, então o custo de produzir no Brasil também está subindo", afirma José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).