A perda do poder de compra das famílias, motivada pela alta inflação e baixa confiança dos consumidores, foi o principal responsável pela queda de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre de 2015 frente ao quarto trimestre de 2014.

Na avaliação de especialistas, o resultado aponta tendência de recessão econômica uma vez que o impacto sobre a renda da população deve inibir o consumo por, pelo menos, mais três trimestres.

Um reflexo direto dessa retração foi registrado no setor de serviços, que é responsável por mais da metade do PIB do país e encolheu 0,7% no mesmo período de comparação. Frente ao primeiro trimestre de 2014, a redução foi de 1,2%, puxada pelos comércios atacadista e varejista, que caíram expressivos 6,0%.

Na avaliação do professor de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/IBS), Mauro Rochlin, a combinação da falta de renda e diminuição do crédito traça um cenário preocupante para a economia em 2015.

“De um lado, os bancos privados estão muito cautelosos e restritivos. De outro, o nível de emprego parou de crescer nos últimos meses. Isso certamente vai continuar empurrando o PIB para baixo. Outro ponto importante é o investimento que não será feito pelo setor privado enquanto o governo não deixar claro que o cenário é propício ao crescimento”.

Na indústria, a queda de 0,3% no trimestre também refletiu desconfiança do consumidor nos setores automotivo e de equipamentos. “O PIB industrial deve continuar em queda. Até o fim do ano, a produção física deve cair 2,6% em Minas Gerais”, projeta a economista da Fiemg, Annelise Fonseca.

Setor agropecuário teve expansão de 4,7%, puxado pela soja, mandioca e fumo

 

retração de economia

Ângela Maria adquiria com R$ 500 dois carrinhos cheios de produtos de supermercados

 

A única melhoria registrada no primeiro trimestre de 2015 foi a do setor agropecuário, que cresceu 4,7% em relação ao trimestre anterior. As safras de soja, arroz, mandioca e fumo foram as grandes responsáveis pelo resultado positivo.

“Somente a produção de milho teve queda de produção de 3,1% em função do período de seca que atingiu as plantações durante 2014. De forma geral, a diminuição no consumo das famílias não deve impactar o setor agropecuário. As pessoas podem fazer substituições, mas elas não podem deixar de consumir alimentos”, avalia a coordenadora da assessoria técnica da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Aline Veloso.

No entanto, para especialistas do mercado financeiro os dados positivos não apontam melhoria do quadro econômico. O sócio da L2 Capital Partners, Marcelo López, explica que a expectativa para o trimestre era de queda de 0,5% no PIB. Para ele, a piora nos próximos meses é praticamente certa.

“Existem amortecedores nesses números e ainda não sentimos o peso das demissões do primeiro trimestre, graças ao seguro-desemprego e negociações com as empresas. Além disso, estamos observando mais demissões nesse segundo trimestre, o que trará impacto negativo em setores de imóveis e varejo. Os efeitos das altas dos juros e aumento de impostos também começarão a ser sentidos”.

Retração de 1,5% no consumo das famílias é a menor em 7 anos, segundo o IBGE

A queda expressiva observada no consumo das famílias (1,5% no primeiro trimestre de 2015) só foi menor do que a registrada no quarto trimestre de 2008, em plena crise econômica mundial, quando o segmento havia caído 2,1%.

Nos supermercados de Belo Horizonte, consumidores já adotam estratégias para compensar as perdas, substituindo produtos por itens de menor valor ou até mesmo retirando da lista de compras.

A cuidadora de idosos Ângela Maria Gonçalves Dias explica que o volume de produtos que consegue comprar com o mesmo valor foi reduzido pela metade em menos de seis meses.

“Minha compra mensal custava aproximadamente R$ 500,00, e passava dois carrinhos na fila. Hoje, gasto o mesmo valor com apenas um carrinho. Tudo que compro agora, tento fazer render mais. Além disso, parcelo todas as compras, mas vejo que isso não ajuda muito”, diz.

O aposentando José Roberto Soares também precisa se esforçar para manter as compras em dia. “Recebo cesta básica, o que já ajuda bastante. Com o aumento dos produtos, compro somente o necessário. No momento, o óleo de soja é o mais caro, então só adquiro o que encontro em promoção”, comenta.

Tendência

O delegado do Conselho Federal de Economia (Cofecon), Róridan Penido Duarte, explica que com a redução da renda disponível, o reflexo prático no dia a dia do consumidor já era previsto. Segundo ele, a oscilação no consumo é um fator crucial para o desempenho econômico do país.

“Quando tivemos uma taxa de crescimento elevado na última década, ela também foi puxada pelo consumo. Mas olhando para o futuro, está claro que teremos novos trimestres de queda, porque não há sinais de retomada do investimento”, avalia.

Para a economista do IBGE, Juliana Dias, uma das apostas de retomada do crescimento são as exportações. “Em outras situações de crise, como nos anos 1980, já vimos as exportações contribuindo para a recuperação econômica. Agora, com o câmbio elevado, as exportações já cresceram 3,2% no trimestre e podem, novamente, alavancar o país”, afirma.

 

retração de 1,5% no consumo das famílias é a maior em 7 anos segundo IBGE

José Roberto afima que agora só compra o necessário