A valorização do dólar frente ao real é de quase 50% desde janeiro, tendo ganhado força, a partir do meio do ano, com impacto severo no caixa das companhias brasileiras de capital aberto com endividamento em dólar. Apenas de junho a setembro, a dívida de 98 empresas brasileiras abertas aumentou R$ 47,1 bilhões, um salto de 28%. De dezembro de 2014 até setembro deste ano o passivo em moeda estrangeira dessas companhias cresceu 75,5%, saindo de R$ 122,5 bilhões para R$ 215,1 bilhões.

Os dados são da provedora de informações financeiras Economática. Os próximos balanços financeiros das companhias brasileiras de capital aberto vão explicitar quem ficou vulnerável às flutuações cambiais. Até o momento, os balanços das empresas contabilizam apenas a variação até junho, antes da aceleração do derretimento do real, que ganhou força no mês seguinte. Em novembro, as companhias de capital aberto divulgarão seus resultados referentes ao terceiro trimestre.

O levantamento da Economática apontou que de dezembro de 2014 a junho deste ano o endividamento em dólar de 98 companhias abertas no Brasil saltou 37,1%, chegando a R$ 168 bilhões. Atualizado, de junho até setembro, o estudo indica o aumento desse passivo para R$ 215,1 bilhões, uma variação positiva de mais 28% do mês seis ao mês nove.

O esforço de gestão da dívida exigido com a escalada do dólar deve ser redobrado com as perspectivas de manutenção da volatilidade do câmbio. A contração de novos financiamentos ou emissão de debêntures para rolar as dívidas vão esbarrar em taxas de juros mais elevadas, mas ainda são alternativas. A receita indicada é o corte de despesas e o aumento de geração de caixa.

A situação impacta as mineiras negociadas na bolsa. A Usiminas possui 44% do total de sua dívida em dólar, tendo que honrar com compromissos em moeda estrangeira no curto e longo prazos diante de um cenário de retração nas vendas internas.

Para o coordenador do curso de Administração da faculdade Ibmec, Eduardo Coutinho, aquelas companhias que não fizeram hedge completo de suas dívidas terão que cortar custos e recorrer ao mercado financeiro. “Primeiro é atacar as despesas operacionais variáveis, como as administrativas, de escritório”, disse.

A Cemig tem contratos indexados em dólar para compra de energia de Itaipu Binacional. No segundo trimestre foi de mais de 100% o aumento desse custo, influenciado também pelo preço mais caro da energia. Já a Copasa emitiu debêntures para ganhar fôlego e alongar dívidas que venceriam no curto prazo. São quase 10% da dívida em moeda estrangeira.

“Na hipótese se terem se endividado com o dólar barato e sem hedge, a situação é muito complicada. Vão ter que trocar uma dívida por outra maior para esticar os prazos de pagamento, com juros bem altos”, disse Paulo Ângelo de Carvalho, presidente do Instituto Mineiro do Mercado de Capitais (IMMC).

Usiminas tem 44% do passivo atrelado à moeda estrangeira

O aumento das obrigações em moeda estrangeira simultâneo à redução de receitas é o que deixou a Usiminas em posição desconfortável. Nada menos que 44% das dívidas da companhia, que somam R$ 7,6 bilhões, são em dólar. Os compromissos que vencem neste ano chegam a R$ 310 milhões e, em 2016, serão mais R$ 585 milhões. Em 2018, R$ 1,7 bilhão terá que ser pago. Os valores estão atualizados até junho e sofrerão correção no próximo balanço, a ser publicado em novembro, com dados até setembro.

A empresa iniciou o ano com dívida em moeda estrangeira de R$ 2,436 bilhões, representativos de 36% do total. Esse valor já saltou R$ 891 milhões até junho, quando o dólar ainda estava cotado R$ 3,10, distante dos R$ 4, em torno do qual gira atualmente.

Esse impacto dos quase 30% de valorização do dólar frente ao real será contabilizado no balanço da companhia referente ao terceiro trimestre, ainda a ser divulgado. De dezembro de 2014 a junho deste ano, a relação Dívida Líquida/Ebitda (geração de caixa) da empresa saltou de 2,1 vezes para 3,7 vezes.

A Usiminas informou que cerca de um terço de sua dívida em moeda estrangeira está protegida com operações de hedge. E que complementam a proteção o caixa investido em dólar e as exportações. De acordo com o balanço da empresa, embora as vendas totais da companhia tenham sido estáveis no segundo trimestre deste ano sobre o trimestre anterior, o volume de aço exportado aumentou 181%. O mercado externo, que representava 12% da receita líquida no primeiro trimestre, no segundo respondeu por 24%.

Copasa

O endividamento em dólar da Copasa, embora relativamente pequeno, se soma a uma preocupante dívida total da companhia, que recorreu à emissão de debêntures para ganhar fôlego nos compromissos de curto prazo. Debênture é um título de dívida que paga juros que remuneram seu titular.

A Copasa alterou seu estatuto social, que antes permitia que a dívida líquida atingisse, no máximo, três vezes a sua geração de caixa, medida pelo Ebitda (Lucros Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização). Com a alteração, abriu-se a possibilidade para que a dívida chegue a quatro vezes.

Essa mudança permitiu a entrada de recursos que serão parcialmente destinados ao financiamento de um Programa de Desligamento Voluntário (PDV). Especialistas apontam risco de atraso no pagamento aos fornecedores caso se estenda o cenário adverso de queda de receitas e aumento das dívidas, em parte gerado pelo prolongado período de seca.

O levantamento da Economática com 98 empresas exclui a Petrobras. A dívida da estatal de junho a setembro passou de R$ 344,6 bilhões para R$ 441,3 bilhões, aumento de 28%.

O Hedge é uma operação financeira para se proteger de variações cambiais. Uma empresa compra dólares ou faz investimento indexado ao dólar no mesmo valor de sua dívida na moeda estrangeira. Assim, anula o risco das oscilações cambiais uma vez que terá um ativo em dólar no mesmo valor de sua dívida.