No última dia 11, em Itabira, a proprietária do hotel Solar Imperial, Andrea Andrade Pereira Társia, pendurou a placa de aluga-se na porta do imóvel no qual há três anos ela investiu cerca de R$ 300 mil.

No mesmo dia, seu marido já estava no município vizinho João Monlevade tratando da “papelada” para encerrar as atividades do hotel. Dois dias antes ele havia colocado de aviso prévio a última funcionária do Solar, Rosângela Aparecida de Oliveira, camareira há dois anos, e que agora vive a incerteza de como manter seu sustento e dos dois filhos, um menino de 16 anos e uma menina, de quatro. “Vou acabar fazendo faxina em casa de família”, lamenta.

O caso do Solar Imperial é apenas a “ponta do iceberg” da realidade que vive Itabira, berço da maior mineradora de ferro do mundo, a Vale – que em tempos de bonança é apelidada pelos moradores de “mãe de Itabira”, mas que em períodos de arrocho vira a madrasta carrasca.

A crise no minério de ferro está basicamente ligada a dois fatores que são complementares. A redução da demanda chinesa pela commodity, que acarreta forte queda no preço da tonelada. Saiu de US$ 128 no início de 2014 para oscilar em torno de US$ 50 atualmente. A Vale, no primeiro trimestre deste ano, contabilizou prejuízo líquido de R$ 9,5 bilhões.

A reportagem percorreu as ruas Água Santa e Tiradentes, região tradicional do comércio local, e contou 15 lojas com as portas fechadas. “A situação é muito ruim. A Vale demite, a prefeitura demite e não paga os fornecedores. Os trabalhadores das terceirizadas da Vale que perderam emprego batem na porta do comércio, mas a situação é de enxugamento. Não há perspectiva de melhora, e outras lojas vão fechar”, prevê o presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Itabira, Maurício Henrique Martins.

O comércio emprega em Itabira 15 mil pessoas, e está em processo de adequação à nova realidade. Um dos fatores que pesam no fechamento de lojas, além da redução das vendas, é o alto preço do aluguel, que na avenida principal da cidade, a João Pinheiro, pode chegar a R$ 15 mil por um ponto comercial. Na rua Água Santa e Tiradentes ele varia de R$ 2,5 mil a R$ 4,8 mil segundo comerciantes locais.

A palavra “dependência” foi dita por todos os entrevistados quando questionados sobre a relação Itabira-Vale. A decisão da empresa de reduzir investimentos e cortar despesas gera um efeito cascata na economia local. Quando a Vale reduz seu nível de atividade e demite trabalhadores, as prestadoras de serviços das mineradoras passam ter contratos menores ou ficam sem contrato, e, como consequência, demitem. Com o menor dinamismo econômico, a prefeitura arrecada menos, e também demite.

Ajustes nas contas públicas incluem demissões em massa

O prefeito de Itabira, Damon Lázaro de Sena (PV-MG) estima que a arrecadação da prefeitura este ano será R$ 185 milhões inferior à do ano passado. A redução é de 42% frente aos R$ 440 milhões de 2014. O ajuste necessário nas contas públicas inclui demissão em massa.

Apesar de o prefeito não quantificar o corte de pessoal, empresários da cidade disseram à reportagem que ele já anunciou o desligamento, em curso, de entre 900 e mil trabalhadores. São, ao todo, 5 mil funcionários no Executivo.

O presidente da CDL-Itabira, Maurício Henrique Martins, por exemplo, informou que o Executivo deixou de pagar seus fornecedores e que as demissões já atingiram setores como saúde e educação. “A previsão é a de que as empresas terceirizadas da Vale dispensem até dezembro mais 3 mil trabalhadores. Somando mais mil demissões na prefeitura, a situação da cidade é lamentável, e ainda vai piorar”, prevê.

A Vale também não quantifica as demissões, mas admite que está concluindo um projeto de US$ 2,6 bilhões em Itabira para beneficiamento de minérios de baixo teor. “A redução do ritmo das obras, já em fase final, está ocasionando a desmobilização de equipes das empreiteiras contratadas, processo natural, previsto desde a contratação dessas empresas, que está resultando em desligamentos de terceirizados na região”, disse a Vale, em nota.

O prefeito diz que o montante financeiro menor que entra nos cofres públicos municipais, relativos principalmente a ICMS e royalties do minério, aliado ao esvaziamento da cidade com o retorno de terceirizados a suas cidade de origem, agravam o cenário. “Da população de Itabira de 116 mil pessoas, 10% é flutuante, composta por trabalhadores de empresas terceirizadas. A saída deles desvaloriza imóveis, aumenta o estoque de imóveis para aluguel, e enfraquece o comércio. A prefeitura, com menos dinheiro em caixa, precisa se ajustar também, mas fazemos isso com critério”, disse.

O presidente do Sindicato Metabase de Itabira, Paulo Soares, disse que a Vale renegociou contratos com as terceirizadas e que o processo de enxugamento do número de trabalhadores tende a se acentuar, com novas demissões já agendadas no sindicato.


Dependência de ferro e aço castiga cidades de Minas