Para o corretor de imóveis Matheus Sena, dono de um Ford Ka, o fim da produção não incomoda. “É um ótimo carro. Certamente trocaria por outro. O único problema que vejo é que, quando for vender, ele terá maior depreciação. O problema é que modelos abaixo dos R$ 50 mil desapareceram”, aponta Sena, que trocou Belo Horizonte pelo Rio de Janeiro, e sempre precisa cruzar a BR-040. 

E Sena tem razão. No ano passado, o então presidente da Nissan, Marco Silva, disse que a fabricação de compactos se tornou inviável, devido à baixa rentabilidade. No final do 2020, o presidente da VW, Pablo di Si, ratificou a afirmativa do colega, ao afirmar que marca focaria em SUV e picapes, devido a maior rentabilidade.

Sem sinal

Já para a dona de casa Rosângela Faria, o fim das operações da LG significa ter que trocar de marca no futuro. Recentemente a dona de casa trocou seu antigo aparelho por um smartphone da sul-coreana. 

“É um telefone bom, a tela é grande, o que facilita a leitura. Eu comprei depois de ter dado um igual para minha irmã. Agora vou ter que cuidar bem, pois esse foi o mais em conta que eu encontrei e não sei se poderei comprar um mais caro”, conta a dona de casa, que usa o aparelho para conversar com a família via WhatsApp e conferir o noticiário pelo Google.

De fato a preocupação de dona Rosângela faz sentido. A LG tinha boa penetração numa faixa de aparelhos entre R$ 700 e R$ 1 mil. São telefones que oferecem câmeras com satisfatória qualidade de imagem, assim como hardware que permitem utilizar aplicativos mais exigentes que os tradicionais apps de redes sociais.

No entanto, segundo um executivo da indústria de celulares, o cenário é um pouco diferente do que acontec–e no mercado de automóveis. “O varejo de smartphones é segmentado, assim como o de automóveis. Há o modelos básicos que partem de R$ 500, assim como celulares bem rudimentares abaixo desse valor. No entanto, é um mercado em que o consumidor sempre busca um aparelho melhor. A troca gira em média a cada 18 meses, num compasso diferente do automóvel, e sempre se busca um modelo mais sofisticado, mesmo que não seja o topo de linha, mas que seguramente oferece mais recursos e até mais barato que o antigo”, analisa o executivo que pediu para não ter a identidade revelada, e que explica que o grande volume de vendas gira numa faixa entre R$ 1.500 e R$ 2 mil.

Ou seja, o problema da LG não é exatamente a falta de compradores. Na verdade, foi a incapacidade de acompanhar a concorrência. Nos sites especializados, os aparelhos da marca nunca mais são indicados em categorias mais sofisticadas, apenas na linha de entrada, como opção de baixo custo. 

Games

Outro setor que viu os produtos Made in Brazil sumir do mapa é o setor de videogames. Se nos anos 1980 e 1990, Polyvox, CCE, Gradiente e TecToy abasteciam o mercado, desde o ano passado Sony e Microsoft deixaram de fabricar os consoles por aqui. A japonesa que fabricou as últimas três gerações do PlayStation, decidiu encerrar suas operações em março. 

A partir de agora, só venderá serviços. E quem quiser comprar um PS4 ou PS5 terá que comprar unidades importadas por varejistas ou buscar lá fora por conta própria, assim como era querer ter um Super Nintendo em 1992.

Ou seja, talvez seja a hora reativar o contato com aquela antiga sacoleira do seu bairro e aquele mecânico das antigas, porque nesse jogo, não dá para pegar o morto.

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