Há seis anos, o jornalista Eduardo Gomes e o companheiro alugam um apartamento de 96 metros quadrados no bairro Santo Antônio, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Nesse período, eles aplicaram boa parte de suas rendas para comprar um imóvel no bairro. Porém, perceberam que, apesar da poupança sistemática, o montante se afastava cada vez mais do necessário para realizar o sonho.
 
O motivo é a valorização dos imóveis nas regiões nobres da cidade, que corre a passos muito mais velozes do que o avanço da renda média real dos 10% ocupados mais ricos da população. “Nosso trabalho e nossa família estão na Região Sul. Preferimos pagar um pouco a mais para ter mais qualidade de vida”, afirma.
 
Atualmente, um apartamento de três quartos em um bairro de alto padrão em Belo Horizonte custa em média R$ 850 mil, segundo pesquisa realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Ipead). Há dez anos, um mesmo imóvel saía por R$ 192 mil, quase cinco vezes menos.
 
A renda do público-alvo deste produto, os ocupados 10% mais ricos da população, no entanto, não acompanhou a elevação. Em maio de 2005, o rendimento real, já descontada a inflação, era de R$ 4,7 mil. Em maio deste ano, era de R$ 6,1 mil. Isso significa que, em 2005, eram necessários 41 salários (ou rendas) para comprar um apartamento. Em 2014, essa quantia saltou para 130,2 salários.
 
De acordo com o conselheiro da Câmara do Mercado Imobiliário de Minas Gerais (CMI/Secovi-MG) e presidente da Rede Netimóveis, Ariano Cavalcanti de Paula, a aceleração dos preços a partir de 2005 é uma compensação do mercado, que ficou mais de 30 anos congelado antes dos anos 2000. “O mercado ficou parado, congelado, estagnado”, afirma. 
A recuperação dos preços, de acordo com ele, começou em 2004. Conforme afirma Cavalcanti, antes da valorização, cerca de 80% dos imóveis eram comprados com recursos próprios. A fartura de crédito oferecido pelos bancos fez brilhar os olhos das construtoras que rapidamente começaram a erguer os prédios.
 
Entre 2004 e 2013, o crédito imobiliário no Brasil aumentou 36 vezes, saltando de R$ 3 bilhões para R$ 109 bilhões. Em Minas, o financiamento habitacional bancário cresceu quase 15 vezes, passando de R$ 84 milhões para R$ 420 milhões, no mesmo período. 
A regra máxima do capitalismo agiu com vigor. Com a demanda nas alturas e a oferta mínima, os preços subiram vertiginosamente. E não pararam. Ano a ano, a escalada foi acelerada. Conforme o diretor para Minas Gerais da imobiliária Lopes, Fernando Antunes, a escassez de terrenos, principalmente na região Centro Sul, apertou o cerco e reduziu ainda mais a oferta, até chegar ao que vemos hoje. 
“A expectativa é a de que haja uma acomodação daqui para frente. De que o preços dos imóveis acompanhem a inflação. Mas uma redução não é esperada”, afirma a coordenadora de pesquisa do Ipead, Thaize Martins.
 
 
Ao contrário dos imóveis, veículos estão mais acessíveis
 
Os veículos andam na contramão dos imóveis e se tornam cada vez mais acessíveis à população. Em 2005, um Corolla Fielder 2005 SW 1.8 custava R$ 51.995. Hoje, um modelo Corolla Altis 2.0, que é semelhante ao Fielder, sai por R$ 73.620, segundo a tabela elaborada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). O aumento de 29,4% ficou 35,0 pontos percentuais abaixo da inflação verificada no mesmo intervalo.
 
Quando o valor do automóvel é comparado com a renda real dos 10% ocupados mais ricos da população (já descontada a inflação), percebe-se que praticamente não houve alteração de preço. O valor do carro de 2005 equivalia a 11 salários (renda média dos 10% mais ricos) da época (R$ 4.675), a mesma quantidade verificada para 2014 (R$ 6.525).
 
De acordo com o ex-presidente da Ford e diretor do Centro de Estudos Automotivos, Luiz Carlos Mello, ao contrário do que acontece com os imóveis, a ampliação do volume de produção das montadoras e as novas marcas que instalaram fábricas no país aumentaram a competição e o crescimento das vendas gerou ganhos de escala, colocando freio nos preços. 
“São muitas marcas e modelos à disposição do consumidor. Além disso, as facilidades de compra, crédito e pagamentos também são melhores”, afirma.
 
Em 2004, aproximadamente 1,4 milhões de automóveis foram vendidos no país. O montante equivale ao que foi comercializado apenas entre janeiro e julho deste ano: 1,398 milhão. Para o fechamento de 2014, a previsão dos fabricantes é a de que 4,5 milhões sejam comercializados.
IPI reduzido
Para o professor de economia do Ibmec, Marcus Renato Xavier, os benefícios concedidos pelo governo às montadoras, com redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) também contribuiram para diminuir os preços e impulsionam as vendas. 
Em junho deste ano, o governo decidiu prorrogar a queda do IPI para veículos novos até o final de dezembro. Veículos de até mil cilindradas manterão o imposto reduzido de 3%, enquanto os veículos de mil até duas mil cilindradas terão o IPI diminuído para 9%. O objetivo é estimular as vendas e ajudar o país a enfrentar a crise global.
 
 
Bairros como Buritis e Prado são alternativas
 
Sem renda suficiente para comprar um apartamento nas áreas nobres de Belo Horizonte, a classe média começa a ocupar bairros com metro quadrado mais acessível. “As pessoas que se acostumaram com a Região Centro Sul não querem sair de lá, mas quem não pode pagar procura regiões próximas”, afirma o diretor para Minas Gerais da corretora Lopes, Fernando Antunes.
 
Ele explica que o metro quadrado na região Centro Sul custa, em média, R$ 15 mil, valor que não cabe no bolso de quem recebe a média dos rendimentos dos 10% mais ricos. Por isso, é necessário reinventar o modo de viver.
 
Para atender a esta faixa do mercado, as construtoras elegeram bairros fora, mas próximos da Zona Sul, como o Buritis. Basta dar uma volta no bairro para notar que há algo de diferente no ar. Trata-se de um bairro com estrutura completa, shopping, restaurantes, bares sempre movimentados e prédios imponentes.
 
Entre 2011 e 2013, segundo levantamento da Lopes, foram lançados 16 empreendimentos no bairro e construídas 22 torres, com 585 unidades e R$ 268 milhões de Valor Geral de Vendas (VGV). Os bairros que ficam próximos ao Buritis, como Palmeiras, também tem atraído as construtoras.
 
O Prado é outro citado por Antunes como um bairro procurado por quem quer morar próximo da Zona Sul. “É uma bairro bom, tradicional, com boa localização e comércio”, afirma. 
Entre 2011 e 2013, também segundo levantamento da Lopes, foram construídos sete empreendimentos no Prado, todos com torres únicas, somando 264 apartamentos, com Valor Geral de Vendas (VGV) de R$ 110 milhões.