Feira mais cara: chuva destrói plantações em Minas e leva sacolões a comprarem em São Paulo

Leíse Costa
leise.costa@hojeemdia.com.br
06/01/2022 às 20:45.
Atualizado em 10/01/2022 às 02:02
 (Fernando Michel)

(Fernando Michel)

Com lavouras inundadas e estradas bloqueadas por causa das chuvas que têm caído nas últimas semanas em várias partes de Minas Gerais, safras inteiras estão perdidas, além de perdas significativas nos rebanhos, insumos e equipamentos. No caso das hortaliças, segundo a Faemg (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais), produtores têm relatado perdas que chegam a 100% da plantação, o que provoca desabastecimento no mercado e consequentemente a elevação de preços nos sacolões. “Os produtores de hortifruti estão debaixo d’água; isso é muito preocupante porque eles perderam 100% das suas vendas. São alimentos que não se consegue salvar nada”, relata Antônio Pitangui de Salvo, presidente da Faemg.

Para coletar uma radiografia da situação no Estado e traçar um plano de enfrentamento, Faemg, Emater-MG (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais) e sindicatos rurais fizeram nesta quinta-feira (6) uma reunião emergencial. A expectativa é que o balanço das perdas seja levantado até a próxima semana para que o setor apresente ao poder público.

Antônio de Salvo lembra que o excesso de chuva surpreendeu o produtor, que ainda não havia se recuperado da crise hídrica que durou quatro meses. “Podemos ter a falta de alguma ou outra hortaliça e consequente elevação de preço. O que nos preocupa é o ‘pós-enchente’, porque os produtores acreditaram nas primeiras chuvas e plantaram, fizeram pastos, capineiras e esse planejamento foi por água abaixo”, afirma.

Comprando em São Paulo

Herbert dos Santos, gerente de um sacolão no centro da capital, relata que os hortigranjeiros da Região Metropolitana de Belo Horizonte, o chamado “cinturão verde”, já não atendem totalmente o local, forçando a compra de produtos do Estado de São Paulo, que detém, segundo ele, tecnologia para proteger as plantações da chuva. Com isso, os custos de logística e operacional somam-se ao valor final das hortaliças, verduras, legumes e tubérculos. “No atacado, forma-se uma espécie de ‘bolsa de valores’. Se tem pouco produto, mas a demanda se mantém, a elevação ocorre”, explica.

No entanto, Luciane Cândida, gerente da Comale Alimentos, cooperativa que representa 230 agricultores de 33 municípios mineiros, afirma que, mesmo com a valorização dos produtos, não há oferta. “O tomate subiu, mas ninguém tem para vender porque a perda foi gigante. Em uma plantação que renderia 500 caixas, eles colheram 50”, diz. Segundo Luciane, em uma época normal, o giro de alimento na cooperativa chega a 60 toneladas semanalmente. “Estamos trabalhando com 40% disso”, estima.

Tomate, alface, batata: escassez de oferta fez tudo subir

O preço do tomate, alface, rúcula, repolho, cebolinha, salsinha e tubérculos como batata e inhame, dentre vários outros produtos da feira, já assustam consumidores da capital.

A aposentada Maria do Carmo Santos relata ter ficado “espantada” com a ida ao sacolão que costuma comprar, no Santa Tereza, região Leste de Belo Horizonte. “Fiquei muito assustada, principalmente, com o preço do tomate, que estava custando R$ 11, e o quilo da batata, de R$ 7, que estava inclusive com a cara péssima”, diz. 

Além dos dois itens, a aposentada deixou de comprar a alface, precificada por R$ 3 – folhosa que ela costuma adquirir por R$ 1,98. “Estavam caras e a qualidade não estava boa”, conta.

A explicação para o que o consumidor sente nas prateleiras, mais uma vez, é a inundação das plantações. “Nossa batata inglesa, por exemplo, só temos o que está estocado em Ouro Branco. Quem não colheu antes, não tem como mais. Quando chega a esse ponto, não adianta o saco custar R$ 250, se não tem o que colher”, relata a gerente da cooperativa de agricultores Comale, Luciane Cândida.

Dois meses

Gerente de um sacolão no centro de Belo Horizonte há muitos anos, Herbert dos Santos relata já ter passado por crises de inundações de lavouras em outras ocasiões.

Baseado nisso, ele acredita que os produtores devem se recuperar em torno de dois meses, com os preços voltando à normalidade. “A reconstituição é rápida; a dona de casa tem elementos para se adaptar e continuar a alimentação normalmente. Assim que o tempo firma, os produtores plantam novamente e a colheita vinga em 60 dias regularizando o mercado”, relata.

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