Levantamento da Câmara dos Dirigente Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), divulgado ontem, mostra que, assim como em outros estratos sociais, famílias de classe média da capital têm tido cada vez mais dificuldades para pagar as contas. De acordo com os dados, o total de gastos mensais para uma família de 4 pessoas pode chegar a 42% do salário médio per capita dos belo-horizontinos (R$ 3,553, dado de 2019, do IBGE). E essa situação pode ser agravada pela inflação: o IPCA chegou a 0,87% em agosto, pior taxa para o mês desde 2000, também segundo o IBGE. Só nos últimos 12 meses, a alta de preços acumula 9,68% no país.

Em média, segundo a CDL-BH, as famílias da cidade empregam R$ 6.080,00 por mês para pagar suas contas. Os gastos listados pela entidade vão desde o pagamento de financiamento de imóveis e veículos, compras de supermercado, educação, farmácia, contas de água, luz e internet, até alimentação fora do lar, lazer, combustíveis, planos de saúde e pagamentos de outras dívidas.

Entre os compromissos, os relacionados à moradia são os maiores: as famílias da capital gastam em média R$ 828,57 com as prestações da casa própria. Quem mora de aluguel, não paga tão menos: desembolsa R$ 801 para morar.

Outros custos mensais elevados são os de financiamentos de veículos, que tomam R$ 719 do orçamento; seguidos das compras no supermercado ( R$ 686,70 em média) e o pagamento de mensalidades escolares: R$610.

Já a quitação de “outras dívidas”, como as relacionadas ao cartão de crédito, suga R$ 55,61 por mês da renda dos belo-horizontinos. Segundo o levantamento, aliás, 34% das famílias estão endividadas e, dessas, 99% afirmam que os maiores “papagaios” são oriundos do cartão de crédito. 

Entre as contas, as relacionadas à moradia são as maiores: as famílias da cidade gastam em média R$ 828,57 com as prestações da casa própria

Classes C, D, E

Para a economista da CDL-BH, Ana Paula Bastos, a situação fica ainda pior para as famílias de renda mais baixa – das classes C, D e E –, que têm o sustento derretido ainda mais pela disparada da inflação. “O aumento dos alimentos, das tarifas públicas, dos combustíveis, tudo isso tem um impacto ainda maior para quem ganha menos. Esses já não têm mais espaço para rolar dívidas”, destaca.

O desemprego também é tido como fator de agravamento do endividamento familiar. Sem renda formal e com dificuldades em se recolocar no mercado, muita gente acumula contas sem alternativa para fugir da inadimplência. Paula Antunes, 40, que até março trabalhava como assistente administrativa, se encaixa nessa situação.

Nos últimos meses, até fez alguns trabalhos esporádicos sem vínculo empregatício , mas viu os gastos subirem. “Tudo está mais caro: alimentação, água, luz, gás, transporte. E, na contramão, a renda diminuiu. Já cortamos um monte de coisas em casa, mas a conta não fecha mais”.

 

Espiral

Para fugir da espiral de dívidas, comum para muitas pessoas, a única solução parece ser colocar os gastos no papel e eliminar os supérfluos. “Em tempos de crise e com uma inflação que está engolindo cada vez mais a renda das pessoas, não há saída: é preciso listar o que é essencial e cortar o que, neste momento, pode ser deixado de lado”, ensina o consultor financeiro Paulo Vieira.

 

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