Empresário desde os 15 anos, o presidente do grupo Super Nosso, Euler Nejm, comemora este mês 17 anos de consolidação da marca com planos arrojados de expansão, apesar da crise. Estratégias contribuíram para que o grupo investisse R$ 30 milhões numa fábrica de beneficiamento de frios, carnes e panificação, e outros R$ 20 milhões em nove unidades que serão entregues até o fim deste ano. Já são 45 anos de dedicação de Nejm ao negócio fundado pelo pai, à época um pequeno estabelecimento atacadista em Belo Horizonte.


Como o senhor chegou até a presidência do Grupo Super Nosso?


A empresa tem 75 anos, foi meu pai quem fundou. Sou filho de pais libaneses. Aos oito anos de idade, depois de frequentar a escola, meu pai já me levava para o armazém para que eu me habituasse com os negócios. E, sem querer, fui me interessando. Quando fiz 15 anos, ele me emancipou e passei a ser sócio da empresa com uma cota. Era uma empresa bem pequena. Antes dos 15, fui office boy e me identifiquei muito com a área de vendas. Comecei a fazer pré venda atacadista. Com 16 anos, meu pai dirigia e eu fazia as vendas na rota de Curvelo e Corinto, na região Central de Minas. Quando fiz 21 anos, meu pai faleceu, em 1984. Eu já estava casado e tinha um filho. Foi tudo muito prematuro, mas consegui superar as dificuldades, até de sucessão familiar. Apesar de ser uma empresa pequena, tudo envolve sentimento. Houve desgaste como toda sucessão, mas consegui conduzir e manter a empresa, apesar de tantas dificuldades, compromissos com irmãos e as crises. Em 1998, abrimos a primeira loja do Super Nosso, no bairro Buritis, em Belo Horizonte, já com total administração minha.


Hoje, qual é o tamanho do grupo, que reúne o supermercado Super Nosso, o atacadista Apoio Mineiro e a distribuidora?


Já estamos com 15 lojas do Super Nosso, a loja virtual e 12 lojas do Apoio Mineiro, que vende para atacado e varejo. Este ano, inauguramos uma nova bandeira chamada Momento Super Nosso. Vou fechar o ano com nove lojas dessas. E ainda temos uma loja do Apoio Mineiro para inaugurar em Lagoa Santa, na Região Metropolitana. Hoje, o grupo emprega mais de 8 mil funcionários diretos. Mantenho também uma distribuidora, chamada Decminas, que existe desde o meu pai, mas fomos transformando de atacado generalista para distribuidora.


No ano passado, a rede registrou faturamento de R$ 1,75 bilhão, crescimento de 20% na comparação com 2013. Qual é a previsão para este ano?


A previsão para este ano é faturar em torno de R$ 2 bilhões. Contando com as aberturas que vamos fazer, ano que vem a gente também espera um crescimento de, no mínimo, mais 10%.


Como funciona a Super Nosso Indústria de Alimentos, recém inaugurada pelo grupo?


Este ano inauguramos a indústria, que é uma coisa inédita no Brasil. Tudo que antes era feito nas lojas, agora nós centralizamos na indústria. Conseguimos implantar na fábrica centrais para cada setor, como a de panificação, a de cortes de carnes e a de fatiamentos. A indústria já abastece a seção de carnes de todas as lojas. O corte é embalado em atmosfera modificada, com uma validade superior àquela que é feita em loja. Além da melhoria da qualidade, a indústria proporciona redução de custos, porque posso abrir mais lojas com a mesma infraestrutura. E ela está permitindo que eu abra essas lojas menores, mais compactas, que chamamos de Momento Super Nosso.


Qual foi o investimento necessário para a implantação da indústria?


O investimento na indústria foi alto, em torno de R$ 30 milhões, pois trouxemos equipamentos da Alemanha e da Itália. Agora, estamos com custo dobrado, tenho custo de manipulação em loja e custo de fabricação na indústria. Mas isso porque estamos passando por um processo de transição. A indústria foi planejada há dois anos e aos poucos estamos colocando em funcionamento. Este ano é que está tudo rodando.


A rede comprou as lojas Morini e está investindo em um novo modelo de negócios. De quanto foi esse investimento e onde funcionarão as novas lojas “Momento Super Nosso?


Este ano, a gente encerra com nove unidades. Foram compradas quatro unidades Morini, mais cinco espaços que estamos em processo de abertura de loja. Até novembro, a gente inaugura as outras cinco lojas. O que está permitindo essa expansão é exatamente a indústria, que está possibilitando a abertura de lojas menores, mais compactas e com redução de perdas de produtos e redução de funcionários. As novas lojas vão funcionar nos bairros Belvedere, Funcionários, Santo Agostinho, Savassi e a quinta loja será instalada na avenida Raja Gabaglia.


A expansão para outros estados está nos planos?


Para o Apoio Mineiro, estamos estudando expansão fora da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Em outros estados, ainda vai ficar mais para a frente. Ano que vem, possivelmente, já sairemos da área metropolitana.


Os supermercados também sofrem com a crise?


Não podemos negar a crise. O que temos que fazer é tentar sair dela fortalecidos, essa é a nossa intenção. Não é a primeira e não deve ser a ultima. A crise é que mostra profissionalismo. Aqueles que estão no mercado como oportunistas ou experimentando, acabam desistindo. E a gente faz um trabalho de longo prazo. Sabemos da dificuldade momentânea, por isso estamos fazendo também ações internas para redução de custos. Apostamos muito numa equação que o Super Nosso oferece: preço competitivo aliado a benefícios. Nunca teremos o menor preço, mas acreditamos na qualidade, no atendimento, no mix de produtos mais abrangente. Agora, o consumidor vai perceber uma diferença ainda maior nos produtos que vamos apresentar, por exemplo, na linha de pães artesanais. Vamos utilizar matéria-prima francesa e alemã.


O consumidor brasileiro hoje é mais exigente? A estratégia para conquistá-lo também mudou?


O consumidor muda de hábitos e o perfil também muda. Aquele que era da classe C passou para a classe B, da classe D passou para C. Mas o próprio consumidor não tem resposta quando perguntamos para eles: “o que você quer, o que você gostaria?” Então, nós mesmos temos que buscar essas respostas nas viagens técnicas internacionais que fazemos, nas feiras mundo afora. Mensalmente visitamos diferentes países e trazemos produtos e inovações. A importação é uma coisa que nos diferencia muito dos concorrentes. Temos vários produtos que o Super Nosso importa de forma exclusiva. Vinhos, espumantes, produtos gourmet, industrializados e até mesmo frutas e produtos perecíveis de modo geral. Um produto que antigamente não tinha expressão nenhuma no nosso portfólio, por exemplo, é a tapioca, hoje muito consumida por todas as classes de público. Outra linha que vem crescendo muito é a de produtos funcionais e orgânicos.


O que está mais difícil de vender com alta da inflação e do dólar?


A alta do dólar dificulta um pouco a venda dos produtos importados. Eles vão ficando mais inacessíveis, sem dúvida nenhuma. E o consumidor tende a substituir os importados pelos produtos nacionais. O que a gente espera é que as indústrias nacionais realmente aproveitem essa oportunidade para lançar produtos também de qualidade. Mas uma outra coisa que estamos com planos de expansão é a venda de produtos locais, produtos mineiros. A gente quer valorizar o desenvolvimento de produtos dos mineiros, de pequenos produtores, de pequenos cervejeiros. Queremos dar oportunidade para essas pessoas e pequenas empresas.


Como fica o ambiente de negócios no país após o rebaixamento da nota do Brasil por uma agência de classificação de risco?


É uma pena, porque já estamos com juros elevados, e isso tende a elevar ainda mais os juros, para que o investidor externo mantenha o capital dentro do Brasil. No meu negocio, a administração de fluxo de caixa é muito importante, nós dependemos muito pouco de capital de terceiros. A gente faz todos os investimentos com capital próprio, por isso somos uma empresa econômica e financeiramente sólida. Se eu dependesse muito de empréstimos bancários, poderia estar numa situação mais fragilizada. Isso também pode ser visto como uma oportunidade, se a concorrência tiver dificuldades, por exemplo. Nossa crença é que nosso sucesso não dependa do fracasso de ninguém, e sim da nossa habilidade e do nosso trabalho. Mas pode haver oportunidade, sim, neste momento, o que é normal.


Na sua opinião, qual é pior: a crise política ou a crise econômica?


A crise política potencializa a crise econômica. Hoje existe uma dificuldade do governo até de confiança. Por mais acertadas que as medidas sejam, neste momento, vai haver resistência e dificuldades de implementá-las devido a essa falta de confiança. Isso é uma pena, porque a gente torce para que não haja crise, para que haja solução. Eu tenho prazer de empreender, de criar empregos, de criar riqueza.


Existe uma receita para atravessar a turbulência?


A receita é diminuir despesas. Este é um momento que se eu forçar muito a venda, posso não ter a resposta. Mesmo que sacrifique margem de lucro e ofereça o produto mais barato, se o consumidor não tem poder de compra, a venda pode não responder. Essa equação de não desfocar o crescimento de venda, mas também de enxugar algumas despesas para arrumar a casa, é a que eu sigo. As crises são benéficas de certa forma, sabemos que são passageiras. Se soubermos passar pelas dificuldades, sairemos fortalecidos. É isso que acredito e faço na minha empresa.


O grupo Super Nosso já está na terceira geração. Seus filhos Rodolfo e Rafaela estão no dia a dia do negócio. Quais são as peculiaridades em tocar uma empresa familiar?


Meus filhos já estão no processo. Rodolfo começou aos 13 anos de idade, e está com 32 anos agora. Começou também nas vendas, depois passou a supervisionar as lojas e hoje já é superintendente da empresa na área comercial e de Marketing. Cresceu pelos méritos dele, sendo filho a gente exige até mais. A Rafaela também já incorporou ao ambiente da empresa. Se identificou no Marketing e tem feito um trabalho de valorização da marca muito interessante nos último anos. Acho que a maior riqueza que eu tenho é o fato de os meus filhos estarem no negócio e motivados. Isso não tem preço.