Até o ano de 2040, metade da força de trabalho no país terá mais de 50 anos. Só que é exatamente nessa faixa de idade que tem crescido uma parcela da população que não consegue espaço no mercado. Sem perspectivas, muitos desistem de procurar emprego. Para piorar, ainda não têm tempo de contribuição para a aposentadoria. É a geração dos “nem nem” maduros, pessoas que nem trabalham, nem estão aposentados.

O termo é uma referência aos “nem nem” jovens, multidão de brasileiros entre 15 e 29 anos que não frequentam a escola ou faculdade e também não exercem uma ocupação profissional.

Segundo a economista Ana Amélia Camarano, uma das autoras do livro “Política Nacional do Idoso, velhas e novas questões”, editado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) recentemente, o contingente de homens entre 50 e 64 anos “nem nem” subiu de 191,1 mil, em 1984, para 1,135 milhão, em 2014.

Em duas décadas, a participação desse grupo no total da população nessa faixa etária saltou de 3,5% para 7,8%. E a tendência, com a crise financeira e a piora do desemprego, é que esse número cresça ainda mais.
Conforme ela descreve, no geral, os “nem nem” trabalharam parte da vida sem carteira assinada, na informalidade, e não conseguem o direito de se aposentar. Muitos já não procuram mais trabalho por desalento, porque acham que não vão mais conseguir.

Outros sobrevivem graças às esposas, que ganharam espaço no mercado de trabalho e, de carona, uma jornada dupla ou tripla. E quase ¼ mora com os pais idosos, que recebem pensão pelo INSS.
A pesquisadora analisou apenas a situação dos homens, mas acredita que o contingente de mulheres “nem nem” também deve aumentar.

“É importante discutirmos a situação dessas pessoas, especialmente em um momento em que o governo fala na reforma da Previdência. Não dá para falar em idade mínima de 65 anos, por exemplo, sem que sejam implantadas simultaneamente políticas públicas de inclusão e qualificação dessa mão de obra”, diz.
Ana Amélia reconhece a necessidade de um ajuste fiscal nas contas públicas. Mas ressalta que é importante pensar sobre a empregabilidade.

“Há muito preconceito com relação à força de trabalho mais velha. Então, uma mudança como a idade mínima não pode vir sozinha, sob risco de virar um problema social e aumentar ainda mais a pobreza”, afirma.
Entre as medidas que a especialista chama de “colchão amortecedor” estão parcerias com empresas privadas para contratação de trabalhadores mais velhos, ações voltadas para a saúde e educação, programas de qualificação e requalificação com enfoque nas mudanças tecnológicas e investimentos na mobilidade urbana.
“Se o tempo de deslocamento até o trabalho já é penoso para o jovem, imagina para quem envelheceu. Sem falar nas condições do transporte público”, diz.

As famílias dos “nem nem” maduros geralmente são mais pobres. Em média, o rendimento domiciliar per capita é de R$ 697,20, o que equivale a cerca de 60% da renda dos lares onde não há homens com esse perfil

 

Exclusão do mercado se dá cada vez mais cedo no país

Aos 64 anos, Paulo Álvares sofre de artrite e gota e tem dificuldades para andar. Vendia queijos, mas foram raras as vezes em que trabalhou com carteira assinada. Sem aposentadoria e sem emprego, depende do irmão caçula, o professor aposentado Wilson Álvares, 60, para sobreviver.

“É muito triste chegar nessa etapa da vida nessa situação. Já tentei arranjar trabalho, mas ninguém quer saber de dar emprego para velho”, diz ele, que se identificou com o termo “nem nem” da maturidade. “Esse cara sou eu”, brinca ele.
O preconceito que o idoso enfrenta no mercado de trabalho ganhou um capítulo específico no livro de “Política Nacional do Idoso, velhas e novas questões”, editado pelo Ipea.


Segundo o pesquisador Jorge Felix, além de o mercado demandar por mão de obra mais velha em quantidade abaixo da oferta suscitada pelo envelhecimento populacional, quando ele a absorve, a tendência é fazê-lo em condições de precariedade. “O que se vê é a negação das empresas em manter os trabalhadores maduros, sob a justificativa de redução de produtividade ou de corte de custos de produção, pela demissão dos empregados com salários mais altos”, anota o especialista.


De acordo com Felix, a exclusão do mercado, que se dá cada vez mais cedo, explica, em parte, o fato de o trabalhador por conta própria aparecer como segunda condição mais verificada de inserção do idoso no mercado de trabalho.
Joaquim Alves, 66, já trabalhou na lavoura, lavra de diamante, carvoaria e na construção civil, quase sempre sem ser fichado. Hoje, sem espaço no mercado, luta para tentar juntar documentos e obter a aposentadoria. “Faço bico quando aparece e conto com a ajuda de Deus”, diz.

Segundo o pesquisador do Ipea, as metamorfoses do mercado de trabalho verificadas desde as últimas duas décadas do século XX provocaram o aumento da vulnerabilidade do trabalhador em idade cada vez menor, já a partir dos 45 anos, tendo grande impacto na fase pós-laboral da vida.


Para ele, a taxa de empregabilidade dos trabalhadores maduros é fortemente correlacionada ao nível educacional e à capacidade e à vontade política de estabelecer uma espécie de rede nacional com a iniciativa privada. É preciso, portanto, fomentar ações de gestão de pessoal em consonância com o conceito de “sociedade para todas as idades”.

claudia